o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

Voo pela sombra: a poética de Fernando Chagas Duarte – primeira parte

Fernando Chagas Duarte apresenta-nos uma obra cujo léxico vale uma leitura atenta. O recurso à intersemiose converte o ato de ler num convite à reflexão, mais do que a qualquer interpretação de palavras, métricas e temas. "Oblíquos" apresenta-nos a sugestão de um percurso emergente, não a partir de uma reta controlada pelo sujeito poético, mas antes de vários rizomas que se vão entrelaçando e fortalecendo entre si, criando caminhos improváveis de achamento e de pureza. Podemos considerar que o eu lírico empreende, com sucesso, um voo pela sombra, congregando várias influências sem delas se apropriar. A mestria desta obra reside no «gesto d’asa» próprio de quem leu muito, viveu muito, amou muito. A tessitura de sombras através das quais nos faz atravessar o rio do esquecimento é densa e promove a rememoração de tudo aquilo que é essencial e que desde há muito consideramos na condição de supérfluo.


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Tomei contacto com a poética de Fernando Chagas Duarte por via de uma pequena antologia publicada pelas Edições Hórus em 2015. O poema de sua autoria intitulado «História de Embalar» desde logo me encantou pela audácia com que desvenda o anelo de separar a perceção da autocomplacência: «São quase lentas as histórias com final feliz.», diz-nos o poeta, talvez porque «assim perfilados, secretos/os dorsos dos livros arrumam-se lado a lado/atirados pela lombada ao coro da ilusão». Pouco resta, portanto, da ideia de redenção através da produção literária. Só os loucos, afinal, retêm alguma perspicácia perante a passagem do tempo: «Ao corpo dos loucos pertence pouco mais que o ver das coisas sãs/entabulando conversas com o tempo e com mulheres devastadas/surgem-lhes nos olhos ramos de rosas transparentes/visões do nada, do seguinte e do amor.»

O autor identifica-se com os loucos de que fala ao longo do poema supracitado pois, como refere no texto ainda inédito «se a eternidade for perdoada» (tornado público no decurso da apresentação da obra Oblíquos, também da sua autoria, no dia 11 de abril de 2019), «eu, que não ouso dizer mentiras sobre todos os homens/(…)por vezes/sinto que sou mais, muito mais que a simples existência/amalgamada de um homem.» Para Fernando Chagas Duarte, os poetas e os loucos (esgrimindo-se com o adágio popular de fatalidade portuguesa da qual todos padecemos um pouco) são similares na renúncia aos meandros do poder e à entrega a algo não transcendente, mas imanente a toda a humanidade: as «visões do nada, do seguinte e do amor».

Poderíamos identificar cada uma destas visões com um jogo popular: às visões do nada corresponderá o jogo da cabra-cega, às visões do seguinte o jogo das escondidas e às visões do amor o jogo das adivinhas. De todos estes jogos, ou visões, se encarrega o sujeito poético ao longo de Oblíquos.

1. O jogo da cabra-cega: visões do nada

O jogo da cabra-cega pressupõe o reconhecimento de continuidades de forma a poder converter o invisível em percetível. Tal sucede, em Oblíquos (e também nas obras anteriores). Nas pp. 11-12 são os gatos que ocupam um lugar cimeiro no esboçar da luz; nas pp. 25-26 desenrola-se um estudo de movimento por via dos pássaros e, nas pp. 28-31, encontra-se uma estranha configuração de continuum entre os peixes e o pássaro, os habitantes do mar e do ar. Estas são as «visões do nada», ou seja, das pequenas coisas do quotidiano fulcrais para a reflexão do sujeito poético sobre o tempo e sobre uma certa forma de tomar as convenções como verdades absolutas. Com recurso a várias tonalidades de gradação ao longo da obra, o discurso lírico relembra-nos que as convenções, sob o signo da corrupção, escravizam a nossa perspetiva do mundo. E aquilo que esquecemos, porque o escravizamos, é aquilo que nos mata. Como seres perambulando vendados, desprezamos as pequenas coisas que tomamos como garantidas enquanto tentamos descobrir o nosso percurso orgânico e não-impositivo (porquanto não-linear). Neste sentido, poderemos encontrar uma forte similitude entre o desafio que o eu lírico nos apresenta ao longo deste livro e a alegoria platónica da caverna.

2. O jogo das escondidas: visões do seguinte

Para o sujeito poético, as visões do seguinte obedecem a uma conceção do tempo também não-linear, à semelhança do que ocorre na abordagem de qualquer percurso ao longo da obra. Assim, o recurso às analepses e prolepses (por exemplo, a prolepse presente nas pp. 74-75) é frequente, visto que, afinal, a passagem do tempo corresponde a mais um artifício de que fazemos uso para reforçar as nossas próprias convicções – as tais que nos aprisionam. O futuro só pode existir sem despedida, pois «escrever tristeza/não rima com luz nem com vida» (Fernando Chagas Duarte, 2014,p. 94). Contudo, a visão mais marcante do seguinte é-nos transmitida pelo breve poema que serve de introdução à terceira parte da obra A hora das coisas, intitulada «guerra»: «os pássaros estão despidos/sem roupa em que voem de asas abertas//vestem-se de sol e luz, mas pelos céus azuis/anseiam». Não é por acaso que esta parte do livro se intitula «guerra»: a visão do seguinte (futuro) como um tempo povoado pelos que se vestem de sol e de luz entra em desacordo profundo com toda a medida de sucesso que se provê como referência para uma certa visão do devir numa ótica de pós-modernidade e/ou de pós-verdade. Tal como os pássaros nus, também o sujeito poético se desvenda (mais do que ao longo das obras anteriores), como poderemos entrever nas páginas 8, 27, 39, 41-42, 77, 80, 84, 94, 106, 107, 137 e 138 de Oblíquos. É este jogo das escondidas com os mais diversos leitores que, na verdade, parece configurar a solidez do projeto poético de Fernando Chagas Duarte, aproximando o seu labor literário das propostas de rutura discursiva propaladas por Pirandello e por Joyce.

3. O jogo das adivinhas: visões do amor

O terceiro jogo que o sujeito poético nos propõe em Oblíquos é o das adivinhas. Na p. 63, é-nos facultada uma pista: «ou seria tudo ao avesso do que se diz/- quem nos salvará de nós». E assim, uma terceira vertente do homo ludens configura-se como uma forma, talvez superlativa, de transmitir as visões do amor. Tomemos como exemplo o poema da p. 90 lido com tudo ao avesso do que se diz: «aberta ao céu/simples e ingénua,//uma velha árvore desfolhada/no fim era só/com as gengivas expostas,//a autoritária casa dos avós/destelharam enfim//[título do poema]a casa dos avós». A caraterística lúdica atribuída pelo eu lírico à vivência plena dos afetos prossegue nas p. 15, 27, 33, 35 e todos os leitores estão convidados a descobrir outros textos onde tal prática persiste. A resposta ao despique lançado pela voz poética na supracitada p. 63 quanto a «-quem nos salvará de nós» parece residir no jogo que é, afinal, a mais (im) perfeita manifestação do amor.

Bibliografia

Duarte, Fernando Chagas (2014) - … Quase cem poemas de amor e outros fragmentos. Lisboa: Chiado Editora.

Duarte, Fernando Chagas (2017) – A hora das coisas. Lisboa: Pastelaria Studios Editora.

Duarte, Fernando Chagas (2018) – Oblíquos.[S.l.]: Eu Edito.

Nabais, Inês (2015, org.) – O Sonho em Poesia. Volume 1. Lisboa: Edições Hórus. Duarte, Fernando Chagas -poemas «História de Embalar» (pp.78-79) e «Nós, os loucos» (pp.80-81)


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
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