o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

QUANDO VISITEI PARIS (9) - UM XENOFOBISMO VERDADEIRO OU VONTADE DE ACHINCALHAR

Porque a sociedade de lá, dividida, também se vinga nos desavisados.


16830625_1889086168029432_6444546003472413199_n.jpgSou imigrante. Vivemos, nossa família, no Brasil tendo imigrado do Chile. Por isso, e ainda mais eu, que me naturalizei, sabemos como é essa sensação de se saber imigrante, por um lado, mas por outro não atribuir um grande valor a determinados tipos de imigrantes. Olhamos o outro por esse olhar estranho, meio enviesado, e não nos arrependemos disso. Todo imigrante para a ser muito crítico ou talvez até mais crítico que os nativos quanto aos imigrantes posteriores ou de diferentes tipos.

Minha passagem em Paris, especialmente em 2003, se deu em meio a outros imigrantes. Os sujeitos do hotel que me receberam eram imigrantes ou próximos a comunidades de imigrantes. Diversas pessoas com que lidei durante minha passagem pela cidade eram da África ou descendentes de imigrantes. Em 2005, tive oportunidade de passar de trem pelos bairros periféricos de Paris (bem mais distantes que os industriais) e vi a condição sob a qual eles viviam. Eram periferias que não fariam feio perante as nossas. Lugares descampados, estações distantes, muito espaço mal aproveitado. Dava para ver que ali a vida deveria ser bastante difícil.

Mas, nas minhas duas estadias em Paris, não fui muito maltratado pelos imigrantes de lá mesmo (com exceção de um caso específico, em 2003, que irei contar a seguir). Eles me viam com desconfiança, me tratavam friamente, mas não abusavam de minha confiança nem tentavam me enganar a partir do maior conhecimento do local por parte deles. Já os franceses me tratavam com bastante formalidade. Pois, embora esperassem que eu falasse com eles algo de sua própria língua, não exigiam claramente isso.

Os atendentes de metrô e de outros lugares onde eu precisava comprar alguma coisa ficavam impacientes com minhas hesitações, mas só. Mas embora uns e outros se comportassem dessa forma descrita, havia uma certa antipatia no ar. Não culpo os franceses ou os imigrantes disso, claro que não. Simplesmente Paris é uma cidade grande como qualquer outra, e o trato entre as pessoas simplesmente tem muito a ver com isso. Sei apenas que, em virtude das exigências a que estava sujeito, e por minha situação mambembe, eu preferira ficar na minha, como que um homem numa redoma de plástico, visitando aquela cidade de forma distante, sem tentar me entrosar com quase ninguém. Claro que por causa disso meus breves contatos com pessoas na rua poderiam assumir um ar excessivamente relevante, no contexto geral. E era isso o que acontecia.

Um aspecto que me chamou a atenção, em todo o tempo (muito pouco) que passei por lá, foi a forma bastante agressiva e cruel com que o lado aparente das autoridades tratavam alguns transeuntes que poderiam parecer suspeitos. Lembro-me de que eu estava no metrô de Paris, apinhado, uma tarde e que de repente chegaram diversos sujeitos corpulentos e colocaram um cara qualquer contra a parede. O sujeito não fazia nada na ocasião, mas parecia estrangeiro. Simplesmente ele foi anulado sem dó nem piedade e tratado com bastante selvageria. Numa outra ocasião, eu passava por uma rua quando de repente aparece um veículo enorme a mil por hora na rua sem dar a menor explicação, traçando o que estivesse na sua frente. Isso me fazia crer que a paz daquela cidade era mantida de forma bastante cruenta, e que era bom não se iludir.

O caso de abuso de um estrangeiro contra mim surgiu no final de minha primeira estadia na cidade. Eu não sabia utilizar o cartão de minha chefe para pagar as contas. E, como eu me atrapalhava com os números, o atendente se exaltou e decidiu me dizer poucas e boas, que eu não era bom pagador, que isso não iria ficar assim, que eu não poderia ir embora, etc., me ameaçando de coisas que não tinham nada a ver. O colega dele viu o exagero da cena, e interferiu, após longos minutos. E com isso conseguimos resolver tudo. Mas eu fiquei apavorado com a possibilidade de ficar preso por ali, sendo que tinha vôo, e com minha situação, sozinho naquele lugar, com aquele pessoal. O amigo que ajudou na cena depois resolveu me dar carona para o aeroporto, e foi com ele que eu fui embora de Paris. Claro que ele cobrou, em seu carro, mas foi pouco. E foi bastante interessante, porque no caminho vi algo da Paris industrial, essa que está longe da imagem tradicional da Île de France.


Contreraman

Antes: E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem. Depois: Vale o que tem amor..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/sociedade// //Contreraman
Site Meter