o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

A CONSTRUÇÃO DO OLHAR SOBRE O OUTRO

A descoberta da alteridade e o discurso sobre a necessidade de assimilação através da conversão religiosa como construção do olhar sobre o outro surgem como tema principal dos relatos do século XVI.


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Senhor

Vossa Majestade me manda que informe do modo que me parece se deve de aver com o olandez, e suposto que se me não declara adonde, presumo que deve ser no brazil donde de prezente venho. E me parece (senhor) que deve Vossa Magestade ordenar ao governador geral do estado que asiste na bahia que com disimulação o consinta que toda a gente que quizer ir a roubar E queimar a campanha de Pernambuco o posa fazer de maneira que se entenda que são ladrões E levantados esta ordem deve ir em segredo e que se obre de modo que se posa atribuir ao mi- são do governador o faltar com o castigo sem que se prezuma que he ordem de Vossa Majestade porque fazendo lhe guerra nesta conformidade será muito o dano que recebão, pouco o proveito que grangeem com o que pode suceder que com algum concerto larguem o que tem naquelle estado achandose por este meio apertados. Também me parecia conveniente que Vossa Majestade puzesse em pratica com os olandeses que largassem o brazil e Angola ainda que por isto se lhe dera cantidade consideravel que esta podia muito bem sair de todo o Estado do brazil e Angola pois de ũa vez se escuzavam os gastos que se fazem com a guerra, e isto de maneira que a aliança de amizade ficasse de modo que senão pudesse preverter a novos ex- cessos, que no estado em que oje estão parece imposivel porquanto atendem do a seu proveito, com tanta perda dos vassalos de Vossa Majestade que mandará o que for mais seu serviço cuia catolica pessoa nosso senhor guarde como seus vasalos avemos mister. evora 21 de Outubro 1643

assinatura Salvador Correia de Saa I Benavides

A CONSTRUÇÃO DO OLHAR SOBRE O OUTRO: FONTES DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO E DISCURSOS SOBRE A “MONSTRUOSIDADE” E A “INOCÊNCIA” DA ALTERIDADE

A Carta de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil constitui-se como uma tentativa de olhar sem pré-conceitos o que é achado. Garcia (2000: 17-18) refere que este documento foi utilizado em primeiro lugar por José Seabra da Silva em 1773. Actualmente, o original pode ser consultado na Torre do Tombo, estando identificado pela cota: Gaveta 8, maço 2, nº 8. As suas dimensões são de 14 folhas de extensão, 29.5 cm de altura e 20.9 cm de largura.

Pêro Vaz de Caminha assinala esse propósito no início da narrativa:

«Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade e creia bem por certo que, para alindar nem afear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.» (Vaz de Caminha 1500 1871 1987: 59).

O confronto entre duas culturas diferentes não é, porém, um encontro isento de referências. A avaliação de Pêro Vaz de Caminha, à semelhança do que sucede com a avaliação efectuada por outros narradores dos encontros com a alteridade, assenta em pressupostos.

Que pressupostos são esses? Em primeiro lugar, a constatação de uma diferença ao nível de pertença. Desde logo, através da descrição visual do primeiro ‘avistar’ do Outro (indígena porque pertence ao local que se visita).

O Outro difere de Nós porque tem um património de representações que são desconhecidas: os «arcos com as setas», a nudez e a beleza . A este propósito, Kappler refere que «Ces voyageurs sont, pour la plupart, des esprits curieux : ils veulent savoir honnêtement ce qu’il en est. Ils ont un besoin de verité, qu’ils supposent également à leurs lecteurs. Leurs récits sont émaillés de protestations de vérité et ils commencent par une prise de position extrêmement nette en faveus de l’obejctivité (...)» (Kappler 1988: 55).

Este património remete, como assinala Azevedo (1999: 134) para um período genesíaco e sem pecado, um período anterior à História.

Em segundo lugar, existe uma dificuldade de comunicação agravada pelas condições do encontro. O património de representações inclui a língua. A necessidade de comunicar por sinais indicia uma consciência de que o Outro é diferente e de que se torna necessário encontrar um terreno comum para plantar as sementes do entendimento.

Pêro Vaz de Caminha situa-se na fase do olhar europeu sobre o mundo com um misto de encantamento e assombro (Brito, 1983: 64; Kappler, 1988: 53).

Mais tarde, será o tempo de as sementes lançadas gerarem frutos muito diversos, que já podemos adivinhar a partir de alguns excertos do seu discurso dirigido ao Rei D. Manuel. Existirá o momento do tactear de possibilidades, o da conquista pelas armas, o do gosto pelo exótico através da descrição desapaixonada das práticas das sociedades «primitivas», o do mito do «bom selvagem», o da evolução unilinear, o do funcionalismo e outras correntes etno-antropológicas e, por fim, o do questionamento epistemológico sobre o olhar que é lançado através do mundo e do posicionamento Eu/Nós e Outro (Brito, 1983).

Como se constitui a diferença que simultaneamente justifica e acentua a dimensão de confronto entre o Nós e o Outro, de acordo com o que nos narra Pêro Vaz de Caminha?

A diferença, diz-nos Azevedo (1999: 130), é construída através da tolerância.

Verificamos que Pêro Vaz de Caminha preconiza, nesta fase de primeiro olhar, um processo de aceitação da diferença nos seus aspectos mais inócuos e inofensivos como outros hábitos alimentares e a nudez permanente.

Estes aspectos sobre os quais o Nós se debruça e considera perfeitamente toleráveis, pois encontra-se imbuído de um paternalismo a que subjaz uma noção de superioridade intrínseca face ao Outro:

«Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.» (Vaz de Caminha, 1500 1871 1987: 90).

Em simultaneidade com o processo de observação do Outro, surge cada vez mais arreigada essa dimensão de superioridade do Nós.

Se inicialmente Pêro Vaz de Caminha ainda procura distanciar-se relativamente às modalidades de comunicação (Vaz de Caminha, 1500 1871 1987: 68), no final da carta a D. Manuel aponta como prioridade a conversão dos indígenas.

Baseia-se na sua docilidade e na suposta ausência de culto e, assim, torna-os alvos preferenciais da assimilação cultural pela conversão religiosa (cf. Azevedo, 1999: 135).

No entanto, sabemos que, nas sociedades tradicionais como a dos indígenas retratados por Pêro Vaz de Caminha, os indivíduos vivem uma temporalidade que lhes permite uma atribuição de sentido à realidade.

O sentido baseia-se no transcendente e no retorno cíclico do mundo, transformando-o num local onde a prática e o discurso estão muito próximos.

Existe um todo uno, baseado na não-corruptibilidade das coisas e que permite integrar a heterogeneidade da experiência num todo coerente.

O mundo do Outro não é, pois, destituído de religiosidade (Azevedo, 1999: 135).

Os indígenas são vistos de um modo cortês, como assinala Azevedo (1999: 134).

Esta viagem de descoberta dinamiza a comunicação entre as culturas através da troca de objectos diversos e não existe ainda qualquer hostilidade.

Nos aspectos de maior bizarria para a cultura do Nós, os animais e os adornos são descritos de um modo quase fabuloso.

Tal descrição não surge sem referências culturais prévias.

A noção de que existiria a necessidade de trazer a salvação aos indígenas através da conversão religiosa resulta de uma noção de «natureza humana universal» que deve ser questionada:

«Na ordem sincrónica abundam as notações que negam a tese da exacta semelhança específica mostrando como a educação modifica a personalidade de base – a inteligência e os caracteres étnicos. O homem recebe do meio, em primeiro lugar, a definição do bom e do mau, do confortável e do desconfortável» (Malson, s.d.: 26).

Assim, é possível constatarmos que, à medida da pretensão do Nós (etnocentrismo) foi construída todo um discurso sobre a necessidade de conversão religiosa que desembocou, posteriormente, em práticas de aculturação e representações de um património cultural que urgia impor aos indígenas, sob pena de estes permanecerem num estado inexorável de atraso e serem, assim, desapossados de provarem a sua condição humana (em função da utilidade para o Nós, sobretudo em termos técnicos) aos restantes seres do mundo civilizado.

Esse período da História que se construiu pela assimilação da diferença ainda hoje cobra o seu tributo ao nível das referências constantes a um espaço de diálogo intercultural, multicultural ou inter/multicultural.

No entanto, o Nós que descobrimos também múltiplo e diverso onde se pensava existir a homogeneidade existiu como parte dialogante nas representações pré-antropológicas da diversidade cultural no século XVI.

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Ana Maria de, 1999, «A carta de Pêro Vaz de Caminha e o encontro do ‘Outro’», Oceanos, 39, 128-142.

BRITO, Joaquim Pais de, 1983, «Mudança na Etnologia (Uma questão do Olhar)», Prelo, 1, 63-72.

GARCIA, José Manuel (org.), 2000, O Descobrimento do Brasil nos textos de 1500 a 1571, Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia, 17-34.

KAPPLER, Claude, 1988, «Introduction» e «Voyages et mentalités», Montres, démons et merveilles à la fin du Moyen Age, Paris, Payot.

LAPLANTINE, François, 1989, «Une démarche : l’analyse comparative», Anthropologie, Paris, Éditions Seghers.

MALSON, Lucien, s.d.,«Introdução» e «A hereditariedade do indivíduo e a hereditariedade da espécie», As crianças selvagens: mito e realidade, Porto, Livraria Civilização.

VAZ DE CAMINHA, Pêro (1500) 1817 1ª ed. 1987, Carta de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel sobre o achamento do Brasil, Mem Martins, Edições Europa-América.


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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