o olhar amor na arte após o fim da arte e da filosofia

Veja ao seu redor - a saída existe e está em tudo e em todos nós

Contreraman

Antes:
E as coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca terminarem. Até um fim que nunca vem.

Depois:
Vale o que tem amor.

contreraman

Contreraman

Tudo começa sempre com um olhar. E esse olhar determina o futuro e, depois, o passado, e, enquanto isso, o presente. Ninguém olha da mesma forma, sempre. Os olhares vêm, vão e se vão para muitas vezes voltarem. Eu descobri que a vida estava restrita a um olhar infinito por dentro das coisas e especialmente das pessoas. E entendi que até então vida mesmo eu não havia tido.

Porque:

Dizem por aí que o bebê às vezes se recorda dos momentos que passou na barriga da mãe. As biografias de Samuel Beckett insistem nisso, por exemplo. Mas comigo não teve nada disso, não. Eu realmente não me lembro de nada. Na verdade, não me lembro de nada até os 6 anos. É como se eu não tivesse vivido aqueles primeiros anos, como se eu tivesse levado muito tempo para realmente começar a viver.
Claro, as fotografias dessa época não me deixam mentir. Nos primeiros anos eu era um garoto gordinho, saudável e sorridente, vestido de menina pela minha irmã 3 anos mais velha, Ximena, enquanto percorria com um andador o apartamento da família, localizado no centro de Santiago, no Chile. Nem me lembro direito a desculpa que minha irmã dizia que tinha para vestir-me de menina.
Outra fotografia da época, num instante do qual QUASE me lembro, mostra um garoto já mais magro e menos sorridente olhando para a direita enquanto parece esforçar-se para fazer andar um triciclo bem primitivo. Essa foto fora tirada em outro local, qual seja, na casa que minha família havia comprado no bairro de Las Condes, também em Santiago. Uma casa pequena e inesquecível que muitos anos depois só olhei de longe, com alguma saudade. Naquela foto eu ainda tinha bochechas, que iriam sumir alguns anos depois quando fui diagnosticado com raquitismo e quando iria tomar remédios para expulsar uma tênia da barriga – bicho escroto que iria minar bastante de minhas forças. Eu era barrigudo que nem aquelas crianças da África.
Não são muitas as fotos que tenho da época – fotos essas que minha mãe reuniu e me deu de presente muitos anos depois. Outras dessas fotos mostram-nos, à minha irmã e a mim, nas ruas do bairro, com nosso carro ao fundo (uma “citroneta” 2 CV), sem comércio, escolas ou qualquer outro tipo de construção. O bairro de Las Condes, pelo menos aquele trecho dele, era muito novo à época, sendo que para fazer compras era necessário descer uma quantidade razoável de quarteirões ou pegar o carro e ir ao centro da cidade. Uma lembrança que jamais irá me abandonar era a agradável sensação da “citroneta” balançar ao passar uma lombada logo na saída do balão da Avenida Cristóbal Colón, rumo ao centro.
A vida era agradável naquela época. Lembro-me que passávamos, nós, as crianças, brincando o tempo todo nas ruas desse bairro quase abandonado ou no jardim de nossa casa, construindo fortes que arrebentávamos com pedras que jogávamos uns nos fortes dos outros.
Todas as casas das imediações de nossa casa eram de tamanho praticamente idêntico. Os jardins começavam a tornar-se belos, assim como as árvores das praças (havia três só nos quarteirões mais próximos). As praças eram pequenas. As ruas, quase desertas. Passavam vários minutos até que aparecesse um carro – ou mesmo uma criança de bicicleta.
Eu nunca tive muitos amigos e as meninas que eu conhecia não eram muito bonitas ou atraentes. Lembro-me em especial de um desses amigos, cujo nome esqueci, e que me tratava com certa crueldade, como as crianças mais experientes geralmente tratam umas às outras. Mas não me lembro realmente de detalhes. Um dia eu fui a uma festa de aniversário nas redondezas. Outro dia admirava um Mach 1 que um vizinho deixava na rua. Outro dia ainda tentava subir às árvores de uma outra praça vizinha. Já nessa época eu tinha um comportamento meio solitário. Uma criança ensimesmada de poucos amigos e comportamento taciturno.
Eu já disse que era raquítico e que tive de tomar remédios para expulsar uma tênia de minha barriga. Mas outras doenças que já se manifestavam eram a asma e uma certa propensão a comportamentos desviantes. A asma para mim sempre foi terrível. Eu tinha ataques frequentes de asma por causa do excesso de plantas com flores naquele bairro. Um dia uma garota vizinha riu de me ver sofrendo um ataque. Mandei-lhe um chute na bunda do qual nunca me arrependi. Quase dá para ver a cara da garota ao levar a pancada.
Já quando me deitava, eu ficava mexendo minha cabeça de um lado para o outro e por isso não dormia com facilidade. Minha família chamava esse comportamento de “A” porque eu ficava repetindo “a...” enquanto mexia a cabeça bruscamente de um lado para o outro. A criança que eu era também se destacava por mijar na cama e por usar chupeta continuamente. Na verdade, só abandonei a chupeta aos 9 anos de idade. Uma eternidade. Quase um sinal de que eu não queria mesmo crescer.
Um dia minha mãe me levou à escola. Eu chorava e gritava que não queria ir. Mas não adiantou – como aliás era necessário. Lá dentro, na escola, eu acabaria arrumando uma briga e enfiando um soco na cara de um desafeto. Nunca gostei de sair de casa para deixar minha mãe ou meus pais sozinhos. Não porque me preocupasse com eles, é bom ressaltar, mas por ter medo. Do quê, não sei.
Eu sempre fui uma criança obediente. Não fazia nada que minha mãe não quisesse. Como meu pai era calado e taciturno – trabalhou numa multinacional até 1973 –, minha mãe era quem dava as cartas em nossa residência. As mulheres sempre foram mais fortes em todos os ramos de minha família – incluindo tios e tias. Os homens davam o dinheiro, é certo, mas os critérios de valor eram elas que espalhavam.
Em nossa casa, o meu pai, Guilherme, provia os recursos. Mas quem mandava mesmo era minha mãe, Julia. Maníaca por limpeza (em outro momento do livro explico por quê), minha mãe obrigava as visitas a pisarem pequenos carpetes para não riscarem o piso da sala, por exemplo. Até hoje lembro com certa estranheza de episódios desse tipo. Mas eu iria depois confirmar que eles eram verídicos. Até me recordo de mim mesmo rastejando pela sala com um pano nos joelhos.
Não tive namoradas na infância. Toda minha atração pelas meninas consistia e restringia-se a amor platônico. Nunca soube para que consistia esse pedaço de carne entre minhas pernas – meu pinto –, nem sabia que realmente gostava dessa ou daquela. Elas simplesmente me atraíam pela beleza. Nunca havia falado com elas. Ficaria décadas sem fazê-lo. Muitas décadas. Eu era tão ingênuo que até os 30 anos achava que menina bonita não podia comer no mesmo bandejão que os míseros mortais. Menina bonita que eu nem conhecia, é certo.
Nessa época mesma eu já começava a apresentar sinais de fanfarronice. Embora nunca tivesse falado com ela – e tivesse medo da simples ideia de tentar –, dizia à minha família que estava apaixonado por uma garota loira do outro lado da praça. O nome dela era Cocoy, e seu nome era citado numa música de um grupo folclórico. Minha irmã e minha mãe riam muito de mim quando a música era tocada. Tiravam sarro de minha paixão. Eu não sabia o que pensar, nem o que sentia. Ainda hoje tenho o cd do grupo. “Cocoy, Cocoy, mañana mevoy”, dizia a letra.
Claro, eu vivia num país que se desintegrava. O presidente estava sendo deposto enquanto eu crescia, a economia em frangalhos bombardeada por uma grande parcela da população de direita – inclusive parte dos meus familiares –, os ânimos se acirravam e algo aconteceu em minha vida quando vi uns aviões jogando bombas na casa do presidente, que ficava a poucos quarteirões de distância. Era o dia do golpe, do qual eu não me lembro nada, mas que iria deixar um impacto surdo na minha vida. Mas eu não levava nada muito a sério – não queria entender nada e gostava da sensação de medo que o barulho das bombas fazia.
Minha fixação por armas deve ter surgido nessa época, pois soube muitos anos depois que um dos meus tios colocou uma arma nas mãos do meu pai, para que ele se protegesse e à sua família. Por muito tempo eu adorava desenhas armas, pistolas, tanques, navios e aviões de guerra. Até quando saímos do país e entramos numa lógica completamente diversa. Estrangeiros em seu próprio lugar.
Mas a vida continuava, e as visitas à casa dos meus tios, no bairro de Ñuñoa prosseguiam como se nada estivesse acontecendo. Um dia fui mordido pelo cachorro deles. Outro dia passava o tempo me deixando enlevar pelo balanço no jardim dos meus primos. A comida era regada a chá e biscoitinhos, e de vez em quando eu me metia a chamar a atenção, como qualquer criança exibicionista e fanfarrona daquela idade.
Íamos também à fazenda do meu tio Alberto, localizada a poucos quilômetros da cidade. Havia morros que nós, crianças, subíamos e amoras que colhíamos nos limites da propriedade. Saíamos todos machucados com os espinho, mas também sujos com a cor das frutas nas nossas bocas. O meu tio tinha alguns cachorros, bem maiores do que aquele que me mordeu, mas deles eu não tinha tanto medo.
Meus tios e tias falavam, à mesa, de um jeito bem particular do qual nunca me esqueci. Havia um clima, à mesa, de sociabilidade repleta de ironia que eu não entendia. Eu soube depois que, como em toda família, havia intrigas em que meus pais eram continuamente citados, e que algumas das tias não gostavam de minha mãe e de certa forma invejavam nossa existência – minha e de meus irmãos. Mas nunca soube nada disso enquanto criança – e talvez isso não viesse a fazer nenhuma diferença. Passei décadas lembrando os móveis que compunham a sala que tanto frequentávamos, assim como as pinturas sem graça que faziam o gosto desses casais e crianças em crescimento.
Eu ia à escola, é certo. Uma época frequentei um colégio alemão, do qual me lembro bem pouco, mas cujo rigor deixou uma impressão bem profunda. Outra época estudava num colégio estadual em que aprendia bastante sobre batalhas de independência, precisava desenhar acontecimentos como a Batalha de Maipú e tinha de cantar o hino nacional toda segunda-feira com o braço direito estendido, como nas saudações nazistas – vim saber depois.
Escrever faz com que me lembre de brinquedos que tinha à época, como carrinhos de ferro imitando clássicos dos anos 50 ou peões que eu não sabia jogar. Como sempre guardei tudo que me caía nas mãos, esses brinquedos me acompanharam por muitos anos, embora nem mexesse mais neles. Sempre gostei muito de carrinhos, que invariavelmente copiavam modelos vendidos na Europa e nos Estados Unidos. Meus familiares e especialmente meu pai idolatravam os estrangeiros, principalmente os ingleses e norte-americanos, sendo que nós, crianças, ouvíamos LPs de trilhas de filmes ou desenhos-animados (Bambi, por exemplo, era um must entre nós), traduzidos para o castelhano. Depois vim descobrir que os mesmos LPs eram vendidos à época no novo país em que iríamos nos mudar, o Brasil. Traduzidos para o português, com acepções bem especiais.
Enquanto os supersônicos passavam no sopé da Cordilheira dos Andes, onde vivíamos, para causar medo – o Golpe havia se consumado, e eu nem sabia em que ele consistia –, meus pais refletiam que o melhor era ir embora – meu pai perdera o emprego na Ford, com as políticas nacionalistas do presidente deposto – ou simples medo das multinacionais. Vim saber depois que a Austrália havia sido cogitada e até tentada, mas também que não dera certo. A aposta seria o gigante da América do Sul, o Brasil, que tanto parecia estar crescendo e que tantas oportunidades parecia envolver. O Chile não sabia quase nada desse país, que era identificado com gente morena, florestas, macacos e coisas desse tipo. Mas meu pai não levou mala e cuia com ele, sem se preparar. Viajou antes, arrumou emprego – seu inglês perfeito ajudou-lhe bastante –, e mandou um cartão-postal convidando-nos a segui-lo. Lembro-me que ele prometeu no cartão um dia me levar a ver um jogo de futebol. Nunca cumpriu a promessa.
Lembro-me com bastante detalhe da despedida, em que vi pela última vez outra menina bonita que me causava grande impressão, vizinha de minha tia Lily. O nome dela era Cristina, e ao contrário da Cocoy era morena. Seu rosto quadradinho acompanhou-me por anos a fio, mas nunca ouvi falar dela novamente. Nem quando viajei para visitar os meus tios, muitos anos depois. Uma lembrança daquela tarde foram recortes de jornal em que apareciam aviões de guerra e desenhos de militares. Eu achava que queria ser aviador. Não entendia realmente o que se passava. Nem poderia. Guardei os recortes comigo.
Antes e durante a viagem eu lia sem parar um verbete sobre o Brasil de um dicionário Larousse que eu nunca soube como veio parar nas minhas mãos. Era uma espécie de lição de casa para saber exatamente onde iria parar. Tanto li o verbete que decorei o território do país, assim como outros dados que na minha ingenuidade de criança mimada explicavam como nada mais em que consistia a terra do samba e do futebol – os meus pais haviam visto Garrincha e Pelé jogarem em 1962, no Chile. O dicionário ainda está comigo, e inteiraço.
Viajamos de avião pela Varig. Era um barulhento 707 que me causou forte impressão. Chegamos em Viracopos, na cidade de Campinas, e quando desembarcamos alguém disse a minha mãe que tínhamos de ir embora porque lá, no Brasil, “eles matam”. Um comissário negro e alto ajudou-nos com as malas. Saímos do avião na própria pista de pouso e pegamos um táxi enorme – um Galaxie – rumo a São Paulo, próximo à avenida Paulista.
Não sei que cargas d’água aconteceu que chegamos na avenida em plena comemoração de um título de futebol – o Campeonato Paulista pelo Corínthians. Ao nosso redor milhares de pessoas gritavam por algo de que nem tínhamos ideia enquanto víamos que horas eram lá no alto do Conjunto Nacional. Nosso hotel ficava ali perto, e se chamava Amarante.
Lembro-me perfeitamente bem de ter ouvido Tim Maia e Jorge Bem (Jor) da sacada da janela de nosso quarto no hotel, na rua Matías Aires. O hotel era bem simples, e ficamos nós cinco – meus pais e meus dois irmãos – vendo novela – uma delas chamava-se Vejo a lua no céu. Tentamos por vários dias entender o título. À noite, passava Globo de Ouro, com músicas que iriam deixar uma marca bem forte em mim – talvez a mais forte de todas. Nuvem Passageira, Aquela Nuvem que Passa, e por aí vai eram as músicas que faziam sucesso àquela época.
No saguão do hotel, havia uma televisão, e nela aproveitei para ver um episódio de um seriado de bonecos animados que iria virar cult décadas depois: os Thunderbirds. Criança apenas, com 9 anos, eu não saía à rua sem a permissão dos meus pais, ou apenas para ir à padaria logo em frente ou na mesma calçada comprar chicletes ou pães. Ficamos nesse hotel algumas semanas, até encontrarmos uma kitchenette mais ao centro da cidade – na mítica rua Maria Antonia –, onde nos mudamos logo em seguida.
Ficava em um dos últimos andares num prédio com nome de árvore. O saguão do prédio tinha um corredor enorme e os elevadores davam medo, tão alto ficava o apartamento. Lá entrando, a primeira surpresa foram centenas de baratas embaixo da pia, que deixaram minha mãe apavorada. Alguns meses passamos naquele apartamento, inclusive o Natal e a passagem de ano, que comemoramos jogando papel pela janela, como se assim participássemos de algo que parecia não nos dizer respeito. A imagem dos prédios em frente – ainda tudo se mantém do mesmo jeito –, assim como da rua agitada – da qual não ouvíamos quase nada pela janela – marcaram-me para sempre. Ainda hoje, quando passo em frente ao prédio, lembro da ingênua satisfação de fazer parte da balbúrdia. Foi morando lá que começamos a nos instalar no país, eu entrando na quinta série numa escola estadual tradicional da rua da Consolação. Lembro-me claramente da sensação de liberdade quando descia a avenida. Uma vez fui assaltado por um moleque que me levou um cruzeiro, acho.
Na escola, eu mostrei de cara a quê vinha. Convidado para falar a todo mundo, chorei já de cara, e já de cara fiquei com a pecha de mariquinhas. Eu não sei o que me acontecia, mas o simples fato de aparecer de alguma forma fazia com que perdesse o equilíbrio. Quando vi o ce cedilhado me apavorei. Sequer imaginei o que aquilo era. Claro que bastou estudar um pouco para entender tudo integralmente. Eu só era sensível demais.
Já naquela época eu fui defrontado com a importância do futebol na sociabilidade dos garotos. Pressionado a ter um time, escolhi – não sei por quê – o São Paulo. Teimava em achar que realmente eu era torcedor daquele time, mas o fato é que nunca senti a menor empatia por nenhum deles. Ainda hoje sou um bicho estranho que não tem time de preferência. Uma vez, tropecei numa vala e fiquei até a cintura com esgoto. Fui para casa fedendo e sem saber explicar o que havia acontecido.
A próxima parada era um pouco mais longe, no bairro de Santa Cecília. Nesse novo apartamento iríamos ficar vários anos. Era na alameda Barros. Um apartamento de um quarto para cinco pessoas em que eu iria ocupar o quarto de empregada. Um apartamento longo de comprimento do qual não me lembro, apesar de sua importância, muita coisa.
Lembro-me, por exemplo, que eu fiquei amigo do zelador, um senhor bem gordo de bigodes. Eu o visitava e à esposa no apartamento pequeno que ele ocupava na cobertura. Às vezes via o bairro lá do alto, em meio a roupas penduradas e plantas. Nessa época, eu passava o meu tempo desenhando carros de corrida, projetando carros futuristas e esboçando armas de todos os tipos.
Outra lembrança dessa época é a amizade travada com um porteiro, de origem nordestina, que uma vez disse que havia retirado todos os dentes e que provou a façanha tirando a dentadura e mostrando a face banguela. Foi com esse porteiro que ouvi o mítico show que o Queen fez no Morumbi naquela época, transmitido por uma emissora de rádio e que quase não dava para ouvir – só barulho mesmo.
Foi morando em Santa Cecília que eu frequentei meu ginásio num colégio da Barra Funda e meu colegial num colégio próximo à Avenida Angélica. No primeiro colégio, convivi com colegas de diversas origens e assumi desde o começo a pecha de CDF. No segundo, consegui me entrosar melhor e aprendi a conviver com alguns tipos de conflito. Mas continuei o garoto mimado, ensimesmado, estudioso e promissor.
Alguns anos depois, nos mudamos para um apartamento bem amplo perto do Pacaembu. Eu já havia deixado para trás algumas amizades e sofrido alguns reveses emocionais quando comecei a estudar para o vestibular. Fiz um ano num cursinho próximo à Paulista, ao qual me dediquei intensamente. Passava os dias e noites indo de meu apartamento para o cursinho praticamente sem pausa ou diversão de qualquer tipo.
Passei em terceiro lugar na Fuvest no curso de Jornalismo. Nunca imaginei que fosse me dar tão bem no vestibular. Mas minha família não comemorou; na verdade, a alegria eu queria manter mais comigo mesmo, sem demonstrar nada de muito excessivo a respeito. Nem me lembro se meus colegas de cursinho haviam passado em seus cursos. Acabei me afastando deles inadvertida mas permanentemente.
Ia para o curso de ônibus. Chegava bem cedo, mas sempre esperava horas até que as aulas começassem. O nível social dos colegas era bem variado, mas no geral bem mais elevado que o dos meus colegas de colégio e ginásio. Mas meu comportamento manteve-se praticamente o mesmo. Eu estudava com bastante dedicação, com a ressalva de que começava a escrever em murais e tomava a dianteira em projetos que me davam destaque na turma. Esse pequeno sucesso meio que me subiu à cabeça.
As garotas me encaravam, pelo que me lembro, com um certo desdém, algumas, e fascinação, outras. Uma delas pediu minha mão em casamento no fundão de uma aula. Quando ouvi, ri alto. Mas ela não desistiu. Foi à minha casa e quis dormir por lá. Eu dormi no sofá. Depois ela acabou indo embora. Era bonita, e um dia a encontrei no ônibus, tendo se casado com um japonês.
Outras dessas garotas que se fascinavam comigo um dia me puxaram à força e começaram a tirar minha roupa na mesa do professor em uma sala vazia. Pelo visto, queriam me estuprar ou quem sabe apenas brincar comigo. Lembro-me de que não eram muito bonitas. Eu me desvencilhei e saí correndo. Ninguém soube o que havia acontecido.
Terminei o curso 4,5 anos depois com um TCC sobre política, que foi male-male aprovado pela banca. Eu sentia que não havia aprendido muito e que começava a me afastar dos meus poucos amigos, que já embarcavam para o exterior para raramente voltar. Tentei uma bolsa numa faculdade da Espanha, mas embora tenha conseguido o intento não pude viajar por não ter dinheiro para a passagem.
Como me sentia ignorante, resolvi fazer pós-graduação na mesma faculdade, curso que iria me tomar os próximos anos em aulas em faculdades de administração, ciência política, letras, comunicação, etc. Para ir às aulas, eu ia numa moto que comprara com a indenização por 3 anos de trabalho numa revista de assuntos agrícolas. Meu orientador era um sujeito bem calmo e conhecido no meio, mas pouco incisivo na condução dos trabalhos. Passei a seguir rumos orientados por mim mesmo.
Nessa época, nós nos mudamos novamente, agora num apartamento financiado, no bairro do Sumarezinho. Eu continuava morando no quarto de empregada. Meus dois irmãos ficavam num dos quartos do apartamento (o maior), e meus pais em outro. O bairro ainda não estava tão valorizado com a chegada do metrô, e não era muito movimentado.
Ao mesmo tempo, enquanto fazia pós, decidi cursar Filosofia na mesma universidade. O vestibular foi muito fácil, e eu me lembro que a principal razão para fazer o curso foi sentir que não sabia nada. Como saber mais a não ser fazendo Filosofia?
Passei os anos seguintes estudando adoidado e tentando fazer com que minha proposta de dissertação fizesse sentido. Como não tinha embasamento real em nenhuma das áreas envolvidas (história, marketing, jornalismo de revistas semanais, administração em geral), precisava estudar tudo do começo e depois tentar juntar os pedaços em minha mente visando um resultado claro ligado ao tema da dissertação. A Filosofia, por sua vez, fornecia abordagens mais aprofundadas e puxava minha atenção a leituras que escapavam da empiria.
Nessa época, minha família começou a notar que meu pai exibia comportamentos estranhos. Trancava-se no banheiro para tomar banho e cantava horas a fio canções como “Daqui ninguém me tira”, de um sambista cujo nome não consigo achar. Ele continuava trabalhando mas distanciava-se cada vez mais de todos. No começo ninguém deu muita importância, mas nos anos seguintes a situação, cada vez mais estranha e caótica, iria afetar a família em cheio.
Os dias começaram a passar com meu pai ligando ao Chile diversas vezes ao dia. Um dia ele pediu demissão do emprego que conseguira tão logo saímos do Chile. Viajou sem avisar ninguém e soubemos depois que voltara a entrar em contato com um antigo amor na sua cidade natal. A família começou a ficar endividada e meu pai parecia não ter mais como se controlar. Ele pediu divórcio e queria vender o apartamento.
Minha mãe se opôs e o conflito foi criado. Então meu pai foi ao Chile e começou a fazer de tudo para vender a casa que ainda tínhamos por lá. Foram anos a fio brigando sobre isso. Um dia, meu pai conseguiu e vendeu a casa, num bairro nobre, a membros da própria família dele. Meu pai então gastou todo o dinheiro e começou a entrar aos poucos em depressão. A amante foi embora e ele voltou a nosso apartamento.
Constatou-se que meu pai tinha psicose maníaco-depressiva. Internamos ele no Hospital das Clínicas, onde ele iria ser submetido a tratamentos de choque e começar a tomar antidepressivos (lítio, principalmente). Mas os remédios o deixavam tonto e sem vontade de fazer nada. Talvez para compensar, meu pai começou a beber como nunca.
Sem ter onde ficar e insatisfeito, meu pai brigava com todos continuamente. Minha mãe e minha irmã passavam dias e noites acusando-o de muitas coisas, e ninguém jamais se entendia. As discussões duravam horas e só terminavam quando todo mundo ia dormir. Todo dia sem exceção havia discussões. Nunca se chegava a nenhuma conclusão.
Sem dinheiro e emprego e sem ter como conseguir dinheiro, meu pai começou a vender coisas do apartamento. Um dia era um rádio, outro a tv. Pequenos objetos sumiam todos os dias e o clima era de desconfiança geral. Às vezes meu pai chegava machucado, após beber. Outras vezes ele sumia sem deixar vestígios. Enquanto isso, as brigas continuavam.
Eu praticamente não ficava em casa. Nas discussões, ora meus irmãos achavam que eu apoiava meu pai, ora diziam que eu não ajudava em casa – o que era verdade –, ora minha mãe me acusava de comportamentos que contradiziam seus valores – como falar palavrões, opinar sobre noticiários de tv, etc. Eu tentava estudar o tempo todo. Tentava, mas não conseguia. Não parecia encontrar calma em lugar algum – mesmo no silêncio da biblioteca da Filosofia. Pois quando lá estava eu chegava esgotado e acabava dormindo em cima dos livros.
Por anos a fio, eu fiz cursos de inglês. Mas sempre tive dificuldade. Na Filosofia, fui obrigado a encarar livros em francês. Eu tentava lê-los sem consulta e não entendia nada. Isso me causava uma insegurança tremenda. Com os anos, aprendi a ler e falar francês, e esse problema ficou para trás. Interessado pelos alemães, encarei um curso no Instituto Goethe, no qual fui aprovado. Mas eu gastava quase tudo do que tinha nesses estudos. Um dia roubaram minha moto.
Sem orientação, repleto de conhecimentos que não faziam sentido, apalermado pelas exigências do curso de Filosofia, sem companhia feminina, sem amigos (que já moravam fora do país), e premido pela falta de dinheiro e sem conseguir me dedicar ao jornalismo, minha profissão – era época de recessão –, um dia não aguentei e decidi desistir da pós. Envergonhado por desistir – algo que nunca me acontecera –, simplesmente desapareci da faculdade. Mas continuei fazendo Filosofia, a poucas quadras da pós.
Um dia tive sorte e comecei a trabalhar pela primeira vez como repórter num jornal. Foi em Guarulhos, e lá fiquei 9 meses. Chegava no começo da tarde, pegava as pautas, saía com um carro e motorista – às vezes com fotógrafo –, e me virava para fazer matérias diárias cobrindo toda a cidade. Convivi com tudo, desde acidentes banais ou nada banais, prisões de gente sem escrúpulos, autoridades corruptas, mandonismo de todo tipo, favelados dominados por traficantes, etc. Um dia entrevistei o bispo da cidade e entendi a lógica da cidade, que a mantinha numa irônica pobreza apesar de ter a 2ª maior arrecadação de impostos do Estado, o mais rico do Brasil. Um dia, me provocaram e entrei numa briga na redação, da qual saí demitido. Eu nunca tinha brigado antes.
Assisti incontáveis cursos na Filosofia. Eu quase sempre passava nesses cursos, mas quase nunca com destaque. Os professores assumiam comportamentos que me desnorteavam, indo desde autoritarismos velados até oportunismos patentes. Alguns professores não compareciam às aulas, e uma vez eu fiz uma reclamação formal contra um professor em nome de todos, o que fez com que ele reaparecesse e não sumisse mais. Aprendi bastante nas aulas, mas como sempre tinha sono passava muito tempo após as aulas tomando café. A maioria dos colegas não me agradava muito, por isso muitas vezes ficava sozinho nas lanchonetes passando tempo. O excesso de aulas e leituras obrigatórias fazia efeito: eu praticamente não conseguia estudar. Tinha muito interesse, mas não conseguia.
Orientado à Filosofia Política mas com ambições de ordem prática, um dia soube que haviam sido abertas as inscrições para o curso de pós em Ciência Política. Fiz a prova e uma entrevista e passei. O curso tinha uma abordagem mais ligada à Sociologia, e com ele tive contato com Weber, Marx e autores mais ligados à esquerda tupiniquim. Eu saíra da abstração e caíra em leituras sobre a realidade social e política brasileira e mundial.
Nunca consegui me dar bem com os colegas dessa nova pós. Eles achavam que eu não tinha formação suficiente na área – o que era verdade –, mas temiam meus conhecimentos em Filosofia, e isso fazia com que me sentisse isolado, embora fosse valorizado pelos professores. Sem muito tempo de leitura, assistia as aulas com certo tédio e descrença. Usei um tema caro à época – a Filosofia Normativa de Rawls – para apoiar minha proposta de dissertação. Meu orientador era cordial mas considerado ingênuo por muitos de seus colegas. Novamente peguei um orientador sem muito tônus, ou seja, sem muita energia real que conduzisse meus esforços numa boa direção.
Traumatizado pela desistência da primeira pós, eu não queria bolsa de estudos. Insisti que não queria, mas premido pela falta de grana e convencido pela ausência de argumentos de minha parte (o que eu poderia ter dito?), fui ao banco abrir uma conta. Lá estando, um antigo colega da primeira faculdade me viu e contou a todos os professores da primeira faculdade que eu estava vivo.
Eles descobriram que eu estava a poucos quarteirões, em outra faculdade, fazendo uma nova pós. Os professores da Ciência Política ficaram possessos. Sem terem como me punir, passaram a agir como se eu fosse uma persona non-grata. Sem a menor autoestima para me segurar, eu acabei desistindo da segunda pós, tendo feito todos os créditos. O meu orientador sequer quis conversar comigo – aliás, eu também nem tentei.
Continuei fazendo o curso de Filosofia. Muitos de meus colegas souberam de minhas trapalhadas, e alguns deixaram de falar comigo. Mas eu insisti e antes de ser jubilado prestei novo vestibular, completei as disciplinas e me formei. Isso eles não pegaram de mim, embora tenha levado muitos anos para finalmente concluir o curso.
Em 1996, meu pai havia morrido – numa noite em que eu desejei, pela primeira e última vez, a morte de alguém. O apartamento havia sido quitado. Eu saí finalmente do quarto de empregada e passei a dormir na sala. Mas a convivência tornara-se insustentável. Passava então minhas noites na internet, onde conheci gente dos mais variados tipos. Num chat, acabei contatando uma garota, que vim a conhecer pessoalmente semanas depois. Começamos a sair, a passar tempo juntos.
Ela havia me conquistado com um beijo – meu primeiro. Eu simplesmente acedera ao relacionamento por nunca haver tido outro. Fora a primeira garota que finalmente me conquistara. Eu lhe contei minhas passagens na putaria – desde 92 a 96 eu transara com muitas prostitutas em toda São Paulo.
Ela começou a me levar a ver apartamentos. Visitamos diversas regiões da cidade. Um dia, ela me disse que os pais decidiram comprar um apartamento para ela. Ela me chamou e eu fui. Passamos a morar juntos. Precisamos pintar a sala, que fiz com uma trilha de música clássica. Fizemos o piso de dois quartos. Deixamos o apartamento com uma aparência anódina. Nenhum de nós sabia exatamente como fazer para que ficasse com a nossa cara. Se é que havia nossa cara.
Passado o atentado às Torres Gêmeas, e com a recuperação da economia, um dia arrumei um emprego numa pequena editora no Morumbi. Era uma editora de revistas técnicas, no que eu não tinha experiência alguma. Peguei o emprego como se fosse minha última tábua de salvação. O salário era mediano e havia mais duas jornalistas comigo. Passei a me dedicar fortemente ao tema e com os anos virei especialistas no assunto.
Viajei aos Estados Unidos e à Europa. Aprendi a me virar em lugares com línguas mais ou menos estranhas. Conheci pessoalmente o túmulo de “heróis” dos quais só havia, mal e porcamente, lido seus livros: Baudelaire, Cioran, Beckett, Sartre, Rousseau, Voltaire. Foram poucos dias intensos que deixaram uma marca visível em minha pequena história. Mas não fiquei com a impressão de que eles têm algo que nós queremos ter. Maltratado por imigrantes em empregos menores, eu fiquei com um certo medo da estranheza e da riqueza. Voltei e continuei dedicado aos assuntos técnicos da revista.
Viajei muitas vezes para o interior de São Paulo. Viajava sozinho embalado por músicas que remetiam à tosqueira do rock, à sonolência do blues, ao saudosismo do samba, às profundezas da música clássica e ao cansaço existencial de alguém que ainda não achara seu tom ou timbre. Conheci muitos executivos e donos de pequenas empresas, dos quais me tornei amigo. As amizades conseguidas foram criando uma certa ciumeira na editora, que contaminaria a própria direção. Minhas colegas, com as quais não me sentia muito bem, foram saindo aos poucos, e eu fui o último jornalista a restar na editora. Apesar de promovido, e de ganhar prêmios, passei a me sentir tolhido o tempo todo. Isso passou a afetar minha autoestima e o gosto pelo jornalismo de forma geral. Tornei-me um funcionário público fazendo o de que mais gostava na vida.
Ficamos, minha esposa e eu, 11 anos juntos. Tímida e sem muito o que trocar em termos de conhecimento comigo, minha esposa aceitava o que eu dizia calmamente, admirando meu conhecimento e minha – ainda existente – vontade de saber e de viver. Mas com o tempo passou a sentir vacuidade em muito do que dizia, como se não servisse necessariamente para nada. Ela começou aos poucos a sentir repulsa pelas conversas de âmbito político que eu travava com meu sogro, e talvez ciúme pelos papos que nutria com minha sogra.
No tempo livre, eu tentava estudar mas não conseguia. Minha esposa sempre queria comer fora, passear em shoppings – algo que sempre odiei –, ver filmes de temporada, comprar coisas comuns, sem o menor atrativo, pelo simples prazer de comprar. Sempre que eu lhe perguntava onde ir, ela deixava o tempo passar e não conseguia responder. Eu propunha irmos a livrarias e ela acedia. Mas não tinha a menor vontade disso e ficava me esperando enquanto eu corria tentando ver algo bom sem deixa-la parada por tempo demais.
Tínhamos uma empregada que passava um dia por semana e fazia a faxina geral do apartamento. Era uma senhora de confiança que me conhecia bastante bem por haver trabalhado na editora onde eu era jornalista. Essa senhora passava por problemas graves de saúde, mas nós a ajudamos e ela aos poucos foi se recuperando. Ficou nos servindo por 11 anos.
Entediados, minha esposa e eu viajamos várias vezes a países da América Latina. Lá estando, eu sempre queria ficar em hotéis não muito caros, comer pratos típicos, visitar livrarias e passear em lugares historicamente relevantes. Ela me acompanhava mas muitas vezes não conseguia me seguir por estar fora de forma. Eu comprava livros e visitava museus. Ela me seguia e nada comentava.
O tempo se passou. Sem termos interesses comuns, minha esposa e eu passamos a ir a parques diversos. Compramos bicicletas e skates. Ela passou a andar de bicicleta e eu andava de skate. Com o passar dos anos, ela foi ficando cada vez mais calada. Não comentava nada, e eu não conseguia atrair a menor atenção seja lá sobre o que falasse. Uma distância passou a existir e a nos afastar cada vez mais.
Insatisfeita com o emprego numa multinacional, minha esposa decidiu fazer cursos de extensão no exterior. Foi à França de um jeito e voltou de outro. Eu sempre a apoiei em tudo. Depois, começou a procurar insistentemente por outro emprego. Até que achou numa área levemente distante (controladoria em informática) da sua especialidade (contabilidade). Montou empresa e começou a viajar para o interior do país. Eu a acompanhei sempre que pude. Nunca discutíamos a sério. Mas também não conversávamos. Ela gostava de assistir séries de tv num aparelho que eu nunca quis comprar. Pois desde o começo eu senti que tínhamos que nos conhecer. Mas a gente havia ganho o aparelho e eu não tive como devolvê-lo.
Já eu, sem vontade de estudar mas buscando coisas novas, um dia entabulei conversa com um famoso diretor de teatro. Eu não conseguia conversar com ninguém na editora, e precisava trocar ideias com gente interessante. Desesperado com minhas contradições, fiz um poema online para ele, que me disse ter chorado muito. Quis me conhecer. Um dia, veio ao Brasil para lançar um livro e nos apresentamos.
Ele veio montar 4 de suas peças. Eu lhe pedi para assistir aos ensaios. Ele topou. Eu ficava na coxia sem falar com ninguém mas podendo entrar e sair quando quisesse. Um dia, ele me chamou em meio à fumaça do gelo seco e me apresentou a todos. Eu não era ninguém e me apresentei como tal. Eles acharam engraçado.
O diretor pediu-me um dia um texto porque a 4ª de suas peças estava sem norte. Na verdade, ele pediu textos a diversos membros da equipe. Eu fiz o meu em 15 minutos na internet de um Fnac (o meu computador quebrara). A peça estreou, mas eu continuava acompanhando tudo nas coxias. Um dia, ele disse para o pessoal colocar o ponto em mim e para que eu entrasse no palco dizer o meu texto, que eu havia esquecido. Ele não voltou atrás e eu entrei no palco abobado. Fiquei em frente a 400 pessoas sem saber o que dizer, sendo ajudado por uma atriz da equipe, e saí sentindo-me parcialmente humilhado. Mas adorei a sensação e não me arrependi.
Minha esposa entendeu minha atração pelo teatro e me acompanhou diversas vezes ao centro da cidade. Comemos por lá e conhecemos bastante gente. Mas ela não gostou e não quis mais. Deixou que eu me dedicasse àquilo que eu queria. Eu ia assistir peças e ensaios sempre que ela não reclamava – o que era pouco para mim. Mas tudo bem.
Um dia, minha esposa pediu a separação. Fiquei apavorado e falei com o diretor famoso que tornara-se meu amigo. Ele me deu umas dicas, ela voltou atrás e ficamos elas por elas. Passei a sentir o medo do abandono mas não sabia o que fazer a respeito. Os anos se passaram até que um dia ela pediu de novo a separação e eu, esgotado, não tive o que dizer.
Ela ia ficar com o apartamento e iríamos dividir nosso dinheiro. Fiquei com uma grana razoável, com a qual comecei a procurar apartamento. Depois de haver ficado doente com as consequências emocionais da separação, e de haver me curado, dediquei todos meus esforços em procurar um novo local para morar. Levei diversos meses e muitos quilômetros para achar um apartamento numa cidade próxima ao Morumbi, onde trabalhava. Paguei uma boa entrada e parcelei o restante. Mudei-me para lá com muitos livros, muita pressa e bastante culpa. Não nos despedimos. Ela cortou inclusive as ligações que eu tinha com meus sobrinhos. Nunca atendeu o telefone. Eu nunca mais liguei.
Sozinho e com baixa autoestima, podia ter dedicado minhas noites a ler sossegadamente, o que eu sempre quis. Mas eu já tinha 42 anos e me sentia um babaca, emocionalmente falando. Decidi me inserir em grupos de teatro que eu começava a conhecer, a aprender a beber e a cultivar a sociabilidade na noite paulistana.
Conheci diversos grupos. Fiz muitas oficinas. Aprendi bastante. Fiz então umas oficinas de corpo num grupo underground, de literatura, de produção e figurino. Simultaneamente, entrei numa oficina de atuação perto desse grupo. Mantive-me com muita dificuldade nessa oficina de atrizes e atores, que viraram meus amigos.
Para a oficina, apresentamos uma peça como resultado final, e o diretor do grupo underground assistiu. Gostou de minha coragem e virou meu amigo. Um dia ele me convidou a fazer um papel numa peça de outra pessoa. Topei, senti muita dificuldade, mas ele me apoiou. A peça estreou, com sucesso, e eu também brilhei. Fiz mais duas peças com ele e mais duas de outros autores com o mesmo grupo. Sugerir virar assessor de imprensa do grupo, e o amigo diretor topou.
Uma noite, na apresentação da peça em que eu estreei como ator, apareceu uma garota – não bem garota, pois tinha 37 anos. Ela me achara no facebook e quis me conhecer. Conversamos, ela e uma amiga dela. Elas me deram carona. Nos despedimos e nada aconteceu. Mas iria acontecer. Algo como um olhar.

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