o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (4) - PASSOS ISOLADOS EM MEIO A UM CONTINENTE DE DISTÂNCIAS

Quase perdido na periferia da cidade, que preenchia a palma da minha mão.


16730436_1886288261642556_2477790616547151963_n.jpgHouve diversos momentos em que me senti, em Paris, e pela primeira vez na vida (pelo menos sob condições normais), inteiramente sozinho (algo que eu queria, confesso, mas que também não queria). Alguns desses momentos se deram em lugares muito bonitos. Outros, com pessoas que em seus pequenos gestos até me ajudaram. Outros, em absoluto desespero (como nunca havia experimentado antes). Foi em Paris que entendi a distância em que consistia o outro.

Após visitar Montparnasse, e descansar um pouco da tarefa, num contexto em que eu me via completamente isolado e distante de tudo o que me rodeava, eu precisava me aprontar para trabalhar. Tinha muito material de divulgação. Tinha o endereço do local da feira (a alguns quarteirões do hotel, numa direção que eu não tinha pegado). Tinha os registros da feira e o local, nela, em que ficar. Tinha malas pesadas e algum dinheiro da empresa e meu - que eu separava discriminadamente. Eu tinha que pegar um táxi até lá. Tinha que me virar para chegar na hora, e fazer o que eu devia de forma ordenada. Não tinha superior no momento, mas eu precisava cumprir aquilo para que estava sendo pago.

Lembro-me bem de que o hotel ficava apenas perto do entroncamento de ruas que iria me levar diretamente ao local da exposição. Para chegar ao entroncamento, eu precisava andar um pouco. Para ir do entroncamento ao local, ou eu ia a pé ou por outros meios (ônibus ou táxi). Sei que no dia de começo da feira eu peguei um táxi. Sei também que nos outros dias eu experimentei ir a pé (já com menos malas a carregar) ou de ônibus. Naquele então, estavam sendo noticiados problemas corriqueiros como greves de serviços essenciais em Paris. Creio que uma dessas greves era dos motoristas e cobradores. Tudo isso tinha a ver com um contexto maior, em que forças com caras definidas brigavam por bandeiras que eram discutidas na tv e nos jornais. Eu reparava nessas discussões, que aconteciam em programas que perduravam pela noite. Também notava as manchetes dos jornais, e sentia um clima de discussão bastante acirrada no ar. Percebia que chegara numa cidade em discussão política constante, e em que as pessoas cidadãs meio que se consideravam imersas. Via até jovens opinando nos programas, com argumentos de um lado e de outro. Notava (antes, eu notara em outras viagens para outros países) que, embora isso me atraísse, não dizia respeito a mim mesmo, falava de personagens que para mim eram novidade; notava que tudo aquilo tinha a ver com discussões nas quais eu não estava envolvido por ser estrangeiro. Via como tudo aquilo me afastava ainda mais do entorno. Era como se eu não existisse. E realmente, naquele contexto geral, eu não existia.

As greves que afetavam o meu transporte eram situações assim de fato. Não havia o que dizer nem pensar. Era como se fossem fatos da natureza a que eu tinha que me acomodar. Eu jamais me meteria a questionar o porquê de tudo acontecer daquele jeito. Jamais me meteria a tentar entender. Eu não era nada naquele contexto, e assim continuaria sendo. Via as pessoas distantes, preocupadas com coisas cujos contextos elas conheciam, andando para lá e para cá pensando em suas vidas, seus direitos a conquistar ou a perder, suas contas para pagar, enquanto eu permanecia distante de tudo aquilo, preso a compromissos que me faziam ficar em determinados locais por algum tempo, solto no espaço em meio a paisagens que me atraíam mas cujo real significado íntimo passava batido por mim. Era como se eu fosse um habitante da Lua, que por algum motivo tinha que passar por ali naquele contexto, mas cuja distância íntima eu estava ainda apenas aquilatando.

A feira de que eu participava era internacional. As pessoas que me abordavam no estande que eu tinha, comprado ou permutado pela editora, eram de diversos tipos. Havia também os brasileiros, com os quais conversava um pouco mais. E havia os locais, franceses que passavam por ali tentando entender em que medida podíamos ajudá-los. Mas eu me sentia em geral satisfazendo um afã de presença. Dizendo que nós, nosso país e nossa editora, estava por lá. Que nossa presença dizia algo que ela própria servia para aquilatar. Que nossa função era ficar restrito àquele lugar para causar um efeito. E que no fundo eu era um marionete fazendo espaço e figura. Eu mesmo na verdade pouco importava. Importava que alguém estivesse lá e esse alguém era eu, por algum acaso do destino. Minha identidade não era muito relevante. Minha opinião, se eu a tivesse, ainda menos. Claro, eu era um funcionário, apenas. Mas, menos que isso, eu era apenas um corpo vindo de outro lugar ocupando um espaço e meio que defendendo uma espécie de imagem, de marca. Qualquer iniciativa no sentido de provar algo que dissesse respeito a mim como pessoa era descabida. Não fazia qualquer sentido dizer que era eu a estar ali por ter algum mérito ou algo a dizer. Isso não era relevante. Claro que eu deveria ter algum mérito para aquilo. Mas isso era um pressuposto que, naquele lugar, pouco interessava. Ocorre que eu queria me sentir meritório, pelo menos. Queria sentir-me especialmente especial naquele lugar. Mas eu não conseguia, claro. Porque para estar ali eu precisava apenas estar. Não ser especial.

A feira, como muitas a que iria ir, tinha local para almoço e lanches. E num determinado momento eu fui até lá. Era um lugar na média bem mais chique do que aqueles que eu já conhecia em outros lugares. Com gente de paletó e gravata na fila, assim como moças de vestidos de boa qualidade. Mas um lugar em comida por quilo, contrariamente ao costume local, e em que a diversidade causava (ou ao menos me causou) uma grande surpresa. Eram tantos petiscos que eu me confundia. Peguei alguns deles e pesei, e a conta me surpreendeu. Sentei-me e comi e algo aconteceu estranho. Parecia que alguns daqueles sabores entravam em mim por onde eu não experimentara jamais alguma coisa semelhante. Achei muito estranho e quase vomitei. Mas entendi que aquela comida era assim. Que havia uma riqueza ali no paladar a que eu não estava ainda acostumado. Que eu precisava me adaptar e perceber que não havia nada errado com aquilo. Que de certa forma, até certo ponto, era eu mesmo o errado.

Bem sei que muitos de vocês podem estar se perguntando: mas quem era você, naquela época? Eu era um sujeito que nunca havia ido à Europa, que conhecia por livros alguns de seus personagens, que nunca havia se sentido inteiramente só e estrangeiro numa civilização mais avançada que a minha, que não tinha uma correta noção nem de si mesmo nem do local em que estava trabalhando, mas que lutava para poder entender algo cujo valor não sabia ainda aquilatar. Um sujeito provinciano em meio a gente que se sentia à vontade e em muito melhores condições de vida, distante de todos da família e imerso num contexto estrangeiro que apesar do tudo esperava ali de alguma forma também se reconhecer e se encontrar. Lembro-me que, assim sendo, tudo para mim naquela situação era sumamente difícil. Conversar era difícil, pedir o sal também, pedir um mero café às vezes chegava a ser complicado, olhar a outra pessoa, tão chique, me tornava menor do que ela de forma imediata, eu sentia até que os aromas que me rodeavam pareciam não ter nada a ver fisicamente comigo. Eu era um deslocado, como muitos dos personagens de Beckett. Ou uma pessoa metafisicamente à parte, como no caso de Cioran. E uma pessoa que se sabia frágil em meio a tudo aquilo, sem muitos recursos a utilizar em prol de si mesma. Num contexto cuja lógica desconhecia, mas que mesmo assim a dominava. Todos sabemos como o estrangeiro, no romance de Camus, se afasta de todos, de forma inapelável. Eu não tinha sequer essa opção comigo, porém. Eu estava de antemão afastado apenas por ser como eu era. Como o homem invisível, de Ralph Ellison. Mas não havia aparentemente nada de errado comigo. Tudo isso apenas eu o sentia.

Foto: Esse é o centro onde trabalhei. Claro que a exposicao nao era essa. É um centro de exposicoes, do tamanho de um Anhembi ou pouco menor.


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