o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (10 - FINAL) - DEVANEIOS


16864362_1889431541328228_839377771659144422_n.jpgA gente nunca sabe aonde nossa vida vai nos levar. No meu caso, levou-me a dilemas e problemas tamanhos que por vezes me senti impossibilitado de reagir (inclusive por problemas de saúde, doença psíquica, da qual eu sofro e que irá me acompanhar até o fim). Mas muitas vezes somos nós que alimentamos nossos problemas, não sabendo ouvir ou enxergar, não conseguindo distinguir direito as coisas, tentando de todas as formas reagir aos eventos (mas não sabendo como, e fazendo muita coisa errada), etc. No meu caso, identificava a Filosofia com Paris. E imaginava esse mundo como algo diferenciado, melhor, mais cultivado, em suma, algo que pudesse me retirar da mediocridade em que me sentia, e em que insistia em estar, por não ousar olhar mais longe.

Paris é uma cidade plana. Não é muito grande (refiro-me à Paris de que todo mundo ouve falar). Sair de onde eu estava, quase na periferia, em direção ao centro, não é tão distante assim. Claro que para isso tem que andar. E muito. Mas é possível percorrer a cidade, com boa vontade e algum jeito. Os principais pontos turísticos são possível de se enxergar de quase qualquer ponto da cidade. Dá para ver a Torre Eiffel ao longe, e ir até ela - e chegar até ela. Para isso, é preciso passar por ruas arborizadas e bonitas, por avenidas com flores dos dois lados, por becos que só eles mesmos já possuem um charme bastante acentuado. Aos poucos, chega-se aos locais esperados, entra-se nas atrações, vê-se a cidade por cima (como na Torre) e percebe-se que tudo foi feito para ser admirado. A cidade foi uma das primeiras no mundo inteiramente urbanizada, e nela, ela mesmo é a atração. Não tem nada de lugares sem planejamento, feios, sem tratamento adequado, nem nada. A cidade é toda pronta para ser admirada e curtida. Andando. De preferência a pé.

Quando eu fazia Filosofia, e me defrontava com a elegância dos textos de um Rousseau (especialmente dos Devaneios de um Caminhante Solitário), tentava imaginar em que consistiria seu trabalho de sair por aí, devaneando. Por sua vez, já sabia muito bem que Baudelaire havia criado todo um tipo de jeito de vida com suas flanêries, suas andanças em meio à cidade, que se transformariam no hábito de flanear ou passear simplesmente pela cidade. Claro que os flanêurs, os habitués desse tipo de costume, se tornaram conhecidos especialmente alhures, como em Londres, com Wilde, ou outros sujeitos tão ou mais célebres. Mas teria sido em Paris que tudo começou. Outros passeantes célebres também povoavam naqueles dias minha mente. Como o já citado Cioran, que gostava de passear pelos Jardins de Luxemburgo, e que vivia ali perto, atrás do Senado, da pequena e bem nutrida de livrarias Rua do Odeon (que tem esse nome por causa do teatro). Eu queria visitar os jardins, era uma meta, e pensava também em conhecer lugares por onde meu deus Rousseau teria passado. Mas não sabia como era esse negócio de curtir o passeio em Paris. Foi quando me habituei em poucos dias à cidade que percebi.

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Mas aqui tem um ponto que cabe ressaltar. Tá certo que essa cidade francesa, a capital, onde tudo acontece, era identificada com essa ideia de flanear. Tá certo que era ali que tudo havia começado. Era ali que era tão gostoso andar e curtir a paisagem, tomar café e almoçar ou jantar. Era ali que podíamos ver o rio Sena, e as construções à sua margem, uma mais bela ou representativa que a outra. Mas, passados tantos anos (mais de treze, da primeira viagem), hoje sei que nada há que efetivamente distinga Paris de outras cidades nessa questão de flanear e curtir a vida, mesmo em lugares feios e sem graça. Porque, se tem algo que aprendi com o tempo, foi que a paz vem de dentro. Paris é feita para nos trazer um charme em meio a uma paz qualquer. isso é claro. A gente se sente, naquela cidade, imediatamente à vontade. Mas também não é preciso exagerar tanto assim. A gente pode se sentir similarmente em nossas próprias ruas, becos e entroncamentos. Podemos e até devemos. Muitas vezes, claro, não conseguimos porque estamos imersos em nossos problemas, ou atarefados em demasia, ou sem vontade de olhar o sol e a paisagem. Mas isso é possível, e mais, é isso o que dá graça à vida em grandes cidades. Nada mais. Paris é só um lugar onde, por tradição, algo disso apareceu em primeiro ou segundo lugar, e que foi trazido a primeiro plano. Só isso.

Claro que, seguindo o meu relato, que deve terminar neste texto, nada poderia ter saído pura e simplesmente de forma natural em minhas passagens pela Cidade-Luz. Vocês também reparam que eu não exagero. Simplesmente mostro como foi. Para que outros tentem quem sabe ver alguma graça. Mas também para eternizar, ao menos em meu perfil, aqueles momentos que eu vivi. Porque eu os vivi intensamente.

Não me lembro o que visitei primeiro. Claro que já disse que visitei o Cemitério de Montparnasse. Mas ele não o considerei como uma visita flaneada, em meio a uma Paris a ser visitada com tranquilidade. Eu queria chegar a alguns túmulos, lá no cemitério. Eu tinha um objetivo. Pode ter sido nos Jardins de Luxemburgo, que visitei num dia livre, que estava bastante ensolarado na ocasião. Lembro-me de que cheguei até eles com certa dificuldade. Eu não havia me acostumado às distâncias, por um lado. Mas eu também não tinha uma real ideia da dimensão deles. Não sabia como eles iriam aparecer, se do nada, em meio a um vazio, ou se no meio da cidade. Ocorria que eles apareciam no meio da cidade. Com umas alamedas repletas de árvores floridas, e nas quais eu entrava vendo alguns banquinhos em que podia me sentar. Mas eu não queria apenas isso. Eu queria conhecer o lugar em que Cioran passara. Eu queria sentir aquele afã diferenciado de jardim cuidado e bonito, onde poderia refletir em paz. Porque Cioran já havia ido embora, mas de certa forma eu também me considerava morto, falecido, deixado para trás. Como ainda, em boa medida, me sinto.

Olhando agora o mapa, percebo que entrei por uma espécie de alameda nos Jardins que servia para isso mesmo. E que chegando lá vi uns belos jardins. Belos, sim, mas que hoje não me parecem tão monstruosamente lindos. Pois eu tinha em mim a ideia do flanear naqueles mesmos jardins de Cioran. E era isso na verdade que mais me conquistava. Pois é claro, os jardins eram belos e não estavam lotados. Lembro-me de que havia cadeirinhas de ferro em que sentar. Lembro-me de que havia alguns casais andando, crianças e velhos, e que aquilo me causava uma ótima impressão. Ao fundo, o prédio do Senado. E atrás dele, a rua do Odeon, onde morava o meteco (onde fui e onde tentei encontrar o prédio dele). Lembro-me de que foi gostoso visitar aquilo. Mas lembro-me também que à saída, já bem distante dos Jardins, eu chorei. E pedi para um sujeito na rua tirar uma foto minha, nessa situação. Não sei por quê. Devo ter essa foto em algum lugar. Mas lá, nos Jardins, não consegui relaxar. Senti que eu não era bem daquele lugar. Que eu não tinha requisitos suficientes para pensar como ele, o meteco, pensou. Talvez em outro lugar eu tivesse esses requisitos. Mas ali, nos Jardins de Luxemburgo, não era onde eu deveria fazê-lo.

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Lembro-me de ter andado por detrás dos Jardins e do prédio do Senado. Lembro de ter andado pela rua do Odeon e vislumbrado o lugar em que Cioran vivia. Lembro-me de ter entrado num alfarrábio com alguns originais, e que andei por aquela região bastante à vontade. Flanear naquelas ruas era simpático, e eu agradecia por poder estar por lá. Por sua vez, quando me meti a andar em ruas mais conhecidas (ao redor do Arco do Triunfo, por exemplo, ou em direção ao Champs-Elysées), algo aconteceu. Ou algo acontece em minhas lembranças. Pois me lembro que havia ficado sem dinheiro ou algo do tipo. E que em 2003 havia ligado para o Brasil, bastante preocupado ou desesperado. E que olhava para todos aqueles turistas alemães ou de outros países das redondezas e me sentia mais só do que nunca. Um só em todos os sentidos. Minha esposa se preocupava. Eu não conseguia falar com minha família. Eu estava em cacos, emocionalmente falando. E queria ir embora dali. Uma ironia. Eu estava exatamente pisando uma das avenidas mais chiques e caras do mundo, e queria ir embora dali. Eu não me sentia dali, eu me lembro bem. Por outro lado, em 2005, quando passei pelo mesmo local, numa Paris sonolenta e totalmente vazia, andando com calma por aquelas ruas de pouca inclinação, eu me sentia vivo como nunca. Flaneava como os mais conhecidos atores, os célebres, devem ter flaneado em suas respectivas épocas. Passeei aqueles dias com muito prazer. E entendi, ou quase entendi, o que era sentir-se à vontade na Cidade-Luz.

Vi prostitutas perto das Galerias Lafayette. Vi casacos de couro que custavam o valor do meu carro, na época. Comprei uma pequena lembrança para minha então esposa, com o pouco dinheiro que eu tinha. Vi muita coisa da qual não bem me lembro, e que não cumpre muito contar aqui. Passeei perto do rio Sena, às suas margens, entrei num restaurante bem caro e comi bem. Mas me senti muito solitário na ocasião. Como sempre, o prato me surpreendeu. Percebi o que é estar na melhor culinária do mundo. Percebi também o que é ser um provinciano de marca maior. E parecer estar sempre de fora do que acontece. Por mais normal que isso que aconteça seja. Acompanhei os protestos dos estudantes secundaristas, e percebi claramente quando o bicho iria pegar - e pegou (saiu nos jornais). Entendi que ali, na França, a política é extremamente atuante, mas que escapa do meu conhecimento - e de minha vontade de conhecer. Percebi o tanto que Paris parece um museu, e o tanto que não é. Flaneando percebi que a cidade quer nos deixar a nós, turistas, em paz, mas que nós sempre buscamos mais nos entender do que entendê-la quando a visitamos. Flaneando a gente descobre que lugar é aquele.

Talvez eu volte a visitá-lo um dia. Quem sabe.


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