o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

A MEDIDA DO TEMPO COMO IMAGEM DO MUNDO NA POESIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

O presente artigo pretende sugerir uma relação entre a medida do tempo e a imagem do mundo na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. Em vez do tempo dual, propõe-se a hipótese de uma divisão tripartida de tempo entre o passado, o presente-futuro e o «tempo sem tempo» na obra de Sophia.


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INTRODUÇÃO Neste texto, pretende-se, por via da análise de dois poemas seleccionados, averiguar de que forma a medida do tempo configura uma imagem do mundo na obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.

O objectivo é propor uma perspectiva em que, para além das interpretações defendidas por vários autores sobre a existência de dois tempos na obra poética de Sophia (o tempo dividido de corrupção da contemporaneidade que se opõe ao tempo unido de harmonia próprio da Antiguidade) e um não-tempo, se configure uma medida de tempo como imagem do mundo.

Como é medido o tempo nos poemas da autora? A hipótese deste texto é a de que, à semelhança dos autores da Antiguidade Clássica e para além da divisão dual do tempo existente como conceito na análise da sua obra, Sophia procura transmitir uma imagem do mundo com base na medida de tempo (luzes e sombras, distâncias, posições dos astros, contagem das ondas do mar). Portanto, averiguar-se-á a relação entre as imagens poéticas que emergem dos poemas de Sophia como medida de tempo e as imagens apresentadas por alguns autores da Antiguidade como medida de tempo. Ambas as medidas de tempo (a de Sophia na sua obra poética e a dos autores abordados) delimitam uma concepção do universo visível e perceptível aos sentidos, tal como sugerido por Couprie (Couprie 2011).

A MEDIDA DO TEMPO COMO IMAGEM DO MUNDO NA POESIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN A medida do tempo na poesia de Sophia é entendida, no contexto deste texto, como o dia e o ano, unidades de medida que, de acordo com os conhecimentos de navegação actuais, se relacionam de um modo mais próximo com os movimentos verdadeiros principais da Terra (rotação completa em torno do seu eixo durante 24 horas relativamente a um ponto de referência no espaço e movimento de translação ou rotação durante 365 dias em redor do Sol) como menciona Rogers (2012).

Mas será o tempo descrito na poesia de Sophia idêntico ao tempo cronológico? Como se medem os dias e os anos na poesia andresiana? Através de relógios ou através de formas de medir o tempo mais antigas, como por exemplo as luzes, a contagem das ondas, as distâncias e posições relativas dos astros?

Ao longo do presente texto postula-se a ideia de que a forma de medir o tempo descrita por imagens nos poemas seleccionados corresponde a uma imagem do mundo muito própria da construção poética de Sophia.

Essa imagem do mundo parece encontrar alguns paralelos com a imagem do mundo existente na Antiguidade. Procuraremos identificar alguns desses paralelismos.

Mas o que podemos identificar como imagem do mundo na poesia andresiana? Couprie (2011) define imagem do mundo como uma concepção do universo visível não inclusiva de todas as representações religiosas e míticas do que se imaginava estar debaixo da terra.

É importante enfatizar a pequena dimensão da imagem do mundo da Antiguidade. Couprie (2011) refere o seguinte:

Let us take that the diameter of the earth was estimated at about 5000 km 5 and imagine ourselves to be at the center of the earth (Delphi). Then, the sun, moon, and stars are at the outskirts of the earth, the celestial bodies are even closer (…). Were it not for the Ocean encircling the earth, we could touch them with our own hands. So the universe is, to our understanding, rather small in extent. This is a simple statement, but it is of the greatest importance to appreciate how people in archaic cultures experienced the cosmos. (Couprie, 2011, p. 11).

Sophia de Mello Breyner Andresen parece apresentar, ao longo da obra poética que construiu, um contraste entre a pequenez dessa imagem do mundo na Antiguidade e o sentido de expansão e de confirmação ou refutação dessas concepções através da navegação dos Descobrimentos.

Ao mesmo tempo, porém, a descoberta de alguma coisa que deita por terra os conceitos preexistentes significa o fim de um certo tipo de conhecimento.

Medina (2010) refere-se a esta imagem do mundo como «consciência do mundo», ou seja, uma «vivência poética» ou «poesia de viver que carrega em si os ecos de uma antiquíssima forma de viver religiosa» (Medina, 2010, pp. 14-15).

Por sua vez, Peixoto (2009) aponta para esta forma de fazer poesia com recurso à medida do tempo como uma «mundividência».

Em termos da medida do tempo, existe uma separação entre o «tempo dividido» e o «tempo aberto» de acordo com Sousa (2012, p.13). A dualidade temporal apresenta-nos o tempo dividido, como verificámos, entre o tempo da corrupção, da ganância e da mentira próprios da contemporaneidade, «o tempo sem deuses e sem memória» (Medina, 2010, p. 50) e o tempo da inteireza, justiça e harmonia da Antiguidade recriada na obra de Sophia conforme enuncia Rezende (2006, p. 93).

Sousa (2012) define esta «polaridade tensional dos versos de Sophia» da seguinte forma: “O sujeito poético vê-se situado entre um tempo puramente quantificado [Kronos] que parece tudo devorar e um tempo qualificado [Kairós], onde o instante presente proporciona o encontro com a verdade do seu ser” (Sousa, 2012, p. 20). Em segundo plano, surge o domínio do não-tempo, do que é intemporal, do «misterioso tempo que precede à divisão das coisas» (Medina, 2010, p. 15).

Rezende (2006) defende que a tragédia no homem moderno, na obra poética de Sophia, é «desencadeada» pela «vivência de um tempo fragmentado» que o frustra ao impedir a sua comunhão com o essencial (Rezende, 2006, p. 90).

Este não-tempo é entendido por Sousa (2012) como uma aproximação a Nietzsche na medida em que a obra poética de Sophia propõe a redenção do tempo circular através do Instante (Sousa, 2012, p. 36), embora supere o conceito de tempo circular de Nietzsche por via da concepção de que o homem existe entre o tempo e a eternidade.

Correia (2011) apresenta também uma visão tripartida do tempo na poesia de Sophia: existe uma «euforia associada ao passado e ao futuro (vs a disforia do presente)» (Correia, 2001, p. 220).

No entanto, neste texto encaramos este não-tempo como um tempo de acção e de decisão em que, a partir das premissas do presente, se pode configurar o futuro.

Este tempo poderá ser caracterizado como um terceiro momento ou um terceiro eixo de referência temporal.

Nesse tempo identificado como «não-tempo», coexistem ruptura e continuidade.

É um tempo de descobrimento e de deslumbramento, o tempo em que é possível partir à descoberta de um novo mundo.

É, porém, um tempo com medida e, portanto, será diverso do não-tempo proposto.

Podemos situar o Instante no tempo histórico (Descobrimentos e contemporaneidade) e também no tempo cronológico (existem relógios, manhã, noite, tarde, ondas do mar que permitem traçar a exacta medida do tempo em que essa acção de continuidade e ruptura decorre).

RESSURGIREMOS

Ressurgiremos ainda sob os muros de Cnossos/ E em Delphos centro do mundo/ Ressurgiremos ainda na dura luz de Creta//

Ressurgiremos ali onde as palavras/ São o nome das coisas/ E onde são claros e vivos os contornos/ Na aguda luz de Creta//

Ressurgiremos ali onde pedra estrela e tempo/ São o reino do homem/ Ressurgiremos para olhar para a terra de frente/ Na luz limpa de Creta//

Pois convém tornar claro o coração do homem/ E erguer a negra exactidão da cruz/ Na luz branca de Creta

Obra Poética II (1991)

Correia (2011) refere que este poema retrata «a admiração de Sophia pelo universo cultural e civilizacional da Grécia Antiga e a afirmação de retorno a uma existência do Homem regida pelos seus valores» (Correia, 2011, p. 226).

De que eixo axiológico se trata? Ao longo do poema é feito o retrato de uma época em que Delfos corresponde ao centro do mundo na Antiguidade Clássica (Zenith, 2011).

Delfos é o omphalos (Oμφαλoς) onde ocorre a comunicação entre o mundo do divino e o mundo dos homens. Sophia parece conotar, neste poema, a «luz de Creta» com o «fogo délfico» correspondente à «descoberta da luz, isto é, à tomada de conhecimento» (Peixoto, 2009, p. 24).

Nesta admiração pelo mundo antigo em que Delfos era o centro do mundo, Peixoto (2009) identifica uma nítida influência literária de Holderlin, pois ambos os autores procuram a essência da Grécia Antiga.

O poema «Ressurgiremos» delineia um mundo que se torna reino pela «imediata presença do divino» (Medina, 2010, p. 18) e, neste poema, essa presença constitui-se através de um sincretismo entre a expressão grega e a expressão cristã. Carreiro (2009) sugere que a gradação de adjectivos relativos à luz de Creta poderá ser interpretada como uma referência temporal, na medida em que a voz poética parece contrapor ao universo em degradação que a cerca a «luz de Creta» onde subsiste a esperança do «ressurgir» e a evocação do tempo passado parece configurar-se em promessa para o futuro.

Nesse sentido, Carreiro (2009) destaca a utilização morfossintáctica do futuro «ressurgiremos» e do presente histórico do verbo ser («são» é usado três vezes ao longo do texto. O tempo verbal «são» parece remeter para o aoristo grego e, por isso, poderá ser conotado com permanência e intemporalidade (Ferreira, 2006).

Esta intemporalidade está conotada com o «advento de um tempo outro» (Correia, 2011, p. 227) que é anunciado à semelhança do que era anunciado pelos oráculos divinos em Delfos.

Correia (2011) afirma que a palavra «ressurgiremos», por sua vez, prenuncia um projecto colectivo em que cabe ao homem reconstruir, no futuro, a ordem e harmonia do passado.

Sousa (2012) refere que a última estrofe encerra o poema com recurso à cruz cristã como símbolo e penhor de um futuro absoluto, em contraste com a figuração grega que se revela insuficiente para traduzir a esperança nesse futuro.

Também Soares (2000) reforça que este poema parece realçar a preferência pelo «modelo escatológico cristão» (Soares, 2000, p. 116). Este poema aborda o ressurgir e situa a acção num futuro adivinhado onde Cnossos, Delphos, Creta e a “negra exactidão da cruz” (v.13) se entrelaçam.

Poderemos comparar a estrutura do poema à de uma encruzilhada de quatro caminhos onde o passado herdado (vv.1-3), o presente que se concretiza na palavra (vv.4-7) e o futuro ainda indeterminado mas mensurável e passível de localização (vv.8-11) dão lugar ao não- tempo, ao lugar-tempo onde se torna “claro o coração do homem” (v.12) e é possível “erguer a negra exactidão da cruz/na luz branca de Creta” (vv.13-14).

Em «Ressurgiremos» encontramos várias referências à medida do tempo (luz, pedra, estrela, tempo) e também do espaço (Cnossos, Delphos, centro do mundo, Creta, reino do homem, terra de frente) que mutuamente se revelam.

Nesse sentido, poderemos colocar-nos algumas questões, tais como: qual é o tempo antes dos “muros de Cnossos” (v.1) – e depois? Em que altura é “Delphos centro do mundo” (v.2)? E a que época se reporta a “dura luz de Creta” (v.3)? Onde fica “o reino do homem” (v.9)? E o que existe antes e depois da “negra exactidão da cruz” (v.13)?

A estrutura do poema parece remeter-nos, por via deste cruzamento espácio-temporal, para uma construção em mosaico em que cada uma das unidades de sentido constitui um motivo de análise por si só, mas também o conjunto forma um todo provido de sentido – o ressurgir do reino do homem na luz (dura, aguda, limpa, branca) de Creta. Este ressurgir poderá fazer- se pela palavra que traz contorno vivo às coisas nomeadas, permitindo ao nós delineado no texto poético “olhar para a terra de frente” (v.10) com desassombro e lucidez.

Delfos é o centro do mundo, pois foi em Delfos que Apolo matou a serpente Píton e instituiu as festas píticas, como descreve Ovídio (2006) em Metamorfoses, 440-445. A partir desse momento, Apolo impera e substitui o anterior reino de violência primeva do Caos que destruía a ordem do mundo (Peixoto, 2009, p. 45).

Em termos de conhecimento científico, o facto de Delfos ser o centro do mundo remete-nos para a Antiguidade Clássica em que a imagem do mundo se baseava no conceito de uma Terra plana.

Couprie (2011) indica que “for those who think that the earth is flat, the axis of the heavens, around which the stars revolve, must be thought of as going through the center of the earth” (Couprie, 2011, p. 70). Esse centro do mundo era Delfos (em 38.5ºN, 22.5ºE). «Pedra» e «estrela» poderão ser sinónimo de instrumentos para medir a passagem do tempo.

A «pedra», através do gnomon construído, poderá servir para delimitar a zona habitável pelo homem civilizado (Couprie, 2011) e também para medir a passagem do ano através das posições da luz relativamente ao gnomon durante os solstícios e equinócios.

A «estrela» pode revelar-se como uma medida de tempo e de espaço em simultâneo. A navegação pelos astros foi muito utilizada na época da Antiguidade e também na época dos Descobrimentos.

A «estrela» é também uma forma de verificar a passagem do tempo ao longo do ano, nomeadamente a época para semear e colher. Plínio O Velho (1995, 1998) indica, na sua obra História Natural, XVIII, 213, que existem observações efectuadas por Tales de Mileto e Anaximandro relativamente à altura em que as Plêiades desaparecem no horizonte.

Couprie (2011) indica que, no tempo de Hesíodo, o dia referenciado, o dia do equinócio de Outono na Grécia, corresponderia a dia 30 de Setembro. Hesíodo (2005, 681-682) identifica o melhor tempo de colheita como a altura em que as Plêiades desaparecem no horizonte ao final da noite. Referimo-nos, pois, a uma imagem do mundo em que a medida do tempo era essencial para manter o conhecimento já adquirido e também para partir em busca de novos mundos e, consequentemente, de novo conhecimento.

Assim parece suceder no poema «Ressurgiremos», em que Creta e a «negra exactidão da cruz» se reúnem numa imagem do mundo própria da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma imagem que «nos parece deixar a sensação de fascínio pela Grécia, pela Grécia primordial em que deuses, homens e natureza conviviam» (Ferreira, 2006, p. 198).

A ANÉMONA DOS DIAS

Aquele que profanou o mar/ E que traiu o arco azul do tempo/ Falou da sua vitória//

Disse que tinha ultrapassado a lei/ Falou da sua liberdade/ Falou de si próprio como de um Messias//

Porém eu vi no chão suja e calcada/ A transparente anémona dos dias.

Mar Novo (2003)

Medina (2010) refere que, neste poema, a anémona, por ser tão calcada, se torna transparente.

Essa transparência terá a ver com a morte dessacralizada descrita no poema Eurydice, uma morte que separa, que é estéril, que coloca à margem e que é transparente (Medina, 2010, pp. 73-74).

A anémona, reitera, é um ser tão antigo como os corais, as medusas e os búzios, apelando para o sentido «do mistério nocturno das profundezas marinhas» (Medina, 2010, p. 75).

A anémona enquanto flor é um motivo poético crucial (Peixoto, 2009) sendo a sua cor (ou falta dela) parte de uma simbologia relevante.

A sua cor branca original, tal como a das rosas, simboliza o amor e a vida (Peixoto, 2009, p. 21). O facto de se tornar transparente após ter sido calcada poderá apontar para o amor e para a vida que se esgotam nos dias.

Quanto ao «arco azul do tempo», Medina (2010) remete para a essencialidade da poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, dado que «o mar é o mar, é azul» e surge como «um elemento fecundador da renovação cíclica da terra» (Medina, 2010, p. 77).

Também Correia (2011) destaca o «azul intenso do mar» como parte fulcral dos espaços do mundo mediterrânico antigo onde Sophia faz prevalecer a luz e a cor (Correia, 2011, p. 214).

O mar, enfatiza Correia (2011) constitui-se «universo de um (re)encontro ansiado, de comunhão ou de aliança desejadas (…)» (Correia, 2011, p. 218).

Em termos espaciais, o mar «metaforiza o espaço da alma, aberto e infinito» (Rezende, 2006, p. 88) e, de acordo com esta autora, assume uma função purificadora na poesia de Sophia.

Já a as características de antropomorfização do mar (por ter sido profanado) se devem, segundo Peixoto (2009), à influência da obra poética de Heine.

A contagem das ondas (ou medida de tempo, defende Peixoto, 2009, p. 78) contrasta com o tempo histórico e cronológico, pois é «marcada por poderes fantásticos ou pelo ritmo dos fenômenos naturais.» (Rezende, 2006, p. 98).

O arco do tempo poderá remeter para um tempo cíclico, conforme a ideia de temporalidade inesgotável e presente na obra poética de Sophia apresentada por Rezende (2006).

No poema “A Anémona dos Dias” a imagem do mundo parece surgir a partir de “vitória” (v.3) e de “liberdade” (v.5) como que imposta por um “Messias” (v.6) que “profanou o mar” (v.1) e “que traiu o arco azul do tempo” (v.2).

Estas duas acções, profanar o mar e trair o arco azul do tempo, configuram os extremos de um espaço que carece de verdade e cuja imposição se aproxima de um acto de conversão.

Nos dois últimos versos do poema, a voz poética aponta para um elemento de incongruência nesse quadro aparentemente coeso traçado por aquele que “tinha ultrapassado a lei” (v.4): podemos ver “no chão suja e calcada/a transparente anémona dos dias” (vv.7-8).

Existe, pois, uma dualidade entre o tempo da mentira e do discurso e o tempo da verdade que se torna evidente para além e apesar de todas as palavras proferidas.

Podemos verificar que o espaço é também marcado pela presença ou pela ausência do profanador; a sua mera presença dá origem a uma nova geografia que obriga todos os que dão ouvidos a essas palavras a reconhecer e a tomar como válida.

O sujeito «aquele» nunca chega a ser identificado. Será aquele que distorce a ordem das coisas anteriormente aceite e convencionada? Será Xerxes, Alexandre, Salazar? Ou simplesmente a imagem do pirata retratado no poema O Pirata, do marinheiro à deriva que caminha para o seu destino de solidão pós-morte, de transparência, após esta vitória aparente sobre todos os outros homens que agora sofrem o seu jugo?

O discurso ensaístico encontrado não identifica «aquele» neste poema, centrando-se antes na «transparente anémona dos dias».

Para a nossa análise, consideraremos que «aquele» é alguém que marca uma possível medida do tempo, pois existe um antes e um depois de «aquele» ter profanado o mar e ter traído o arco azul do tempo.

O “arco azul do tempo” poderá remeter para uma imagem dos céus que deixa de ser plana para passar a ser curva.

Esta imagem pode ser encontrada em Homero (2005) em Ilíada XVII, 425 e Homero (2006) em Odisseia III,2 como um arco de bronze ou aço.

Em termos mitológicos, para explicar esta curvatura observável na trajectória visível dos astros, surge a história de Atlas, que sustenta os grandes pilares que dividem os céus da terra.

Píndaro refere também esse arco nas Odes Olímpicas (2007) 360, linha 27.

Hesíodo (2005) descreve, na Teogonia 126-127, o céu que se curva sobre uma terra plana.

Aristóteles (1996) na sua obra Sobre o Céu e em 284a, refere que a explicação mitológica se torna desnecessária se for verificável a premissa de que o cosmos é uma esfera de elevadas dimensões e finita em que as estrelas se encontram aprisionadas, bem como outras esferas que giram em torno da terra, que está no centro do universo.

Qualquer esforço por parte de Atlas significaria imperfeição deste sistema, pelo que este mito se torna supérfluo uma vez que o sistema funciona de modo perfeito e imutável, não havendo necessidade de qualquer esforço para que as estrelas se mantenham no seu percurso.

Quanto à imagem da “transparente anémona dos dias”, poderá referir-se à relação entre Vénus e Adónis que Ovídio (2003) descreve na sua obra Metamorfoses, livro X.

Neste excerto, a anémona nasce do sangue de Adónis que, com o corpo dilacerado por um javali, não encontrou préstimos divinos e amorosos que lhe valessem na falta de cuidados de medicina prestados em tempo útil.

No século I, a prática de medicina era alvo de preocupações em termos de saúde pública. Aliás, no livro XV, Ovídio descreve a introdução do culto de Esculápio em Roma.

A imagem da “anémona” refere-se a uma flor que floresce sem cor e durante um período de tempo extremamente curto, simbolizando o curto espaço de tempo que foi preciso para que Adónis perecesse exangue – é uma imagem que remete para algo de irremediável, algo que não se pode alterar, não obstante todos os recursos despendidos.

Estando “suja e calcada” (v.7), parece indicar que a consciência dessa impossibilidade de resolução não existe.

CONCLUSÃO A análise destes dois poemas parece sugerir que a medida do tempo conforma uma imagem do mundo na obra poética de Sophia de Mello Breyner Andresen.

O ponto de partida do presente estudo foi a necessidade de explorar a relação existente entre a medida do tempo em Sophia e a medida do tempo utilizada por alguns autores da Antiguidade Clássica.

A hipótese apresentada era a de que existiria uma relação entre a utilização dessas imagens na obra poética de Sophia e na obra de autores clássicos, pelo que a temporalidade na obra de Sophia não obedeceria apenas a um conceito de dualidade antagónica em contraste com um não-tempo, mas configuraria uma imagem do mundo (ou imagem do mundo visível e perceptível aos sentidos), tal como sucedia na Antiguidade Clássica.

Por via da análise dos poemas seleccionados, verificámos que uma outra variável se impunha: a do espaço.

Na verdade, o tempo na obra poética de Sophia não parece existir sem o espaço.

Assim, uma navegação para uma longínqua latitude implica tomar a direcção do infinito (∞) em ambos os eixos.

Poderíamos sugerir que Sophia apresenta, com base na medida de tempo-espaço, uma imagem do mundo à semelhança do que anteriormente tinha sido feito entre os autores da Antiguidade Clássica com uma importante diferença: a dimensão das viagens levadas a cabo durante os Descobrimentos exige uma comparação entre o mundo perfeitamente delineado da Antiguidade e o mundo em constante mutação que surge a partir dos Descobrimentos.

Assim, o terceiro momento temporal para além da dualidade entre tempo unido e tempo dividido não é apenas um Instante de não-tempo, mas é um momento perfeitamente mensurável em que o presente pode ser transformado num futuro que se espera, em que se pode descobrir um novo mundo dentro do mundo já existente.

Deste modo, os três momentos configuram uma imagem do mundo: o passado da Antiguidade ou tempo de harmonia, inteireza e justiça; a contemporaneidade da mentira, da ganância e também da luta por um mundo melhor; finalmente, o tempo do deslumbramento e do futuro possível, o tempo dos Descobrimentos em que ruptura e continuidade se interpenetram de forma a permitir que o conhecimento seja mantido e, quando necessário, modificado.

É através desta medida do tempo definida pela passagem das ondas, pela estrela, pela pedra e pela posição dos astros na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen que se constrói a imagem do mundo que, como relembramos, foi anteriormente definida como a concepção do universo visível e perceptível aos sentidos.

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Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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