o reverso do ser

reflexões sobre literatura e arte

Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009.

Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora.

Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria.

Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero.

Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil).

Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019.

Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A..

Voo pela sombra: a poética de Fernando Chagas Duarte – segunda parte: Alma minha gentil que te partiste

Fernando Chagas Duarte compele-nos ao retomar, ao longo da obra que vai burilando sob o nosso olhar de estetas, de alguns temas e recursos próprios da poesia trovadoresca. Também não é alheio, a esta construção do Eu poético em devir, o aventura proposta pela narrativa medieval. Oblíquos centra-se naquele que se afasta de casa e que, mais tarde, a redescobre com o olhar imbuído de outras paragens, não deixando de contrastar essa perspetiva com a crítica à ars poetica e ao espírito do tempo que é considerado já (ultra)passado, embora ainda exista imersão na convenção de onde emerge tal espírito.


A poesia de Fernando Chagas Duarte constitui-se como uma experiência de contacto com a alteridade em que nada é deixado por explorar. Nisto se assemelha, afinal, à demanda dos cavaleiros que, abandonando tudo o que conheciam, se dispunham a um percurso incerto, por vezes fatal. Bernardim Ribeiro, Luís Vaz de Camões, Bocage são algumas das sombras que contemplamos, em arrimos depurados, à medida que folheamos as páginas de uma obra pouco consentânea com as modas que por aí pululam e que centram todo o discurso numa experiência auto-fágica de contemplação narcísica de cada sensação que assola o autor/eu lírico.

Oblíquos.jpg

Ao invés do imediatismo, deparamo-nos, por exemplo, com uma crítica ao baile de sábado à tarde em que «só haviam mulheres a dançar//em torno de um círculo//de sobreviventes.» (Duarte, 2018, p. 97) e reencontramo-nos com a tragédia do último soberano, tão similar ao poema de Sophia (2004) sobre a princesa da cidade extrema a quem nenhum serviçal acorre, porque «sabe-se//que os dignatários fogem da sorte//quando esta se ausenta da fortuna.» (Duarte, 2018, p. 67).

À semelhança do que sucede na narrativa medieval, o autor confronta-nos com criaturas fantásticas, povoadoras dos confins da experiência com a qual podemos identificar-nos antes de dealbar o limiar da loucura: «o triste peixe que adeus-pertence» (Duarte, 2018, p. 28) e os pássaros-peixe cheirando a cardume sobre as árvores vistas por um profeta (Duarte, 2018, p. 29), ágil convite para dispensarmos como garantida qualquer uma das nossas perspetivas para que «não se imagine amor e bondade em banais ofertas//de insanidade» (Duarte, 2018, p. 64), uma vez que «há poemas de naufrágio, outros onde se//naufraga.» (Duarte, p.130), sendo uma dessas perspetivas onde se naufraga a de um lirismo exarcebado.

Em suma, o achamento não se circunscreve ao tempo físico das coisas, mas antes à perceção que delas fazemos – e essa perceção é passível de correção e de mudança, o que oferece a cada pessoa a possibilidade de acreditar naquilo que escolhe e não naquilo que lhe é imposto ou naquilo em que é persuadida a acreditar por convenção e/ou conveniência.

Reconhecendo embora o peso dessa convenção/conveniência, a exploração de um novo percurso reflexivo que a poética de Fernando Chagas Duarte postula propõe-nos a liberdade enquanto caminho possível, ainda que a mesma nos possa ser fatal. É este um dos méritos da aproximação que faz à lírica trovadoresca do amor e à narrativa cavaleiresca pautada pela incerteza da descoberta.

Bibliografia

Andresen, Sophia de Mello Breyner (2004) – Ilhas. Lisboa: Assírio&Alvim. Duarte, Fernando Chagas (2014) - … Quase cem poemas de amor e outros fragmentos. Lisboa: Chiado Editora, pp. 29, 42, 73, 86, 113 Duarte, Fernando Chagas (2017) – A hora das coisas. Lisboa: Pastelaria Studios Editora. Duarte, Fernando Chagas (2018) – Oblíquos.[S.l.]: Eu Edito. Nabais, Inês (2015, org.) – O Sonho em Poesia. Volume 1. Lisboa: Edições Hórus. Duarte, Fernando Chagas -poemas «História de Embalar» (pp.78-79) e «Nós, os loucos» (pp.80-81)


Sara Timóteo

Sara Timóteo publicou Deixai-me cantar a floresta e Chama fria ou lucidez em 2011 pela Papiro Editora na sequência da atribuição, respetivamente, do 1.º e do 2.º lugar no 2.º Concurso de Poesia Aníbal Faustino em 2009. Publicou em 2012 Refúgio Misterioso; em 2014 publicou Os Passos de Sólon (prémio Mensagem Notável atribuído pela Lua de Marfim Editora), Elixir Vitae e Os quatro ventos da alma (menção especial no Prémio Literário Glória Marreiros 2014), todos através da Lua de Marfim Editora. Em 2015, publicou O Telejornal (peça de teatro infantil) através dos Cadernos de Santa Maria. Em 2016, publicou O Corolário das Palavras (Rui M. Publishing, e-book) e o livro de poesia Refracções Zero. Em 2017, publicou Compassos e Diário Alimentar (Costelas Felinas, Brasil). Em 2018, publicou «Manual dos Ofícios: um conto longo sobre a anuência do mal», concorrente ao Prêmio Oceanos 2019. Tem dois livros de não-ficção e um livro de poesia bilingue publicados nos E.U.A...
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Sara Timóteo