o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

Há metafísica bastante em pensar em tudo

A temática da dor de pensar em Alberto Caeiro pode ser submetida a escrutínio a partir dos textos éditos do heterónimo que estão disponíveis para consulta por parte de todos os interessados em www.arquivopessoa.net. Existem alguns textos críticos neste sítio que poderão ser úteis para complementar a análise que se pretende esboçar no presente artigo, tendo em consideração o relevo que esta temática assume nos estudos acerca da heteronímia pessoana.


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Há metafísica bastante em pensar em tudo: a dor de pensar em Alberto Caeiro

O título atribuído ao presente artigo deriva do verso inicial do poema V d'O Guardador de Rebanhos: «Há metafísica bastante em não pensar em nada.». Será que a intenção de não pensar em nada pode constituir-se como um modo de, afinal, pensar em tudo? A hipótese que subjaz a esta tentativa de construção ensaística assenta na possibilidade de sinonímia entre o não pensar intencional e a dor de pensar (intencional ou não) em Alberto Caeiro. Se a questão supracitada tiver uma resposta afirmativa, então este heterónimo será, talvez, o menos bem-sucedido no que diz respeito à consistência entre a intenção subjacente à sua génese e o que a sua poesia apresenta como construção em torno da dor de pensar.

Não é preocupação deste artigo delimitar a dor de pensar em Alberto Caeiro numa relação de contiguidade ou de continuidade com a dor de pensar na obra de Fernando Pessoa ou de Álvaro de Campos. O propósito será o de contrastar o programa explícito que se destaca da génese heteronímica de Caeiro com o que sucede ao longo da sua produção poética.

Na carta a Armando Cortês-Rodrigues datada de 1915, Fernando Pessoa afirma: «Mantenho, é claro, o meu propósito de lançar pseudonicamente a obra Caeiro-Reis-Campos. Isso é toda uma literatura que eu criei e vivi, que é sincera, porque é sentida, e que constitui uma corrente com influência possível, benéfica incontestavelmente, nas almas dos outros.». Nesta carta, a hierarquia entre heterónimos não é notória (aliás, é abordada a questão da pseudonímia, mais do que a de heteronímia). Mais tarde, esta hierarquia surgirá com mestre Caeiro na dianteira dos outros heterónimos e esse caso de reflexão sobre a natureza da heteronímia que é o ortónimo. Se a génese dos heterónimos surge associada a uma evolução temporal, essa evolução parece sugerir uma premeditação na apresentação de uma génese mais tardia, cuja prevalência se manteve intacta até hoje. É uma génese pensada, não espontânea (ao invés do que Fernando Pessoa indica na tábua bibliográfica de 1928 e na carta sobre o nascimento dos heterónimos). Contudo, esta génese pode ser perspectivada com base na maior relevância atribuída aos heterónimos que mais se afastam daquilo que Pessoa definiu como a sua natureza neurasténica-histérica e, mais do que uma génese obediente a critérios temporais, poder-se-ia considerar uma génese com contornos programáticos em que a figura e a poesia de Alberto Caeiro se distanciam explicitamente da dor de pensar de Fernando Pessoa e no heterónimo mais «histérico» (e, portanto, mais próximo do ortónimo) que é Álvaro de Campos. Nesse sentido, Caeiro seria o mestre de todos os heterónimos e ortónimo, dado que, devido ao seu afastamento dessa dor de pensar, constituiria um modelo de libertação dessa mesma dor, objectivo que talvez tenha presidido à sua emergência como heterónimo pessoano.

Ora, se a génese heteronímica parece surgir de uma forma calculada, a poesia de Caeiro que é mitificada como a menos pensada de todas talvez seja a mais deliberada de todas, na medida em que Caeiro é apresentado como o poeta da natureza para quem pensar é estar doente dos olhos.

Pessoa, num excerto por datar, designa Caeiro como um grande poeta materialista (Pessoa, s.d. cit. Lopes, 1990). No entanto, ser poeta materialista significa estar «sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir/sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito»? Não decorre de ser materialista o não pensar em nada, nem a exclusão de pertença a um sistema filosófico e/ou religioso (embora tal exclusão pareça ser sugerida pelos poemas d'O Guardador de Rebanhos e dos Poemas Inconjuntos). Num dos poemas inconjuntos, Caeiro publica uma estrofe em que parece pensar sobre o que a palavra materialismo significa: «Dizes, filósofo doente, filósofo enfim, que isto é materialismo/Mas isto como pode ser materialismo, se materialismo é uma filosofia/ Se uma filosofia seria, pelo menos sendo minha, uma filosofia minha,/E isto nem sequer é meu, nem sequer sou eu?» Ricardo Reis, no prefácio à obra de Alberto Caeiro, descreve o materialismo do mestre como o livre-trânsito que a poesia de Caeiro concede aos leitores para se deslocarem «entre as simples coisas, que nada conhecem, em seu decurso, de viver ou morrer.». As «simples coisas» que «nada conhecem, em seu decurso, de viver ou morrer» podem tomar parte desta metafísica de pensar em tudo que foi sugerida no título: é que há metafísica bastante em procurar definir a realidade a partir de um não-sentido e de uma não-finalidade da mesma. Existe, igualmente, metafísica bastante em procurar delimitar a natureza das coisas e hierarquizá-las a partir do que se define como sensação pura. Esta questão não é, de todo, uma novidade de pensamento e enquadra-se, embora por contraste explícito, em considerações aristotélicas sobre a natureza do conhecimento, da percepção da realidade e da construção da «arte» a partir dessa percepção da realidade.

A questão do pensar face à afirmação tácita do não pensar em Alberto Caeiro é um tema que parece surgir com alguma regularidade no âmbito dos estudos da obra de Pessoa. Waldman (1988) e Silva (2000) enfatizam a premissa básica do poema I d'O Guardador de Rebanhos: «Eu nunca guardei rebanhos/Mas é como se os guardasse.». Silva (2000) considera que esta premissa estruturada em torno de uma condição remete o leitor apenas para incerteza por oposição à certeza que o enunciado procura deixar transparecer. Segundo a autora, este excerto denuncia, ainda, o esforço para manter a máscara associada ao heterónimo, na medida em que remete o leitor para uma aprendizagem do desaprender. Torna.se possível, pois, sugerir que, para além da dicotomia que dilacera a poesia de Alberto Caeiro entre o não-pensar programático e apesar disso, há uma dor de pensar que decorre do facto de Caeiro ter consciência de que está a pensar e de que, por isso, entra em contradição com o programa que postula. Nesse caso, poderá a existência de Caeiro enquanto heterónimo deixar de fazer sentido? Poderá ter sido a dor de pensar, mais do que a tuberculose herdada de Cesário Verde e de outros artistas do olhar do início do século XX, a ditar o fim da vida de Alberto Caeiro?

Ferreira (2003), reconhecendo-se tributário de análises da autoria de Maria Teresa Schiappa de Azevedo e de Maria Helena Nery Garcez, explora a ideia de que a simplicidade de Caeiro é falaciosa e, na subversão subjacente à construção que faz de um mundo alicerçado nesse não-pensar, muito mais disruptiva para o leitor do que as odes de Álvaro de Campos. Tal como Silva (2000), Ferreira (2003) defende que a poesia de Alberto Caeiro corresponde a uma tentativa muito complexa de se desnudar para viver a natureza; o autor enfatiza que a substituição das roupagens modernistas por outras nem sempre é bem-sucedida quanto à leveza do olhar, do sentir e do (não) pensar.

Caeiro parece fazer depender a inteireza da sua obra poética deste não-pensar. N'O Pastor Amoroso, o mestre ressurge sob os versos: «Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só/Pensar nela./Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.». Se o pensar existe nos poemas de Caeiro apesar de todos os protestos em contrário, a nudez de Caeiro resulta de uma construção. Assim, a inteireza de Alberto Caeiro converte-se numa ficção (Silva, 2000). Se a inteireza de Caeiro corresponde a uma ficção, a fragmentação que se torna evidente a partir da leitura da poesia da autoria deste heterónimo parece apontar para uma dor de pensar que persiste para além das intenções programáticas que presidiram ao seu nascimento heteronímico. Assim, a poesia de Caeiro poderá corresponder ao resultado mal-sucedido de um programa de libertação da dor de pensar por parte de Fernando Pessoa.

Referências bibliográficas CAEIRO, A. (s.d.) - Poemas. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: FERREIRA, A. M. (2003) - «"Louvado seja Deus que não sou bom": Alberto Caeiro, São Francisco de Assis e o menino Jesus». In MORA, C. M. (2003) - Sátira, Paródia e Literatura: da Antiguidade aos Nossos Dias. Aveiro: Universidade de Aveiro, pp. 253-264. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: PESSOA, F. (s.d.) - Um grande poeta materialista (Alberto Caeiro). In LOPES, T. R. (1990) - Pessoa por Conhecer: Textos para um Novo Mapa. Lisboa: Estampa, 1990. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: PESSOA, F. (1915) - Carta a Armando Cortês-Rodrigues. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: PESSOA, F. (1928) - Tábua bibliográfica. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: PESSOA, F. (1935) - Carta a Adolfo Casais Monteiro. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: REIS, R. (s.d.) - Prefácio. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www: SILVA, T. C. (2000) - O Avesso do Bordado: Ensaios sobre Literatura. Lisboa: Caminho. WALDMAN, B. (1988) - «Via de mão dupla». Remate de Males Campinas, n.º 8, pp. 1-6. [Em linha]. [Consult. 01/04/2016]. Disponível na www:


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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