o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

Matizes

Este artigo pretende retratar o espírito do tempo relativamente a uma certa literatura que poderá, ou não, ser apelidada com justeza de literatura gay.


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A partir da leitura de algumas obras de gay fiction postula-se a necessidade de uma ruptura com a imagem mítica do que é ser homossexual na literatura.

Por um lado, o discurso produzido sobre gay fiction enferma de uma afirmação do contraste em referência à straight fiction que parece reforçar o estatuto da literatura gay como uma literatura produzida por doentes e dirigida a outros indivíduos na mesma condição, como um tipo de literatura que está na moda, ou ainda como uma narrativa que corresponde a hábitos de uma certa minoria que não deixa, por ser minoria, de estar dotada de determinados privilégios culturais e até sociais.

Por outro lado, a gay fiction parece reproduzir alguns dos estereótipos que habitam a perspectiva que surge como evidente em qualquer discurso acerca da homossexualidade: as conversas com o padre, a relação mais ou menos simbiótica com a mãe, o conflito acentuado com a figura paterna (esteja essa figura presente ou ausente), o recurso a psicanálise para «curar» a tendência homossexual, os amantes em maior ou menor contraste etário com o protagonista, as tentativas de conversão ao modelo heterossexual de expressão de afectos, as orgias, a vergonha, o medo da descoberta.

As obras de gay fiction enquadram-se, como qualquer obra, num contexto de espaço e tempo permeado por determinadas configurações sociais.

Para além desta constatação que pode sugerir respostas para a questão: «poderemos falar de uma gay fiction?», pode ser levada a cabo uma outra leitura destas obras se considerarmos que, no contexto específico de recepção de gay fiction, ainda predominam os lugares-comuns e que esses lugares-comuns influenciam, inclusive, a produção das próprias narrativas.

A prevalência de estereótipos pode reflectir uma imagem do mundo vivido que resulta, segundo Habermas (1987) de sistemas culturais de interpretação, ou imagens do mundo, que reflectem o saber de fundo dos grupos sociais, e asseguram uma ligação coerente entre a multiplicidade das suas orientações de acção, como sucede Em Busca do Tempo Perdido no que se refere à nova burguesia que tenta replicar os hábitos da aristocracia.

É neste conceito de imagem do mundo que surge um primeiro relevo para a mitologia associada à produção e recepção de gay fiction, na medida em que esta literatura nos convida a transferir a análise conceptual para uma análise conduzida empiricamente, pois procura interrogar as estruturas de racionalidade incarnadas nos símbolos dos estereótipos que fazem parte dessas ditas imagens do mundo.

Edmund White (1969) explora os estereótipos do gay como uma pessoa doente, uma pessoa criminosa, depois uma pessoa que faz parte de um clube social e, finalmente, uma pessoa que se constitui parte de uma minoria.

Está subjacente a ideia de uma certa incapacidade de lutar, perspectiva essa que corresponde uma determinada imagem do mundo que pode ser colocada em causa, dado que não se supõe como universalmente válidas as estruturas de racionalidade que determinam a compreensão da ficção.

Em que medida existe uma imagem mítica com referência à gay fiction?

Vejamos: os critérios apontados por Habermas (1987) podem resumir-se à existência de uma imagem do mundo em que as categorias de fenómenos são classificadas e reunidas entre elas segundo a homologia e a dissimilitude, a equivalência e a desigualdade, a identidade e a oposição (Odette, Myra, Charles Ryder seriam exemplos dos pólos em torno dos quais se estruturariam estas relações de homologia e de dissimilitude).

Neste caso, o pensamento analógico tece a união de todos os fenómenos numa rede única de correspondências, mas as suas interpretações não vão além da superfície do que pode ser apreendido a nível do visível (por exemplo, quando a amante de Lord Marchman refere, de uma forma quase casual, que todos os rapazes ingleses passam pela fase de amizades profundas com outros rapazes).

O narrador (Marcel) que permanece preso à apreensão intuitiva imediata, assim como a colocação em evidência das relações de similitude e de contrastes são dois aspectos formais sob os quais o pensamento mítico pode ser, de um modo homológico, relacionado com os estádios ontogenéticos do desenvolvimento cognitivo.

Isto significa que a recepção da gay fiction pode, num certo sentido, equiparar-se à da recepção de uma nova história nas sociedades de tradição oral: não deverá existir um autor (por isso a publicação póstuma de Maurice) e há uma crença de que nomear o mal é já tratá-lo e contribuir para a sua cura.

Isto porque prevalece ainda um pressuposto de doença ou, pelo menos, de desvio à norma que implica uma rectificação.

No entanto, Habermas (1987) alerta-nos para o seguinte: nos processos de acordo, nós supomos formalmente à partida qualquer coisa que nos é comum (le vice de Proust é, ainda hoje, designado desta forma em alguns contextos sociais), e estas suposições formais são necessárias para que possamos referir-nos a qualquer coisa no mundo objectivo, qualquer coisa idêntica para todos os observadores- ou ainda qualquer coisa no nosso mundo social, qualquer coisa intersubjectivamente repartida.

As pretensões de verdade das proposições ou de justeza das normas actualizam estas suposições comuns para certas expressões (sick, criminal como White indicou).

Assim, a verdade de um enunciado significa que o estado de coisas reconhecido existe como qualquer coisa no mundo objectivo; e a justeza que se faz valer para uma acção que diz respeito a um contexto normativo existente significa que a relação estabelecida no plano interpessoal merece ser reconhecida como um elemento legítimo do mundo social.

As pretensões de validade podem ser fundamentalmente criticadas porque se baseiam nos conceitos formais do mundo.

Elas pressupõem um mundo idêntico para todos os observadores possíveis, ou ainda um mundo intersubjectivamente repartido por aqueles que lhe pertencem.

Trata-se de uma pressuposição abstracta, ou melhor, destituída de todo o conteúdo determinado.

Além disso, as pretensões de validade reclamam a tomada de posição racional de um protagonista.

Por isso White e Vidal concordam na necessidade de politizar o discurso gay: não no sentido de o moldar à medida de uma norma heterossexual, mas para o dotar dessa legitimidade no mundo do dia-a-dia.

Surgem, assim, perspectivas complementares que sugerem como White (1982), Forster (1971) e também Vidal (1968) procuram encontrar essa legitimidade.

O narrador de Em busca do tempo perdido poderá ter sido o precursor deste vigilante constante, o olhar em que se fundaria a sociedade do século XX.

Foucault (1984) designa as sociedades dos séculos XVIII, XIX e início do século XX como sociedades da exclusão, ou seja, sociedades que expurgam de si tudo o que possa ser perigoso para os indivíduos que delas fazem parte (como acontece com Swann).

O narrador, no entanto, está presente nos momentos de amor homossexual entre duas mulheres, deixando a exclusão de parte e funcionando numa lógica de inclusão.

Podemos verificar a existência, nesta narrativa, de uma transição entre o legado da exclusão e o primeiro resquício de inclusão através do panóptico, ou seja, um mecanismo que potencia a visibilidade e a inclusão dos comportamentos através de um olhar contínuo que funciona como dissuasor.

Embora Marcel não pretenda ter esse efeito dissuasor, o facto é que Albertine teme esse olhar (que pode ser o de Marcel ou o de outra pessoa), bem como Madame Vanteuil.

Ora, se o sentimentalismo reconhece a existência desse olhar constante, um olhar performativo, e permite a prossecução da expressão de afectos que pode levar à exclusão própria e da pessoa amada, como não concluir que ser sentimental é ser cruel?

A ideia de panóptico torna-se relevante para esta análise na medida em que, à medida que a gay fiction acompanha o devir do tempo histórico, a exclusão dá lugar à inclusão, desde que essa expressão de subjectividade que é o ser-se homossexual seja modelada, rentabilizada e normalizada de modo a tornar o indivíduo homossexual num indivíduo produtivo e segregado, embora não propriamente excluído (Delleuze, 1990).

Esta ideia parece encontrar eco em comentários que se ouvem de forma corrente nos dias de hoje: «por mim, cada um pode fazer aquilo que quiser, desde que não se andem a beijar por aí na rua», «podem ser homossexuais, mas das portas para dentro», «para que é que precisam de demonstrar que são homossexuais?», «acho muito mais chocante ver dois homens de mão dada do que mulheres», «agora não temos mais nada em que gastar o orçamento de Estado do que nos problemas criados pelos gays», entre outros.

Neste aspecto, não é possível considerar que tenhamos sido bem-sucedidos no exílio do mundo do panóptico que, hoje, tem como maior e melhor repressor o próprio indivíduo (o que se torna patente nas narrativas de A Boy’s Own Story, Maurice e Myra).

Devido à permanência do panóptico, os estereótipos subsistem porque se constituem elementos e instrumentos do olhar que vigia e pune (Foucault, 1984).

Para além de todos os estereótipos já citados, um outro diz respeito ao menor apreço que o amor homossexual entre homens suscita relativamente ao amor homossexual entre duas mulheres.

A sociedade actual encara ainda a homossexualidade como uma doença, perspectiva popularizada por Freud e que persiste na mentalidade como um objecto-fetiche, mediante a abordagem de Pietz e Ellen (Fernandes-Dias, 1991-1992, 173) que definem a fetichização enquanto articulação de argumentos de forma a que um objecto material dê corpo a valores socialmente significativos e afecte intensamente os indivíduos que dele fazem uso.

A este respeito, pode dizer-se que o teor da análise proposta por Freud é insuficiente para retratar a dialéctica de identificação-repúdio em que se constitui o falo enquanto objecto-fetiche.

Na verdade, «os usos culturais que podem ser dados à sexualidade e ao género não podem de forma alguma ser descritos por uma simples (e constante) identificação entre a sexualidade física de uma pessoa e o seu comportamento social e simbólico» (Cabral, 2003, 59).

Na constituição do falo enquanto objecto-fetiche, podemos concluir que se atravessa um período de transição de uma ansiedade relativamente à potência sexual para uma ansiedade relativamente à paternidade (estando esta em competição com a filiação uterina).

Esta construção reflecte, de certa forma, a instituição de uma ordem fálica na cultura actual, ordem essa dependente de uma construção fantasmagórica da sexualidade e fertilidade femininas em que as próprias mulheres participam, subordinadas mas não subservientes (Cabral, 2003, p. 83).

O falo sem mulher ou o falo com outro falo são duas ideias estranhas a esta ordem fálica e, por isso, sujeitas a vigilância e punição.

É possível que a gay fiction se constitua em diálogo com todos os preconceitos, estereótipos e tipos que são pervasivos na literatura.

Pode ser essa a base da sua especificidade e a razão da sua existência.

Como os protagonistas das obras, a gay fiction pode ter diálogos com a religião, com a psicanálise, com o hedonismo, com o modelo heteronormativo, mas depressa regressa ao mundo que é apenas seu.

De que mundo se trata?

Nenhum que possa definir-se de uma forma estanque; ao invés, é um mundo de matizes que tem, para a nossa forma de viver em conjunto, a importância que a técnica de chiaroscuro assumiu para a arte ocidental.

São os matizes que trazem a noção de profundidade e de subtileza à normatividade existente sob a máscara da complacência.

São os matizes que convertem o conceito de identidade fixa num desafio e, por isso, são parte intrínseca da ruptura com a imagem mítica do que é ser homossexual na gay fiction.

Gore Vidal (1979; 1981) defende que não existem pessoas homossexuais, mas sim actos homossexuais.

Há uma identidade mutável ao longo da vida; esta identidade não cinge cada indivíduo a um determinado padrão de comportamento.

No presente ensaio, desenvolvemos esta ideia em torno do conceito de matizes: cada pessoa é constituída por diversos matizes que variam de acordo com aquilo que essa pessoa se impõe e também conforme o que lhe é imposto.

Talvez um dia seja possível ler e escrever gay fiction sem recorrer a estereótipos e, como Proust logrou fazer, superar a construção de personagens-tipo.

Ler sobre pessoas é, afinal, uma questão de humanidade – essa Humanidade que não passa de moda, não é doença, não constitui acto criminal e não é passível de conversão religiosa ou sexual.


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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