o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (6) - UMA TÊNUE IDEIA: ACASO EU ERA MESMO (OU QUERIA SER) INTELECTUAL?


16730109_1886871261584256_6132410964382491195_n.jpgEm 2003, eu ainda fazia Filosofia na USP e ainda me deixava influenciar (em demasia) pelo aspecto francês e ilustrado do departamento. Minha ideia, naquela época, de intelectualidade remetia, então, à França, aos luminares franceses e àquela forma de entender o que era intelectual. Claro que eu sofria também a influência do intelectualismo inglês e norte-americano, assim como a presença da Rússia nas artes e em tudo mais, mas a França era a fonte de minha imagem de intelectualidade. Por isso, visitar o país e Paris era acima de tudo uma espécie de volta às origens. Claro que tudo era muito singelo, pelo pouco de tempo que eu iria passar por lá, mas era simbólico, seja como for.

Dessa forma, eu, nessas pequenas viagens, aproximava-me da fonte da qual eu aprendia. E por isso, do meu jeito questionador, eu tentava ver se era mesmo aquilo. Um aspecto que já nos primeiros dias me chamou a atenção era a grandiosidade (em porte) dos sebos ao redor dos quarteirões em que ficava a Sorbonne. Lembro-me em particular de haver visitado um desses sebos, e de ele ser apenas sobre antropologia ou estudos culturais. Pois bem, apesar de abarcar apenas um pequeno nicho do conhecimento, ele era maior e tinha um pé direito mais alto que qualquer biblioteca que eu havia conhecido sobre humanas. Só ele parecia responder por, digamos, metade do acervo da biblioteca da História, na FFLCH. Quando vi aquela realidade, pensei comigo que não era possível mais competir. Pensei que naturalmente nós, latino-americanos, ao menos nos campos em que estudávamos, e que tinham origem ao menos inspiracional naqueles cantos, sempre iríamos ficar subalternos, dependendo de tudo o que viesse daquela região. Lembro-me que saí convencido disso e que aos poucos a Filosofia foi perdendo seu élan em mim. Porque eu sentia que por todo o sempre iríamos ficar à sombra, é claro, de tudo que surgisse dali. E creio que, apesar da estreiteza mental de meu pensamento, eu de certa forma tinha razão. Não mudei de pensamento, em linhas gerais.

Mas passar os dias em meio àquelas ruas causava uma impressão em mim. Dava a impressão de que estava em algum lugar onde as coisas aconteciam - ou haviam acontecido. Dava a impressão de que ali a gente poderia tomar um café com a sensação de, em nossas discussões intelectuais, estarmos prevendo o futuro da Humanidade. Porque, a partir de certo momento, é isso o que minha incursão nas ciências humanas aparentava: que eu tinha de alguma forma a permissão para pensar em nome do todo. Claro que isso no fundo é uma bobagem, alimentada pelo ego enorme de muitos luminares que fazem questão de posar como donos da verdade nesse campo. Mas no meu caso era sincero. Eu sentia que tinha autoridade moral para discutir o todo, e que as ciências humanas me davam em grande parte essa autoridade moral. Claro que havia outro aspecto a ressaltar. Naquela época, eu já lia Cioran e seu jeito macambúzio de questionar os pretensos luminares, à sua época, daquelas mesmas ciências. Eu me lembro, por exemplo, de como ele comenta o jeito industrial de Sartre lidar com seu campo de conhecimento, como se fosse uma máquina - e como Cioran criticava esse tipo de coisa, achando um despropósito e algo que não o atraía. Eu também já achava, por outro lado, que aquele tipo de postura arrogante dos caras de ciências humanas não tinha razão de ser: nem existencialmente, nem na prática. Porque eu sempre tive maior apego por aquilo que era exato, por aquilo que tinha a ver com as ciências matemáticas e físicas, e também porque o objeto de estudo da exposição em que eu trabalhava era esse. Nesse sentido, via aquelas pessoas nos cafés discutindo entre si como quase vagabundos, gente bem sustentada que fingia uma pose que no fundo não teria como sustentar. Não via, por outro lado, o charme daquilo. Porque charme foi sempre algo que, por um lado, me amedrontava (por querer algo de mim), e por outro lado me causava riso (como se realmente dissesse algo diferente sobre o real). Não via charme, como até hoje não consigo ver. Via beleza, tudo bem, lojas belíssimas, o Café de Flore, com sua entrada majestosa e suas cadeiras bem colocadas, e tudo mais. Mas não via o charme de tudo aquilo. Era lindo, bonito mesmo, mas não me causava a ideia de um especial valor.

Não cheguei a entrar na Sorbonne, que é um prédio bastante discreto. Não fui a muitos sebos mais. Não fiquei dando a impressão de saber das coisas, bebendo café em algum lugar especialmente bonito. Nem entrei no Café de Flore, pensando no lugar que Cioran deve ter ocupado quando Sartre entrou - e ele o observou, e escreveu a respeito. Fiquei ao invés disso andando meio perdido por aquelas ruas bastante largas e com pouco trânsito em busca de livros que pudessem me interessar. Entrei em algumas pequenas livrarias, mas permanecia distanciado dos e das atendentes (quase sempre extremamente gentis), com medo do meu péssimo francês trair minha suposta (ou patente) ignorância. Comprei poucos livros, que ainda possuo, mas peguei vários prospectos de lançamentos (todos muito bem feitos, com muita elegância). Olhava a rua, ao sair das lojas, e via aqueles prédios de no máximo 5 andares, todos antigos, e via como aqueles lugares eram bonitos. Era como se eu voltasse no tempo, como se a majestosidade do passado me embalasse e embalasse a pequena possibilidade de voltar a sentir a vida como eu nunca a sentira antes.

Para falar desse aspecto, digamos, "chique" que é visitar esses quarteirões, não posso deixar de me remeter a um momento de minha viagem em 2005, dois anos depois da primeira. Eu não me lembro em que hotel eu fiquei. Só sei que uma noite, final de tarde, eu saí para jantar em algum lugar de preferência barato e divisei, vindo em minha direção (era em direção de um restaurante), um ministro do Lula buscando um lugar, acompanhado, onde pudesse jantar. O sujeito passou por mim (era o secretário de comunicação do governo), olhou o cardápio e ficou comentando com a mulher, muito bonita, que estava com ele. Ele comentava com bastante desconhecimento de causa, sem saber sequer soletrar os pratos. Mas eu também estava na mesma, dificilmente sabia o que realmente estavam me servindo. Vi aquilo um ou dois minutos e percebi claramente como, em geral, todos nós que visitamos as metrópoles nos tornamos imediatamente uns provincianos e uns sujeitos que mal sabem como andar, passear, se comportar ou mesmo falar. Uns metecos, como diz o Cioran. Porque no fundo, quando passamos por aquilo, somos isso que somos. Ocorre por outro lado que não somos metecos. Somos apenas sujeitos fora do seu lugar. Qual o nosso lugar? Pois é, é a questão. Não conversei com aquela autoridade. Fiquei na minha, até tentei orientá-lo quanto a algo, de que me esqueci, mas segui ao invés disso o meu caminho. Não entrei naquele restaurante, que era bastante caro para minhas pretensões. Nem me lembro onde comi.


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