Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

"E vivemos como nossos pais..."

O eterno retorno niilista não está tão distante quanto parece. Até quando vamos revisitar nossas mágoas projetadas em outras pessoas, pela vaidade de escrever nossas histórias em um livro sem rasuras?


o-mito-de-sc3adsifo1.jpg

Sísifo era considerado o mais astuto dos mortais que, ao enganar a morte por diversas vezes, conseguiu morrer de velhice. Na ocasião de sua morte, foi condenado como um grande rebelde, assim como Prometeu (que deu a dádiva do fogo aos homens mortais). Sua pena consistia em rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estivesse quase alcançando o topo, a pedra rolaria novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Ele havia sido condenado a se repetir por toda a eternidade.

Mas o que você tem a ver com isso?

Primeiro de tudo, o que te basta: A certeza de estar seguro dentro de sua casa, a confiança nos teus amigos, teu contra-cheque no fim do mês? Ou quem sabe a convicção de estar fazendo o melhor para si, para os outros e para o mundo... Mas ainda somos grãos de areia no universo, entorpecidos por nossos ideais de grandeza e correção, fazendo desses mínimos instantes em que estamos de passagem por um período de consciência material, uma odisseia de justificativas para que a realidade seja o mais próximo possível do que gostaríamos que fosse. Queremos o perdão dos outros, sem termos nosso próprio perdão!

Quantas de nossas ações são reprises do que já vivemos? Muitas vezes nos pegamos revisitando o passado, travestindo personagens com base exclusivamente no conjunto de semelhanças ou proximidade com outras pessoas que criaram chagas em nossa história e partiram antes de conseguirmos virar aquela página que ficou um tanto rasurada, amassada e repleta de asteriscos, ressalvas, anotações e lembretes de "revisar este conteúdo". Uma mágoa que não foi esclarecida, uma pergunta sem resposta, um adeus antes da hora, um tropeço, um descuido, palavras que, de tão repetidas e ensaiadas em nossa mente, nunca foram ditas, são combustível para repetir todos os erros que nos levaram àquela situação, pra podermos dar outro fim a uma história já contada e deitar a cabeça no travesseiro sem a consciência pesar mais que nossa vontade de sonhar.

tiro-no-pe-2.jpg

Talvez o passo mais difícil de ser dado em direção ao nosso amadurecimento seja sair do nosso próprio caminho. A certeza de que somos plenamente racionais em relação aos nossos atos cria essa rota de fuga para um mundo que foi criado por nós mesmos, onde "dessa vez é diferente". Aquele namoro que você viveu e terminou porque suas ideias não eram compatíveis não é diferente desse último, em que você acredita que as diferenças entre vocês geram discussões construtivas e que, vez ou outra, termina em duas caras emburradas em frente aos seus respectivos smartphones, no escuro de seus quartos. Aquele amigo que te deu as costas porque não conseguiu entender que você fez "sem pensar", é igual a esse pra quem você está pedindo desculpas pois "estava bêbado naquele dia".

O que há em comum nesses exemplos não é a namorada ou o amigo. É você. Buscando um desfecho diferente para atitudes e comportamentos idênticos. Usando uma frase que minha mãe sempre me dizia, "tudo que entra, sai. E se não mastigar direito, sai mais fedido". (E ela não estava se referindo unicamente ao processo digestivo! Hahaha...)

Seja qual for a situação de conflito, precisamos primeiro tentar identificar qual é o nosso objetivo: Qual é a solução que eu estou buscando? O que isso vai remediar na minha mente? Qual a origem do incômodo que essa situação está me causando? Somente assim pode haver a segurança de não estarmos nos sabotando e dando motivos para sofrermos de novo e sempre pelo mesmo motivo.

Nietzsche sintetiza o raciocínio de forma magistral em A Gaia Ciência: "E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"

A questão então é deixar de nos sabotar, aprendendo a identificar o personagem que atribuímos a cada pessoa que entra nas nossas vidas e seu objetivo em nossa história. Nem sempre é fácil, nem sempre queremos ter esse trabalho e é exatamente por isso que nos repetimos. Fato é que ainda somos os mesmos e viveremos como nós mesmos...


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Luiz O. Esteves