o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

A subversão que a poesia promove

Este artigo pretende explanar a principal diferença entre o argumento de República III 414bc e o argumento de República X 607e-608b.


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Sara Timóteo

Universidade de Lisboa

Os argumentos de Rep. IIIbc e de Rep.X607e-608b parecem diferir na medida em que exortam a atitudes diferentes no que diz respeito ao uso da mentira.

No primeiro excerto, aceita-se o uso da mentira apelidada de «nobre» para convencer os chefes e toda a cidade de que os novos devem auxiliar e defender a doutrina dos chefes e que os guardiões tanto mais se aproximam da perfeição quanto mais cuidam dos amigos internos e dos inimigos externos para que nenhum mal possa recair sobre a cidade, ao passo que, no segundo excerto, se aconselha o «amador de poesia» a despreocupar-se relativamente a ela por não ser detentora da verdade.

De facto, poderá existir uma aparente contradição, na medida em que chefes e guardiões e chefes terão de resguardar a cidade com base numa explicação fabricada (uma mentira, embora nobre), mas o ouvinte de poesia não poderá agir de acordo com o conteúdo da poesia, que, como foi explicitado em Rep.II377d, assenta, na sua maior parte, na mentira sem nobreza (que é o facto de delinear erradamente o carácter de Deuses e de homens), devido ao seu carácter mimético (conhecimento da aparência sem conhecimento da realidade).

A diferença entre ambos os argumentos parece residir, pois, na natureza da mentira utilizada para reger as condutas dos chefes, guardiões, auxiliares e artífices da cidade.

Se uma mentira é nobre, por oposição face à definição apresentada de mentira sem nobreza em Rep. III377d, essa mentira descreverá com exactidão o carácter de Deuses e homens.

E de que mentira se trata?

Rep.414d-415e elucida-nos sobre essa definição: os homens nasceram irmãos e filhos da terra, mas com qualidades que se podem comparar às do ouro, prata e bronze.

Após vários testes (tanto nas maiores provações quanto no regresso aos prazeres), o homem de ouro que mantiver o seu carácter deverá ser nomeado chefe; o de prata deverá ser um auxiliar; o de bronze deverá ser um artífice ou lavrador.

Uma vez que a fabricação desta explicação (que é mentira, lembremo-nos de tal), resulta no bem da cidade, a mentira é nobre, pois a acção nela baseada aproxima-se de uma certa ideia de justiça e de virtude.

Em contrapartida, a mentira sem nobreza propagada pela arte mimética da poesia origina o desgoverno da alma e aceitação de comportamentos censuráveis de auto-comiseração (desde que retratados na pessoa de outrem) por parte dos ouvintes da mesma, exacerbando as paixões e os prazeres ao ponto de poder trazer a tirania «enlouquecida por paixões e por Eros» como retratado em Rep.IX-573a/575a; para além disso, afasta-se da verdade em três pontos como indicado em Rep.X 597e, executando aparentemente tudo por atingir uma pequena parte de cada coisa, que não passa de uma aparição (Rep. X, 598c).

Se a mentira nobre contribui para a unidade e o bem comum da cidade face aos inimigos externos e aos sabotadores internos, a mentira sem nobreza enfatiza desejos e paixões que, desgovernadas, afastarão o indivíduo da justiça e da virtude, de cujo cumprimento decorre o bem comum da cidade.

Se a mentir nobre reproduz e reforça a ordem da cidade, legitimando os poderes vigentes com base no carácter dos homens e das suas respectivas funções, a mentira sem nobreza gera o ludíbrio no que se refere aos mesmos temas (Rep. X 599a), podendo, em casos extremos, produzir a impiedade como descrito em Rep. III 380b ao dizer que o divino, sendo bom, produz desgraças para alguém.

Em suma, a mentira parece-nos surgir como aceitável no primeiro excerto, já que a sua natureza é nobre e contribui para o bem comum da cidade; no segundo excerto, a mentira revela-se como inaceitável, pois carece de nobreza e poderá originar o desgoverno interior prejudicial ao bem comum da cidade.

Por conseguinte, os que se dedicam à poesia não são conselheiros adequados ao bom governo da cidade, à elaboração de legislação, à chefia de batalhas e à educação dos homens (Rep. X 599d-601c), uma vez que carecem duas das artes relativas ao objecto da sua poesia: para além da arte de imitar que utilizam muito,a de confeccionarem e a de utilizarem as suas próprias palavras para um determinado fim (Rep. X 601 d-e).

Bibliografia Platão - «A República» (pub. 2012). 13.ª ed. Trad. Maria Helena Rocha. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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