o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

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Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (5) - NUNCA MAIS AQUELE CAFÉ E AQUELA COMIDA

Impressões de quem se deixou levar pelo jeito do lugar - e pelo estômago.


16729104_1886631578274891_2225383399055135562_n.jpgSó fui duas vezes a Paris, em 2003 e 2005. Somando, fiquei no máximo duas semanas. E, dessas semanas, gastei pelo menos 6 dias preso numa exposição, em que precisava trabalhar direto. Saía naqueles dias pela manhã, chegava à noite esgotado, e não podia fazer praticamente nada no tempo que restava, porque precisava descansar, tomar um banho, comer em algum lugar próximo ao hotel, e porque Paris também é uma cidade mais ou menos morta à noite. A graça de ver Paris à noite, flaneando no meio das ruas, é factível, mas em alguns lugares também um pouco perigosa. Tirando também o fato de que eu cheguei no final da tarde do primeiro dia e saí pela manhã do último, tive apenas 4 dias para percorrer a cidade e visitar alguma coisa. Nada, em suma. Dizer que conheço Paris é quase um sonho. Vi e olha lá.

Mas como aquelas eram as únicas oportunidades que na época eu tinha de viajar para aqueles lugares, sendo parcialmente pago pelo meu trabalho, eu passava, durante todos aqueles dias, com o olhar super aguçado. Via aquilo como se não fosse viver de novo. Reparava nas ruas e nos carros como se eu fosse em seguida mandado a Marte. Reparava em tudo e tentava sorver os dias como nunca antes (fiz o mesmo nos Estados Unidos, em Cuba, em Machu Pichu e no Equador). Mas esta viagem a Paris era a que inaugurava essa minha forma de conhecer, vivendo.

Claro que quando você faz esse tipo de coisa tende a supervalorizar muito do que acontece. A achar que uma pessoa entrando no táxi é uma visão especial; a considerar que a gentileza de pessoas com você representa a forma como um povo todo fala com você; a achar qualquer ato de maior violência como uma amostra do caráter brucutu do povo todo ou mesmo de algumas de suas instituições. Para acalmar, e ver tudo com um olhar mais comedido, é preciso um certo distanciamento. Ver o que nos acontece com um olhar distante mas ao mesmo tempo aguçado. Identificar o que realmente importa disso que acontece. Não ficar viajando na maionese. Fiz isso na ocasião. E costumo fazer até hoje, mesmo onde moro, onde passo meus dias.

Eu trabalhava durante o dia. Saía um pouco à noite. Nos dias que restavam, ia aos lugares que mais realmente me atraíam. Não fui a Versailles. Não entrei no Louvre (quando vi a galera se amontoando, não achei que valia a pena). Fui à torre Eiffel, mas acho que só em 2005. Na verdade, eu preferia ficar nas redondezas de onde eu estava, ir de metrô para alguns lugares mais conhecidos ou entrar nas livrarias. Percebi muita coisa interessante. Muitas particularidades do lugar que dialogavam imensamente com minhas pretensões. Aspectos que até hoje repercutem em meu consciente, por revelarem nossa relação com aquele lugar, com o saber daquele lugar, com a história que afetou aquele lugar e ambientes distantes, como os nossos. Mas eu andava pelas ruas e precisava descansar. Assim como precisava de mais energia. E a solução mais adequada era naturalmente o café.

Montparnasse, deixo bem claro, é um bairro em si mesmo intelectual. Um bairro repleto de pequenas lojas, sebos, antiquários, pequenos restaurantes, livrarias bastante aconchegantes, e tudo o que nós, vizinhos distantes, achamos que lá tem por ver os filmes. É um bairro em que as cafeterias estão em todo lugar. Mas onde o café é muito caro. Só para ter uma ideia, uma xicarazinha bastante simples em qualquer café me saía por não menos do que dez reais sempre que a tomava. E uma xicarazinha como os copos de café de padarias em São Paulo. Algo que não parecia render nada de chique, que consistia apenas no café e nada mais. Mas isso era uma impressão falsa, como vim entender. Tomar café em Paris é outra coisa.

Para explicar o caráter especial de fazer qualquer coisa naquela cidade, preciso me remeter a momentos que eu passei e que não tinham nada demais. Foi algo sobre o que refleti bastante, e que me fez concluir que algo naquela cidade parece repercutir ainda hoje em nossa psiquê que nos torna uns malucos querendo voltar para lá. O primeiro evento que eu cito aconteceu num restaurante. Foi assim. Na ocasião, eu voltava da exposição para o meu hotel, perto dali. Resolvi ir a pé. A avenida que eu peguei não era muito íngreme, e o clima estava bom, frio, mas nem tanto. Eu estava com fome. Tinha algum dinheiro comigo e vi um restaurante japonês. Um restaurante simples, sem nada a destacar. Resolvi entrar e comer alguma coisa. Postei-me numa janela e fiquei ali esperando a comida chegar (nem lembro se era muito boa). Num determinado momento, enquanto esperava vi uma moça com um traje bastante comum, mas de chuva e de frio, passando pela rua. Ela andava normal, sem qualquer atrativo em particular. Ela nem era muito bonita, se querem saber. Mas algo naquilo, naquela cena, me atraiu. Fiquei absorto vendo essa moça andar aqueles pequenos passos no meio da chuva, com seu guarda-chuva. Algo de repente me pareceu realmente maravilhoso, e eu não sabia o que era. Na hora em que senti isso, parei, desconfiado. Mas peraí, que porra é essa? Não está acontecendo nada demais! Mas era lindo de ver. Pois, por alguma razão, aquela cena naquele lugar sem graça parecia-me algo extraordinário. Entendi que Paris parece fazer com que alguns aspectos em nossa psiquê se juntem em determinados momentos e nos façam achar que aquilo, que aquela cidade, é unica, extraordinária.

Mas isso não acontece apenas em momentos, na rua. Acontece também nos cafés. Mas aí o processo é diverso. Todos sabemos, aqui conosco, que um café é apenas um café. Mas também sabemos que um café, a depender da situação, nunca é apenas um café. Ocorre que aos poucos fui percebendo que os cafés em Paris pareciam diferentes. Não sei ainda se era pela aparência dos lugares. Ou porque as mesinhas eram muito chiques, em quase qualquer lugar que eu as visse livres. Ou porque o ambiente convidava a curtir o café de outra forma, mas sensível, profunda, até mesmo intelectual. Eu não sei bem o que acontecia. Ocorria que eu pedia um café e me sentia num ambiente qualitativamente diferenciado. E que eu sentia isso na hora. Havia algo no cuidado do rapaz ou moça que traziam o café. Mas havia algo também no próprio café, que tinha um sabor que a gente não queria que se restringisse aos efeitos do café. Quando eu parava e tomava um café era como se algo acontecesse. Como se o mundo parasse para me esperar. Como se eu parasse em meio à rua para admirar a paisagem. Como se finalmente houvesse paisagem a admirar. Era estranho. E caro. Mas sempre acontecia. Não quero novamente dar a impressão de que Paris é tão superior a qualquer outro lugar. Quero apenas compartilhar com vocês da sensação que eu experimentava.

Claro, isso não se restringia aos cafés de Paris. Isso acontecia, em maior ou menor grau, em qualquer restaurante, por mais humilde que fosse. E aumentava nos restaurantes de melhor qualidade, em que eu não me sentia muito à vontade (quem sabe por isso mesmo). Porque tenho que confessar: eu não consegui almoçar, jantar ou comer mal em Paris. E olhem que eu tentei economizar. Escolhia lugares menores, meio perdidos no meio das ruas, com gente bastante humilde. Escolhia lugares baratos, que eu pudesse pagar facilmente e nos quais eu não me sentisse deslocado. Escolhia cafés simples ou quase simplórios, em becos que não pareciam muito convidativos. Jantei e almocei em vários lugares, nas minhas estadas em Paris, e posso dizer, com toda a convicção, que aqueles foram os melhores pratos que eu comi na minha vida. Era surpreendente. Não sei o que acontecia.


Contreraman

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