o que eu vi

lá fora, aqui dentro, por aí

Gustavo Araújo

Já tentou escrever um resumo de sua vida várias vezes e não conseguiu. Depois que viu o mundo e não quis mais parar, ficou ainda mais difícil.

Sobre escolhas e fazer acontecer

O ativismo de sofá e conformismo em apenas reclamar são alguns dos fatores que nos impedem de construirmos uma sociedade melhor, a que tanto sonhamos e reivindicamos. Enquanto muitos de nós gastamos o tempo desse jeito, outros se atentam em buscar e desenvolver formas de fazer a diferença. E, Aaron Swartz, era um desses.


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Me recordo de há dois anos ter lido uma matéria. Falava sobre um jovem, o qual ficara famoso por ter roubado milhares de artigos de uma organização americana e ter sido encontrado morto em seu apartamento tempos depois. Sem ter lido muito a fundo, passei para outra janela em meu navegador. Era essa a informação que ficou gravada em minha mente, conteúdo esse esquecido até poucos meses atrás.

Despretensioso, estava a abrir diversos links, como de costume. Enquanto passeava os olhos num deles, tive a sensação de já ter lido algo parecido. E, assim, confirmei. Naquele momento, já com uma certa intimidade, me atentei melhor a história. Aquele jovem se chamava Aaron Swartz e, cada vez mais, sua vida me sensibilizava. Em seus atos era possível ver o quanto ele almejava uma interação com a sociedade, um mundo melhor e mais justo para se viver.

Ele era um gênio em programação de sistemas da informação. Com apenas 14 anos já estava participando de projetos importantes como o RSS, que permite receber atualizações de conteúdos de sites e blogs. Participou também da criação da plataforma Reddit e do Creative Commons, criações essas que com certeza todos já usufruímos ou tivemos contato, mesmo sem sabermos.

Com o passar dos anos, Aaron não apenas amadureceu como pessoa, mas também seus ideais. Acreditava no poder da informação, de como ela é importante e, principalmente, deveria ser compartilhada. Foi criador também de sites como o Open Library, uma espécie de biblioteca universal, onde é possível ter uma página para cada livro publicado no mundo. E também do site WatchDog, página que permite petições públicas e transparência dos candidatos políticos. Ele ficou tão engajado nessas propostas que foi um dos mais importantes manifestantes contra a SOPA e PIPA, propostas essas que determinava em tirar a liberdade que se tem na internet.

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Aquela informação obtida sobre o jovem que tinha roubado artigos de uma organização americana foi cada vez mais sendo preenchida em minha cabeça, mas desta vez foram com informações concretas. Essa matéria foi atualizada para um jovem chamado Aaron, que descontente com o MIT, uma das instituições que mais possui conteúdos importantes no mundo, fez download de mais de 5 milhões de artigos, materiais esses que são públicos, mas que por algum motivo era cobrado para poder obtê-los. Não achando justo, o garoto hackeou o sistema, mas por algum motivo também não os disponibilizou na internet, mesmo assim foi descoberto e processado, ficando na mira do FBI. E, mesmo com o caso sendo encerrado, reabriram novamente, queriam o pegar de alguma forma e transformá-lo num exemplo para outros. Assim, dias antes de seu julgamento e sob forte pressão e estresse, Aaron é encontrado morto em seu apartamento, enforcado.

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Desde que descobri toda essa história, fico numa incógnita. É difícil tirar conclusões. Impossível aceitar o fato de que, o garoto que sonhava em mudar o mundo e acreditava nessa utopia, não está mais aqui. Parece que as pessoas que moram nesse mundo, o qual ele queria mudar, não o queriam por aqui. Seu objetivo não era ganhar dinheiro, todo o momento em que esse caminho aparecia em sua frente, ele se desviava. Se importava principalmente na divisão da informação, dividir esse poder com todos.

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Vejo muito de Aaron em mim. Tínhamos a mesma idade, exatamente uma gestão de diferença. Sonhava com um mundo melhor. Era um garoto normal que gostava de filmes e livros, e que escrevia sobre eles depois. Compartilhava ideias. Fez reacender em mim a chama em acreditar que, se tem vontade, é possível fazer a diferença – sendo um deles, no meu caso, a crença que o design pode salvar o mundo – e que todo esforço é válido para se ter uma sociedade melhor. Gostaria que tivéssemos sido amigos, acho que teríamos muito o que conversar.

É importante pensar no legado que ele nos deixou. Queriam que ele fosse um exemplo, e foi mesmo, mas não como queriam. Como no evento póstumo, amigos e simpatizantes de sua causa não queriam que ele fosse esquecido. E acho isso importante. Seus feitos devem ser lembrados para servir de inspiração a outros e as próximas gerações. Sua existência já está gerando frutos. Para assegurar isso, foi criado um documentário sobre a vida de Aaron, através de arrecadações de dinheiro em uma plataforma de financiamento colaborativo na internet. Recomendo a assistir a história dele, é ainda mais interessante do que parece.

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É triste ver alguém como ele, que tinha muito mais pra fazer, cheio de potencial e de vida, que não está mais entre nós. Ver ainda os vídeos de infância, que já era tão inteligente, é ainda mais triste. A morte de Aaron foi uma das que mais mexeu comigo, dessas pessoas que não chegamos a conhecer pessoalmente. Mas gosto de pensar que sim. Fui inspirado por ele. Não quero que se esqueçam dele. Eu não vou me esquecer, meu amigo.


Gustavo Araújo

Já tentou escrever um resumo de sua vida várias vezes e não conseguiu. Depois que viu o mundo e não quis mais parar, ficou ainda mais difícil..
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