Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

É preciso deixar acontecer

Por que é importante saber aceitar o momento e estar aberto ao novo? Há mais em Waking Life do que pressupõe essa filosofia que nada tem de vã. Aprenda a se render à felicidade de não ter definição, à esperança na insatisfação, ao sim em meio ao não...


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Costumava ser um qualquer. Mas teve um dia fora do comum. Algo saiu do lugar naquele velho sistema de acordar, esperar o mundo fazer sentido, levantar da cama e comer alguma coisa, esperar a refeição fazer sentido, sentar pra trabalhar, esperar o trabalho fazer sentido, assistir o entardecer, esperar o tempo fazer sentido e voltar a dormir. Entre uma xícara de café e a próxima, uma lágrima se suicidou de seus olhos e espatifou-se em seu colo. Foi um momento à parte da realidade, foi além dela e voltou para lhe acordar de um sono profundo. Horas depois, ainda ouvia o som oco daquela lágrima morrendo no tecido de sua calça... E podia ouvir o estalo: TOC!

Ali acordava de um transe. TOC! Não sabia dizer quantos dias se passaram, não sabia quanto tempo estivera preso ao moto-contínuo de acordar pra comer, comer pra trabalhar, trabalhar pra pagar as contas, pagar as contas pra ter onde dormir, dormir pra acordar, acordar pra comer (...). TOC! Mas sabia que ali, desperto, uma avalanche de memórias lhe viria à mente: as pessoas que ficaram pra trás, as que não se importaram em ficar, aquelas de quem havia se livrado, as que sozinhas se livraram... Todas estavam sempre condicionadas à questão: "eu sou, na presença dessas pessoas, quem eu quero ser pra mim?". Se a resposta fosse - ainda que remotamente - "não", então - TOC! - essa pessoa estaria no passado. Certo da infalibilidade de seu sistema, seguia jogando com as cartas da mesa.

Curiosamente, a partir do instante em que aquele estalo - TOC! - lhe despertou, olhou para o passado. Aquela enxurrada de "nãos" lhe mostrava que até então não havia sido capaz de ser quem queria ser pra si, seja na presença de quem fosse. Essa foi a prova de que não fora capaz de deixar acontecer, não havia se permitido ser a pessoa que apenas é. Viveu uma ilusão de que quem gostaria de ser chegaria até si um dia, carregado pelos braços de alguém, na presença de quem tudo aconteceria como deve ser.

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Nessa ilusão, viveu como muitos vivem: presos à inércia (inertes) do dia-a-dia. Em sua montanha de negações, esqueceu estar condenado à solidão de ser livre para dizer sim.

“O desafio [da vida] é nos libertarmos do negativo... que nada mais é do que nossa própria vontade do nada. Uma vez tendo dito sim ao instante, a afirmação é contagiosa. Ela explode numa cadeia de afirmações que não conhece limites. Dizer sim a um instante... é dizer sim a toda a existência. [...] Na verdade, só existe um instante, que é agora. E é a eternidade. É um instante no qual [a vida] está apresentando uma pergunta, que é basicamente: 'Você quer fundir-se com a eternidade?[...]' E estamos todos dizendo: 'Não, obrigado. Ainda não'. Logo, o tempo é apenas o constante 'não' que dizemos ao convite da vida. [...] Por detrás da enorme diferença, há apenas uma única história, a de se ir do não ao sim. Toda a vida é: 'Não, obrigado. Não, obrigado'. E, em última instância é: 'Sim, eu me rendo. Sim, eu aceito. Sim, eu compreendo'. Essa é a jornada. Todos chegam ao sim no final, certo?" [Trechos de Waking Life]

Não falo sobre vida e morte, todo ciclo que se fecha é começar outra vida, é morrer para quem se era, renascer para quem será. Aprender a dizer sim para o que movimenta e para o que recomeça faz parte de reconhecer que somos todos etéreas bolhas de sentimentos e ideias em movimento, todos prestes a evoluir, assim que perdermos o medo de dizer sim.


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
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