o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (7) - MAS EU MORRI MESMO FOI NOS MUSEUS E NOS REENCONTROS COM A HISTÓRIA

Um pequeno périplo na cidade que é, ela em si, um museu.


16649423_1887741291497253_5479113477533874209_n.jpgNa época em que visitei Paris, em 2003 e 2005, eu já estava sobejamente influenciado pela arte de forma geral, e afundado em meus questionamentos pela história. Pela arte com A maiúsculo e pela história com H maiúsculo. Mas eu não me deixava atrair pela arte costumeira. Pelo menos eu não me deixava. Não estava interessado em percorrer o Louvre, por exemplo (em cuja entrada acabei indo). Não estava interessado em admirar as igrejas (vi a de Notre-Dame bem de longe), nem em me sentir diminuído por outros tipos de arte. Minha arte em particular já era contemporânea, e admirar os clássicos de todos os tempos (até o século XIX) não era algo feito para mim. Eu já me sentia um homem do século XX. Não precisava ir para tão distante de mim para perceber o drama.

Já em questões históricas, era o inverso. O atual, em geral, não me atraía muito. Sentia que os debates do século XX diziam respeito a questionamentos que não me afetavam tão profundamente quanto aqueles que formataram o espaço para o que iria vir (embora eu fosse jornalista). Nesse sentido, eu estava, em termos de arte, preso ao século XX e, em termos de história, preso à Revolução Francesa (isso, naquela época). Foi interessante reparar como vi com certo desprezo os monumentos a heróis recentes, sobre os quais já vou contar. Já sobre os clássicos da história da Filosofia, esses eram os que me tiravam do sério. Eu devia estar ainda assoberbado pelo estilo da escrita, pelas imagens que restaram daquela época, pelo significado simbólico de algumas datas, pelas minhas leituras recentes sobre personagens que ficaram para a história.

Já disse que passei em frente ao Louvre mas não entrei. Houve um motivo além do idiossincrático para isso. Eu me aproximei do local pelas laterais. Avancei pela rua que ladeia do grande imóvel acostumando-me aos poucos à sua majestade. Andava e andava e parecia que nada acontecia. Ele era um imóvel realmente imenso. Aos poucos, começaram a aparecer os jardins que ficam em frente a ele. Jardins bonitos, bastante bem cuidados, em que diversas pessoas passeavam e pelo qual outras se dirigiam à entrada. Mas a entrada era bastante distante, e eu sentia que havia um certo problema do espaço e tempo conduzindo esse tipo de presença. Era como se o espaço nos fizesse sentir um tempo diferente. Como se, ao demorarmos demais até chegar lá, estivéssemos dando oportunidade para uma impressão de maior importância em nosso íntimo a tudo aquilo. Eu me sentia de qualquer forma muito distante. Lembro-me de que, ainda bastante longe de tudo isso, mas com fome, comi um petisco num lugar qualquer. Daí fui passando pelos jardins em frente ao Louvre. Foi quando vi uns sujeitos latino-americanos vendendo umas tranqueiras, uns brinquedos que se mexiam, num dos pequenos caminhos que compunham o jardim. Me deu um asco imenso ver isso. Porque eu tenho um certo orgulho de ser o que sou, latino-americano. Tenho um certo orgulho da vida que vivi e que ainda vivo. Ver um sujeito aparentando ser como eu fazendo esse tipo de coisa me deu uma grande vergonha. Claro que era só isso, um peruano ou equatoriano tentando ganhar uma grana com um brinquedinho. Mas a ocasião não era adequada. Isso me tirou toda a graça da cena. Era como se alguém me dissesse, você é que nem ele, vem do mesmo lugar. Me senti inadequado, embora soubesse que era só uma pequena impressão. Mas já comentei como me sentia isolado, só, verdadeiramente estrangeiro. Quando vi aquela multidão, percebi que não valia a pena me esforçar tanto para fingir que era o que talvez não fosse. Entendi minha inadequação naquele contexto todo. Me tornei novamente um total estrangeiro. Foi isso que aconteceu.

Em 2003, minha fixação também era conhecer algo mais, naquela visita, sobre a Revolução Francesa. Mas claro, eu não tinha tempo para ler nem tinha dinheiro para comprar muitos livros. Então, só me restou ir a alguns lugares simbólicos. Eu queria visitar o túmulo de Rousseau. Mas não sabia onde ficava. Meti-me a ir ao cemitério de Pére Lachaise (já havia ido ao de Montparnasse), e para isso peguei o metrô, que me deixou mais ou menos perto do local. Passei por algumas ruazinhas que me iriam remeter a filmes, e vi algumas cenas que me causaram forte impressão (como a discussão entre um homem e uma mulher, ambos de rua, aos gritos, com um francês impecável, que parecia cena de fime). Fui aos poucos chegando no cemitério quando perguntei à atendente onde ficava o túmulo de Rousseau (eu não sabia que o Pére era o cemitério dos artistas, Jim Morrison por exemplo está lá). A moça, muito educada, me disse bastante surpresa que eu tinha que ir ao Pantheon, o que era óbvio mas eu não sabia. O Pantheon ou a Igreja de Santa Genoveva, eu iria saber algum tempo depois, fora construído em volta dos túmulos de Rousseau e de Voltaire, quando eles foram trasladados para lá. Eu bati com a mão na testa e fui para lá, que ficava bem no centro de Paris (se é que Paris tem um centro, na verdade tem vários). Lembro-me de como entrei naquele lugar, e de como estava vazio. Era uma igreja bonita, muito bem cuidada, com algumas cordinhas indicando onde não era possível passar. Fui entrando e vendo uma ou duas pessoas naquele local. Vi uma turista norte-americana perdida que não sabia o que se passava - e com o que fiquei enojado. Daí vi a casinha onde estão os restos de Rousseau. Na época, eu era ateu ou descrente, e esse encontro me comoveu demais. Chorei bastante em frente àquela casinha, que estava, fisicamente, bastante distante de mim. Chorei e nem quis ver onde ficava Voltaire (em frente a Rousseau), nem onde ficavam os túmulos de outras personalidades importantes para a história daquele país. Não queria saber, e não queria também ir embora de lá. Mas passada uma hora mais ou menos, "me despedi" e fui à seção de livros, onde a pessoa que me atendeu se surpreendeu com meu conhecimento da história e ficou muito feliz ao saber disso, vindo de onde eu vinha. Todos os atendentes me receberam muito bem, na ocasião, e entendi que a antipatia dos franceses era a impressão que ficava naquele que não conhecia de antemão algo do valor que eles mostram. Porque, eles sendo entendidos como são, se deixam atender muito bem.

Em 2005, eu fui para outros locais na cidade, e em termos de museus me motivei a ir ao Georges Pompidou, de arte moderna e contemporânea. Com arquitetura bastante arrojada, o Pompidou tem em seu interior algumas amostras de Francis Bacon e outros pintores do século XX que na época me fascinavam a não mais poder. Eu sentia que tinha que vê-los ao vivo (eu não os havia visto ainda, nem em mostras no Brasil), e me deliciar com sua presença. Fui até lá. Bacon estava num andar bastante alto, e para isso precisei chegar por escada ou elevador, não me lembro. Sei que eu estava fissurado com a simples ideia de vê-lo. De repente, entrei num corredor que me levou a uma sala bastante grande em que haviam três telas enormes, uma ao lado da outra. Era um tríptico dele, um dos mais tradicionais de toda sua carreira. Eu me lembro que não cheguei a ajoelhar-me diante daquilo, mas que imediatamente chorei. Bacon, deixo claro, era o artista que melhor expressava o ser humano para mim naquela ocasião. Um artista que eu conheci por uma capa de caderno do finado Jornal do Brasil, em São Paulo, num sábado, que abri no café Viena que fica no Conjunto Nacional, na Paulista. Um artista que me fez ficar literalmente boquiaberto com a sua descoberta. Um artista que virou fixação para todo o sempre em minha vida, e sobre o qual comprei muitos livros, alguns que ainda nem li. Um artista sobre o qual escrevi um livro há alguns meses em apenas cinco dias, talvez querendo me afastar de sua influência em mim. Eu via aquelas telas, me aproximava delas, e chorava copiosamente. Comigo se deu algo similar àquilo que aconteceu com o Gerald Thomas quando viu Rembrandt, na Holanda, acho. Só que não desmaiei. Eu simplesmente chorei muito, copiosamente, e não parei de chorar nem um instante enquanto eu estava lá. Claro que ninguém se deixou levar por aquilo que eu sentia. Eu estava literalmente sozinho na ocasião. Nada podia mais me atingir, também. Quando desci daquele prédio, fui-me comprar alguns livros, mas como todos os livros de arte ou sobre arte eram muito caros. Lembro-me de ter comprado uns três, pequenos, e que entendi que também naquilo eu estava sobremaneira distante do esclarecimento a que queria chegar. Eu ainda queria decifrar o mundo. Algo que em boa medida iria conseguir fazer depois, com meus próprios meios, e que não teria mais muito a ver com a Europa nem com sua história ou seu legado. Eu começava a me afastar daquele local, daquelas pessoas bem vestidas, daquelas influências vindas a maior parte delas "de cima". Mas eu não comentei ainda como foi minha experiência na exposição, com aqueles profissionais, não expliquei mas ainda vou comentar, remetendo a outra viagem que fiz depois, para Hamburgo.

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