o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

O livro manuscrito na cultura portuguesa: instituições, produção, acumulação, utilização, transmissão

Este artigo centra-se na forma como o controlo de conteúdo do livro manuscrito possuía implicações directas na sua produção, acumulação, utilização e transmissão.


Introdução

Brasão por David Silva WindSidh Sara Timóteo.jpg

Perscrutar o papel desempenhado pelo livro manuscrito na cultura portuguesa afigura-se-nos uma tarefa de algum relevo. Tentaremos focar os aspectos fulcrais da temática considerada.

Torna-se necessário dizer que o livro manuscrito transporta em si a marca da época em que foi produzido . Assim, pode dizer-se que se trata, verdadeiramente, de um produto cultural marcado pela intencionalidade a todos os níveis operatórios aqui estudados: o das instituições de onde releva a sua existência, o do contexto em que foi produzido, o das circunstâncias em que foi acumulado, o das marcas que revelam a sua utilização e, por fim, o dos mecanismos da sua transmissão.

As leituras efectuadas apontam para a complexidade do livro enquanto elemento de análise cultural, mas também para a simplicidade analítica que subjaz ao desvendar da sua intencionalidade (se pensarmos no livro como resultante de uma intencionalidade e nas dimensões de operacionalidade do mesmo). Cabe-nos então a tarefa de promover uma leitura que medeie entre ambos os extremos (complexidade e simplicidade), para que o livro manuscrito possa surgir na sua evidência sem descurar o rigor que se pretende incutir à sua análise enquanto objecto de discursos, práticas e representações do conhecimento científico.

O livro manuscrito surge como um objecto integrado em universos relativamente diversificados gerados em bibliotecas ou arquivos institucionais que representam a cultura de uma colectividade no prolongamento de si própria.

É de primordial importância o contributo da Igreja para o circuito de leitura e de produção do livro manuscrito. Por exemplo, a prática da colação (leitura colectiva) desenvolvia interesses que se prolongavam em termos de investigação de outros textos e a sua prática transitou para a instituição universitária fundada no final do século XIII . Para além disso, os próprios laços que uniam os membros de famílias regulares facilitariam os contactos entre diversas regiões da Europa e do país.

A corte surge, também, como uma instituição relevante para a história do livro manuscrito em Portugal , sobretudo ao nível de assuntos de carácter mais temporal (leis, medicina e leitura de lazer), mas apenas após essa utilização secular ter tido lugar no seio das comunidades monásticas, itinerantes e/ou conventuais.

Até ao século XV, a produção do livro manuscrito terá sido inteiramente determinada pela procura . De facto, a produção obedeceria a uma justaposição de acordos de carácter comercial entre os comanditários e os artesãos de vários ofícios e graus de mestria necessários para levar a bom termo a tarefa . Existiria uma identificação quase absoluta entre o local onde os manuscritos eram produzidos e o local onde eram utilizados, sobretudo se atentarmos nas várias adaptações efectuadas tendo em conta a língua vernácula e os maneirismos regionais .

Na fase de produção, o scriptorium desempenhava uma parte essencial na constituição do livro manuscrito de acordo com uma intencionalidade assumida – mais enquanto actividade de produção do que enquanto instituição operatória . Efectivamente, o scriptorium baseava-se na formalização de um instrumento cultural (o livro) independentemente do autor do texto e mediante a planificação de obtenção de um determinado efeito de leitura. Com o scriptorium, surge o controlo da transmissão do conteúdo através da forma .

O scriptorium e a biblioteca parecem formar um binómio complementar, pois o primeiro surge para servir as necessidades do mosteiro e manter fornecida a biblioteca deste .

Mais tarde, a biblioteca surge como uma forma de comunicabilidade qualificada através da qual se torna possível ter acesso aos mais diversos livros em variados lugares e também ficar a par das técnicas de trabalho, o que gera uma certa uniformização e também uma certa profusão de variantes significativas resultantes da adaptação dessas técnicas de trabalho a realidades locais.

Surgem a biblioteca de consulta e a biblioteca de conservação , pólos que ainda hoje norteiam o acesso ao livro manuscrito nas instituições de custódia. A partir dessa tensão nasce o catálogo e surgem as primeiras requisições de empréstimo.

O livro surge como uma forma de comunicar com os outros por via da partilha de interesses comuns (por exemplo, a espiritualidade), mas também como um meio de aumentar o prestígio social e de afugentar horas vazias em momentos de lazer , o que permite ao scriptorium encontrar um público consumidor.

Trata-se, é certo, de um instrumento de leitura, leitura essa que se expressa em modalidades de uso de que podem subsistir marcas ao longo do tempo e que corresponde à interpretação funcional da sua intencionalidade e significação . A leitura pode ocorrer em âmbito privado ou em âmbito público e todos os matizes de possibilidades de leitura se manifestam nas modalidades que testemunham a sua utilização.

Vive o livro manuscrito devido à existência de uma comunidade textual interessada. É essa comunidade textual que transmite o que recebe. Trata-se, pois, de uma comunidade activa e criativa em termos de mentalidade e de atitudes face ao livro, o que nos obriga a perspectivar de uma forma mais dinâmica o circuito do livro manuscrito .

O livro manuscrito encontra-se cativo de um paradoxo fundamental ao nível do seu circuito de leitura: o carácter efémero da propriedade privada e o florescimento de transacções comerciais relativas à sua produção e que incentivam a sua perpetuação mais ou menos idónea em termos formais e estruturais .

Hoje, torna-se necessário recuperar o sentido de racionalidade do livro manuscrito para o podermos compreender na sua intencionalidade. O livro manuscrito, na cultura portuguesa, constitui um marco indicativo e cada exemplar contém a possibilidade de ser instrumento de leitura num sentido mais amplo. Os exemplares que suscitam dúvidas podem revelar-se preciosos na ruptura com o senso comum e na investigação que dá relevo à comunidade científica. Por vezes, um desses exemplares contribui para situar melhor o presente relativamente aos marcos que se pensavam construir o passado.

As edições têm, neste contexto, um lugar fundamental, de tanto maior importância quanto maior for a sua componente crítica e, simultaneamente, a sua fidelidade ao contexto em que o livro foi produzido para o usufruto de uma dada comunidade textual .

É importante perceber que o livro manuscrito constitui um património tão palpável quanto o de um monumento edificado ou de uma estátua e que respeitá-lo é apenas começar a compreendê-lo e recuperar a sua forma de leitura original é devolver-nos a identidade desse mesmo texto em toda a sua simplicidade e na sua infinita complexidade.

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Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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