o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

As famílias artificiais como hybris da Pequena Sereia

Este artigo analisa o conto da Pequena Sereia a partir do conceito de famílias artificiais. É postulada a ideia que este conto não corresponde a uma história de amor, mas antes a uma busca implacável de evolução para uma alma imortal.


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As famílias artificiais como hybris da Pequena Sereia

A Pequena Sereia é o título de uma história tradicional recontada por Hans Christian Andresen acerca de uma sereia que se transforma em ser humano de forma a estar mais próxima do príncipe que ama.

Partindo do conceito de famílias artificiais, pretende-se argumentar que a trama narrativa da história da Pequena Sereia se centra numa escolha entre os valores postulados pela sua família natural e as várias famílias artificiais com que se depara no decurso da narrativa.

Verifica-se, ao longo da história, que essa escolha se constitui como a hybris da pequena sereia face ao que a rodeia. Pode também deduzir-se a existência de uma certa relação de contiguidade entre aquilo que a pequena sereia conhece e a forma como evolui ao longo da história. Assim, é possível sugerir a ideia de que a história da pequena sereia não incide sobre o amor entre a sereia e o príncipe, mas antes sobre a procura da alma imortal por parte da pequena sereia. Esta não é uma história acerca da união de dois seres diferentes; ao invés, este conto incide no ónus devido pela evolução e transformação de um ser (a pequena sereia) em algo que, à partida, não é.

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A pequena sereia não se encontra destituída de uma interferência mutuamente constitutiva no que diz respeito à relação que estabelece com esse mundo que a avó designa como mundo superior. Aliás, a pequena sereia concebe-se por antonomásia no que diz respeito às pessoas que se encontram a festejar a bordo do navio onde vê pela primeira vez o príncipe por quem se apaixona.

Os marinheiros que avistam brevemente os indivíduos da espécie sereia concebem-se como afastados desses indivíduos através da negação e evitamento dessa realidade. Será o príncipe um símbolo de tudo aquilo que a pequena sereia quer ter, tal como uma alma humana – e a escolha em termos de amor? A pequena sereia ama o príncipe ou a condição imortal da alma humana, sendo o príncipe um meio para atingir a sua maior ambição: evoluir para um ser dotado de uma alma imortal? A partir do momento em que sobe, aos quinze anos, ao mundo superior, a pequena sereia tem a liberdade que conhece restringida por aquilo sem o qual não se imagina: o acesso a uma alma imortal. Os objectivos de assumir por inteiro uma vida humana e de encontrar o amor verdadeiro (e a coincidência entre os qualificativos «humano» e «verdadeiro» não é acidental) são instrumentais face à incorporação de uma alma humana imortal, dado que a feiticeira do mar lhe indica que terá de conquistar o príncipe por via da beleza de que é dotada de modo a que este ceda uma parte da alma humana que nele existe para que a pequena sereia passe a ser também agraciada com uma alma imortal. DSC02119.JPG

Segundo Taylor (1989, p.36), «a self exists only within what I call “webs of interlocution”». O que pensar, então, do facto de a sereia doar a sua voz maravilhosa em troca do acesso ao mundo superior onde poderá, através da sua beleza, conquistar o príncipe e, assim, uma alma imortal? A verdade é que a pequena sereia abandona a sua comunidade definidora (Taylor, 1989); logo, a relação com essa comunidade deixa de existir e, nesse sentido, o uso da voz deixa de ser necessário – a língua é-lhe cortada sem contemplações e armazenada pela feiticeira do mar para uso próprio.

Ao emergir para o mundo exterior, sem voz e sem cauda, mas com pernas, os pontos de vista da pequena sereia alteram-se na medida em que agora procura integrar-se no mundo novo que escolheu. Todas aquelas coisas que coleccionou com tanto carinho – a efígie do príncipe que salvou do naufrágio, as flores marinhas que cultivava e que a faziam recordar o sol – perdem agora o sentido. Neste momento, a pequena sereia encontra-se no que é para ela o mundo real. Por vezes, tem vislumbres daquelas que faziam parte da sua comunidade definidora – as irmãs, a avó – mas tudo isso ficou para trás, pois as suas famílias artificiais são agora constituídas pela música, pela dança e pela alegria que o príncipe lhe dá e, mais tarde, pela dor que a noiva do príncipe lhe causa por saber que, graças à existência dela, nunca terá uma alma imortal. Aqui, verifica-se um colapso entre aquilo que a pequena sereia é e aquilo que faz para obter aquilo que lhe interessa (Rawls, 1996). DSC02129.JPG

Um outro aspecto de análise diz respeito à necessidade de alteração do aspecto da pequena sereia como condição prévia para a entrada no mundo superior. Como foi anteriormente referido, a pequena sereia perde a cauda que lhe traz a qualidade de mobilidade no interior do reino do mar e perde a voz que a caracteriza face a todos os outros seres do mar que a rodeiam. Essa voz não é estritamente necessária para a sobrevivência da pequena sereia que perde, aliás, o uso particular que era inteligível apenas no contexto social que a rodeava no reino do mar onde presidia, juntamente com as outras princesas (irmãs e avó) à hierarquia da comunidade que a definia.

Que significará pensar na transformação das aptidões da pequena sereia para além da mera adaptação a um novo meio ambiente? Tomemos, por exemplo, o aforismo de Wittgenstein: «Der menschliche Körper ist das beste Bild der menschliche Seel.» (Wittgenstein, 2009, iv, 25) que podemos traduzir da seguinte forma: o corpo humano é a melhor imagem da alma humana. DSC02131.JPG

Em primeiro lugar, a pequena sereia não é humana, embora o seu corpo tenha assumido a forma humana para tentar alcançar o prémio que almeja: a alma humana imortal. A forma poderá ser a melhor imagem de uma alma que a pequena sereia assumidamente não tem e por isso tenta atingir. Parece que o corpo humano da pequena sereia dificilmente será a melhor imagem da alma humana que ela procura – ou poderá ser? Um corpo sem voz e com dores que decorrem da falta de mobilidade no meio humano a cada passo, um corpo que aguarda que uma outra alma humana – a do príncipe – se divida para lhe dar uma parte de uma alma humana imortal, através de um processo de cisão ainda por esclarecer. Ao corpo mutilado corresponderá a alma cedida pelo amor do príncipe? Teríamos então um proto-Frankestein sob a forma de um corpo de sereia sem língua e sem cauda e com retalhos de uma alma humana que lhe concede -não obstante a natureza fragmentária deste composto sereia/príncipe – a ansiada imortalidade.

Ao contrário do ideal romano, não se assume aqui que «mens sana in corpore sana» (ou o seu antónimo) signifique a continuidade e a contiguidade entre mente e corpo, ou seja, que a mente com certas características transporte essas características para o corpo. Poderá revelar-se mais precisa a ideia de consonância. Segundo esta ideia, talvez o corpo da pequena sereia, que não é um corpo humano, mas um corpo com a forma humana (um símile do corpo humano) não seja a melhor imagem de si próprio, mas a melhor imagem de outra coisa. Essa outra coisa é a ambição da pequena sereia que destrói a família natural de que provém para que, ao conquistar o amor de um ser humano, possa conquistar a alma humana – a alma imortal. DSC02122.JPG

A questão de similitude por contraste com a ideia de identidade humana tem implicações naquilo que é considerado como alma no contexto da história da Pequena Sereia. Se pensarmos que a alma é algo que reside no facto de nos reconhecermos uns aos outros como seres humanos (Bourbon, 2004), então talvez o momento em que a pequena sereia assume o corpo símile ao do ser humano possa ser o momento em que a alma humana lhe seja atribuída por outros seres humanos. O amor poderá constituir, neste contexto, uma consolidação desse reconhecimento da qualidade humana comum.

Para além disso, se considerarmos que há algo de profundamente humano no facto de existir uma recusa em desligar-se das coisas supérfluas (aquilo que constitui a família ou as várias famílias artificiais da pequena sereia), então deparamo-nos com a hipótese de ela já ter alma desde que troca impressões e normas com a avó sobre o número de ostras a colocar na cauda para indicar o estatuto de princesa do reino do mar e desde que ouve histórias contadas pelas irmãs acerca da beligerância e da calmaria existentes no mundo superior.

Vemo-nos, pois, na contingência de colocar sob análise a hipótese de a pequena sereia ser já dotada de alma no início da nossa narrativa e de procurar, na verdade, algo que desconhece que já tem.

É possível contra-argumentar que a pequena sereia procura ter uma alma humana por crer que esta é imortal e a sua própria alma não o é. No entanto, isso não invalida o facto de ela procurar uma alma que já tem. Verificamos que, no final da história e contra todas as expectativas, a pequena sereia sobrevive pelo mérito atribuído às suas acções e muda novamente de corpo, ou seja, de forma, juntando-se às irmãs do ar.

Na verdade, parece existir uma mudança de corpo ou de forma da pequena sereia cada vez que existe uma alteração do contexto e dos seres que a rodeiam. Ao contrário do objectivo individual que se propõe (alcançar uma alma humana imortal), podemos observar que a pequena sereia nutre famílias artificiais de acordo com os outros. A sua hubris particular talvez decorra, então, de desafiar esse sentido de gregariedade. A pequena sereia é comparável a uma etnógrafa que se encontra deslocada em qualquer lugar por não ser capaz de resolver a dicotomia fundamental entre o ponto de que parte e a necessidade de conhecer o local e as pessoas de que se encontra rodeada. Recusa a família natural, recusa a reunião da noiva com o príncipe e o regresso à família natural e, por isso, é integrada na família dos espíritos do ar. Talvez a imortalidade que a pequena sereia ambiciona possuir resida na interlocução e na gregariedade. Pode também suceder que a alma já exista, seja esta humana ou não.

Este texto parece também reforçar a ideia de que a nossa individuação não se resume a fronteiras físicas. As características da pequena sereia não se resumem à mudança de forma física. Há algo que permanece: os pensamentos, alegrias, tristezas, expectativas e ambições permanecem ao longo de toda a narrativa. A pequena sereia como que consolida os seus laços com aquilo que já conhecia. Aliás, ficamos sem saber se a protagonista deste conto tradicional sabe muito mais acerca do príncipe quando é resgatada pelos espíritos do ar da espuma das ondas do mar relativamente ao momento em que o vê pela primeira vez. Talvez não saiba. É como se a pequena sereia tenha percorrido uma distância imensa entre dois mundos, o reino do mar e o mundo superior, para permanecer com a imagem do príncipe dentro de si como acontecia na altura em que recordava a imagem dele no fundo do mar, no jardim que deixou crescer sombrio quando a memória se converteu em obsessão.

A Pequena Sereia é um texto literário e, como todos os textos literários (segundo Empson cit. Haffenden, 2005), apresenta como desafio o facto de a protagonista se tornar moralmente independente da sociedade que a formou. Contudo, a história da pequena sereia não corresponde a uma narrativa heróica de emancipação. A pequena sereia parece emancipar-se da família natural, mas continua em contacto, ainda que distante, com as irmãs e avó; aceita a faca que lhe dão e o preço que pagaram por essa faca para matar o príncipe e retornar à sua condição de sereia. Também parece emancipar-se da família artificial, pois não transmite nada ao príncipe quanto à natureza do que pretende e procura não deixar transparecer a sua tristeza quando o príncipe anuncia o noivado com outra mulher, mas aceita sacrificar-se na espuma do mar para que o estado das coisas entre o príncipe e a noiva seja mantido.

Nisto consiste a hYbris da pequena sereia: ela não é nem deixa de ser uma sereia que anseia pela alma imortal característica do ser humano. Não é de amor que se trata, mas de ambição. A pequena sereia alberga uma enorme ambição de evolução, de deixar o que conhece para trás e ganhar algo novo, custe o que custar (voz, cauda, dores a cada passo, coração desfeito e morte na espuma do mar). Resta apenas uma certeza: a pequena sereia nunca chega a ter nome. DSC02133.JPG

  Referências bibliográficas

Bourbon, B. (2004) – Finding a replacement for the soul: mind and meaning in literature and philosophy. Cambridge (MA): Harvard University Press. ISBN 0-674-01297-6.

Haffenden, J. (2005) – William Empson: among the mandarins. Vol. I. Oxford: Oxford University Press. ISBN 0-19-927659-5.

Rawls, J. (1996) – Political liberalism. New York (NY): Columbia University Press. ISBN 0-231-05249-9.

Taylor, C. (1989) – Sources of the self: the making of the modern identity. Cambridge (MA): Harvard University Press. ISBN 0-674-82425-3.

Wittgenstein, L. (2009) – Philosophische Untersuchungen: Philosophical Investigations. Rev. 4th ed. Malden: Wiley-Blackwell. ISBN 978-1-4051-5928-9.


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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