o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

A lírica do inexaurível: a proposta poética de Miguel Afonso Andersen

Um poeta que não é um «lírico» demonstra-nos de que modo a vivência do tempo presente - e não do tempo perdido - se converte na expressão mais pura da poesia e como esta expressão corresponde à manifestação mais bela de amor.


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A lírica do inexaurível: a proposta poética de Miguel Afonso Andersen Por Sara Timóteo

Desde sempre alguma literatura se tem ocupado da busca de algo inatingível, que pode revestir a forma de uma mulher transmutada em ideal, de um local aprazível onde todos possam (con)viver em harmonia, ou, de um modo mais prosaico, de alguma verdade sobre o próprio autor e o mundo onde vive.

Miguel Afonso Andersen é, na proposta poética com que nos confronta, completamente diverso destas três formulações de busca/perseguição pertinaz de um ideal. Apresenta-nos, desde logo, uma faceta do «terrestre» a que se refere Herberto Helder e também, num certo sentido, Vergílio Ferreira. Procura, não o transcendente, mas o imanente no que se refere à condição humana. Neste sentido, Andersen destaca-se de autores como Antero de Quental e Florbela Espanca, na medida em que um amor ideal é inexistente como objeto da sua obra; apenas o vivido (seja consumado ou não) é verdadeiro. Assim, a proposta poética anderseniana elimina quaisquer vestígios da dicotomia entre o vivido e o que se almeja, dicotomia esta que persiste em alguma produção poética atual que apregoa ser livre de influências neorromânticas (e neoplatónicas).

Diz-nos Miguel Afonso Andersen no livro «Circum-navegações» (em «Raiz perturbada») que “Das frases que longamente ensaiei/ ao velho piano da minha ousadia/ apenas resta este nó,/ este arrepio que me paralisa o cristal da língua.”. Trata-se de uma caraterística distintiva da poesia anderseniana com que nos deparamos neste excerto e, como o próprio poeta indica numa das conversas que tivemos online: «se o que escrevo não é pura poesia, será, pelo menos, poesia pura». A recusa de qualquer artifício e a opção deliberada pela simplicidade (não aludo, é claro, a qualquer forma de simplismo), quer seja no que se refere à escolha de palavras, quer se nos revele no repúdio pelo tratamento condescendente e paternalista do leitor ecoa, em muitos trechos, as vozes de Herberto Helder e de Mário Cesariny, pela ambiguidade que é utilizada com precisão para explicitar o sentido de uma determinada oração, como por exemplo ocorre nos seguintes versos: «Só assim,/ imaginando,/ tacteando,/ dissecando/ eu sei, /provo/ e comprovo/ que tu apenas existes/ no território fértil,/ febril,/ opaco /e húmido /do meu desejo.». É a ambiguidade utilizada para dotar de sentido (por vezes, de significado) as palavras do poema que retira o palco ou o estrado da relação entre voz lírica e esteta, ou seja, é a ambiguidade que promove uma relação de igualdade entre quem escreve e quem lê.

Na obra «Tríptico de Vozes», Andersen enuncia, a meu ver, os preceitos da poesia pura de que se constitui, simultaneamente, arauto e bastião. O poeta recorda-nos que "Tudo, /quase tudo,/ nasce da árida/ nudez do nada.//Assim/as palavras.//Inertes, inócuas e inúteis,/antes/da celebração mágica/ da escrita.". Um tal despojamento, até das palavras, perante a «celebração mágica/da escrita» remete-nos, não para um mundo ignoto, misterioso e, de algum modo, inacessível, mas para o mundo «da festa de nudez que nos veste», como diria Sophia de Mello Breyner Andresen. A escrita será um ato de comunicação, antes de mais, pois é a arte de comunicar o que se sente e o que se vê através das palavras, até aí «inertes, inócuas e inúteis» e dotar essas mesmas palavras de uma vida que até então lhes era estranha.

Neste deslumbramento perante o ato de comunicação ocorrente no momento presente, Miguel Afonso Andersen convida-nos a partilhar a lírica do inexaurível e recorda-nos que a poesia – e a literatura – não se esgotam em anseios gastos.

Andersen procura, como todos os autores cujas palavras vale a pena ler, a limpidez de expressão do primeiro olhar sobre as coisas, a nudez primordial daquele que revela e aponta os nomes de cada elemento e confere vida às coisas nomeadas através do verbo, descobrindo-se, ao mesmo tempo, só, despido e frágil sob a força recém-descoberta desses elementos que nomeia, os quais dota de uma parte essencial de si próprio. É essa a lucidez a que alguns chamam amor – e Andersen recorda-nos que as palavras só se unem em celebração por via do amor. Para que as palavras se tornem vivas, não é preciso que a expressão desse amor seja sentimental – aliás, Proust já nos havia ensinado que ser-se sentimental corresponde a ser-se cruel. Miguel Afonso Andersen não apresenta qualquer traço de sentimentalismo e, por isso, a lírica inexaurível do ser transmuta-se na expressão mais bela de amor – o amor, afinal, que subjaz a qualquer forma de literatura.


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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