o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (8) - O CONTEXTO PROFISSIONAL

Porque lá os profissionais pegam bem mais pesado (numa sociedade bem mais organizada).


16640616_1888406251430757_2537365524239752060_n.jpgCom toda certeza, a maior parte do tempo que eu passei em Paris, naqueles anos de 2003 e 2005, se deu em meio a profissionais do setor das revistas em que eu trabalhava. Note-se que em ambos os casos eu estava muito animado com a possibilidade de trabalhar naquele evento, com aqueles profissionais, mas não sentia se estava ao nível deles, para falar a verdade. Eu me sentia um patinho feio, pobre e mal munido de informações, que iria lidar pessoalmente com os maiores especialistas daquelas áreas, sem ninguém para me ajudar, nem na leitura dos materiais com que eu iria lidar, nem nas entrevistas, que iriam ser em inglês, espanhol ou mesmo francês. Era a primeira vez que eu era defrontado com desafios desse calibre, mas eu estava muito animado.

Nos meios em que eu começava a trabalhar, eu não era conhecido. Havia acabado de entrar nas revistas. Havia escrito matérias para um ou dois exemplares, apenas, e meu conhecimento era bastante pequeno, quase ínfimo. Note-se que eu havia entrado como jornalista para cobrir materiais técnicos num mercado que, no Brasil, tinha mais de 40 anos, com profissionais tarimbados. E somente os melhores profissionais iriam àquela feira, na França. Eu conhecia de vista alguns deles, e outros conheciam o lugar em que eu trabalhava. Mas as revistas, apesar de lucrativas, não eram consideradas unanimidade. Havia uma profunda desconfiança em relação à tarimba e mesmo idoneidade do lugar em que eu trabalhava. Na feira, na França, nós - a editora - tinha um estande conseguido por permuta. Nesse estande, eu colocava as revistas e materiais de divulgação, e pouco podia sair dele. Precisava me manter no seu interior, e fazer matérias quando desse tempo. Eu não tinha assistente nem ajudante. Tudo era eu que tinha que fazer.

Acontece que eu também não conhecia direito o perfil dos profissionais com que iria trabalhar nos 11 anos seguintes. Não sabia de suas particularidades, nem sabia como eles tratavam os meios de comunicação e os próprios colegas. Minha chefe havia me avisado: eu entrara numa espécie de família, na qual seria aceito ou não. Ou seja, numa espécie também de máfia, em que eu precisaria lidar com os jeitos de cada um, com as manias dos profissionais, com a necessidade de tentar compatibilizar interesses e tudo o mais. Ou seja, entrava num meio que não conhecia e, naquele então, na França, lidava com outro meio, com o dos profissionais daquele continente (e de todo o mundo) na particularidade de que se comunicavam pelo conhecimento mútuo nas empresas em que trabalhavam e pelo domínio do assunto com que tratavam. E o assunto era materiais de altíssimo rendimento, estudados em todo o mundo por institutos às vezes genéricos, às vezes especializados, mas sempre muito sérios, e que tinham critérios também seríssimos para avaliar os produtos que eram apresentados naquela feira. Ou seja, eu só lidava com gente da pesada. isso sem contar os executivos, que eram executivos do nível de empresas de grande, médio ou pequeno porte de qualquer outro setor. Gente jovem muito mais esperta e conhecedora dos assuntos do que eu.

Nos anos que iriam vir, eu iria me tornar uma pessoa aceita no setor. Na verdade, por causa de minha paixão ao assunto, e às revistas a que me dedicava, iria me tornar uma boa referência para aquele nicho de mercado. Iria visitar muitas daquelas empresas pessoalmente, ficar amigo de vários daqueles especialistas (alguns dos quais iriam falecer nos anos que se seguiriam, para meu lamento, pois iria ficar muito próximo a vários deles), iria fazer materiais de referência para todo aquele setor, e iria inclusive ganhar um prêmio de jornalismo (meu único) em função disso tudo. Isso, claro, iria também me render alguns dissabores, como incompreensão, ciúme, inveja e disputas. Mas enquanto estava em Paris, naqueles dias, eu não sabia nada disso, nem conseguia intuir. Eu apenas convivia com gente que eu não conhecia direito, num continente que me era estranho, com ramos de conhecimento nos quais eu era um iniciante (se é que chegava a isso, pois era apenas um jornalista, não um especialista), e com empresas enormes, cada uma com uma história em particular, cujo trabalho eu não conhecia, ou dele sabia só de ouvir falar. Como a EADS, por exemplo, um ramo da Airbus especializado em tecnologias aeronáuticas cujos frutos na prática eu via com bastante admiração mas cujo real alor não conseguia entender.

Naqueles idos na França, então, na JEC, eu olhava tudo com extrema admiração mas também com estranheza. Via tecnologias que nem de longe poderia ter no Brasil, mas não conseguia entender o seu mérito. Via conquistas em termos de processos que eu não conseguia avaliar direito. Lia releases sobre eles, que tentavam explicar em que consistiam, mas no fundo mal conseguia entender o seu mérito. Acumulava material e mais material com o qual eu iria trabalhar nas semanas seguintes, para a cobertura na revista, mas só me restava mesmo reproduzi-lo, porque eu não conseguia entender em que consistia. Por sua vez, no evento em si, eu ia às coletivas e às entrevistas em particular e mal conseguia fazer perguntas de alguma forma relevantes. Perguntava o básico, com meu inglês macarrônico, tentando não passar vergonha, e disso tirava míseras linhas, que viravam por sua vez míseros textos que depois eu iria reproduzir. Falava com aqueles executivos e jornalistas com visível mal-estar, porque me sentia fragilizado, excessivamente cobrado e excessivamente atarefado. Mas não arredava pé em minha intenção de não passar vergonha, no produto final que eu iria apresentar. Guardava tudo o que podia para quando chegasse no Brasil eu poder fazer uma cobertura de respeito. Na verdade, o material que eu iria depois escrever iria ficar para a história como o maior material de cobertura jamais feito antes naquelas revistas. Foram mais de 20 páginas em 3 dias de trabalho. Foram muitas tecnologias sobre as quais eu escrevi muito texto e me matei para descrever bem, na medida do possível, é claro. Eu queria, mais que manter meu emprego, e poder continuar viajando para trabalhar e conhecer o mundo, fazer algo de que me orgulhasse no futuro. Queria marcar presença e provar minha competência.

Mas as pessoas, lá na França, eu notava, me viam com certa estranheza. Olhavam para mim, que não parecia ficar quieto, e não pareciam se sentir muito à vontade comigo. Eu me vestia muito mal, estava bastante descuidado com tudo, e meu inglês era bastante ruim. As entrevistas demoravam por causa disso, eu não conseguia ser muito objetivo, minhas perguntas não faziam muito sentido, e eu via que os executivos não se interessavam muito pelo resultado possível de todo aquele esforço (porque eles, pelo menos, viam que eu me esforçava muito, muito mesmo). Por outro lado, os brasileiros me viam de passagem, me cumprimentavam, mas também não me davam uma atenção especial. Sentiam que eu era apenas a pessoa daquela vez, o cara que havia sido contratado para marcar presença em nome de revistas que eles não avaliavam tão bem assim, e cuja imagem não era tão boa como muitos imaginavam. Eu simplesmente era o brasileiro que tentava fazer o impossível, como outros antes também haviam tentado. Mas eram simpáticos comigo, pelo menos. Eu passei aqueles dias naquele sufoco, então, tentando manter meu emprego e minha aparência, sem me descuidar de nada do que acontecia e imaginando que isso poderia garantir-me uma sobrevida profissional. Era bastante desafiador, e eu não reclamava. Nem pensava em sair daquele estande rápido para poder visitar a Paris, lá fora. Somente tentava cuidar daquilo que era meu. Era muito desafiador ficar sozinho cuidando de tudo, e lidando com aquela gente. Se bem que eu me sentia menos capacitado do que o necessário, de muitas formas, para a tarefa. Mas isso não se traduzia em falta de dedicação, nem em incompetência. Simplesmente parecia ser demais para mim. Não o era, mas parecia.


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