Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

Um mundo de espelhos

Buscamos viver em um mundo onde todos são capazes de receber nossa imagem e refletir soluções para nossos problemas. Até quando viveremos tentando ser figurantes de nossas vidas?


body_scripture_ii_ronit_bigal_05.jpg Foto Divulgação: Ronit Bigal - Body Scripture II (2010)

Recentemente tenho andado sozinho, mas sozinho assim, sem companhia, não tem a ver com solidão. Por conta disso, conheço e converso com diversas pessoas que entram e saem da minha história como meros figurantes, como formigas se cruzam com um destino, esquecendo-se da beleza do caminho. Alguns, porém, permanecem um tanto mais... Foi o que aconteceu essa semana, durante aquele papo entre o "com licença, preciso passar" e o "obrigado" que acontece no balcão do bar de um pub qualquer, numa cidade qualquer, no meio de lugar nenhum. Esse mero contato desencadeou uma noite inteira de confissões, daquelas que fazem o ouvinte se perguntar "aonde eu fui me meter?".

Mas a intenção não é fofocar com o mundo o que me foi confessado. A reflexão é sobre a necessidade de termos significado, sobre precisar ter à flor da pele tudo que nos diz respeito, sobre tentar encontrar espelhos naqueles que nos pedem licença para atravessar do balcão do bar para a mesa do pub. Espelhos... É precisamente essa a questão. Por que buscamos nosso reflexo nos outros?

O autor americano David Foster Wallace, em seu discurso intitulado "A Liberdade de Ver os Outros", diz "tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos. [...] Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que sentimos e pensamos é imediato, urgente, real". A ideia era se livrar dessa obrigatoriedade, "ensinar a pensar" (suas próprias palavras), assim, perceber o outro como indivíduo, encontrar seu reflexo e respeitar o universo individual de cada um. Essa filosofia tinha como objetivo permitir que chegássemos aos 30, ou 50 anos de idade, sem querer tentar o suicídio. Curiosamente, esse mesmo autor foi encontrado enforcado em 2008. Ainda não sei dizer se isso vem ao caso...

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Essa necessidade de nos vermos refletidos em alguém é a raiz de diversos problemas. Ao manter nossas questões à flor da pele, projetamos nos outros a necessidade de encontrar quem nos complemente, quem possa pegar toda nossa montanha de roupas sujas e colocar naquela grande máquina de lavar roupas que é o vácuo existencial aonde essa pessoa viveu até hoje - pois o que importa mesmo é a nossa vida, somos o centro de tudo! Buscamos significar, sendo apenas significantes.

Naquele instante entre gentilezas, fui alvo de uma tentativa de dar significado à vida de um figurante da história que meus olhos contam, do filme ora dramático, ora comédia, ora aventura, ora documentário, que é a vida da qual sou o centro... e decidi descentralizar. Me compadeci daquela necessidade, do quanto aquela outra vida implorava por ser parte de algo além daquele caos fora de controle que se tornara o roteiro improvisado que ela vivia. Ouvi tantos detalhes de tantas cenas que aqueles olhos registraram que era quase como se eu estivesse sentado numa sala escura, com um balde de pipocas no colo, assistindo explosões absurdas de um filme de ação Hollywoodiana em que nenhum personagem tinha nome, mas era repleto de falhas... tantas falhas, tanto erro, tanta insensatez - dos outros.

Uma vez que o pensamento "padrão" é estarmos no centro de nossos universo, é esperado que de todas essas explosões sem nexo surja o herói ou heroína que dá sentido a tudo aquilo, que salva o dia, te pega pela mão e faz com que todos os seus defeitos sejam o que há de belo e único em você. A tela entra em fade-out e todos portam uma felicidade irrestrita e infinita.

Mas nesse filme, todos são figurantes, todos menos nós mesmos. Somos nós os capazes de tornar as explosões em soluções e somos nós que devemos ir atrás de conquistar aquela felicidade que aparenta não ter fim. É isso, ou esperar as luzes se acenderem, o teatro esvaziar e todos que assistiram sua passagem saírem se perguntando "aonde eu fui me meter?".


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
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