Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

As cores em silêncio - A fotografia de Larissa Bezerra

O mundo pelos olhos da fotógrafa piauiense que quis guardar as coisas que encantam e despertam sua inquietação como quem prepara as malas para estar sempre de partida.


Desde o início de 2014 venho escrevendo para a Obvious, ainda que com uma frequência muito menor do que minha urgência por receber o mundo de braços abertos. Entre diversos bons e maus momentos resultantes das minhas palavras, alguns merecem destaque. É o caso de Larissa Bezerra, essa artista pluralística de 27 anos que tropeçou em minhas palavras e decidiu confessar sua identificação com os meus restos mortais, com a licença poética que me permito, espalhados em alguma publicação passada.

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Dona de uma sensibilidade aguçada para o desconhecido em si própria, aliado a um perfeccionismo estético notável, ela mesma define sua arte: "Ela me ajuda a descobrir quem eu sou. Faz com que eu me confronte com meus medos, alegrias, sonhos, paixões... Quando eu estou fotografando, ou fazendo outros tipos de arte: pintando, desenhando, dançando, interpretando, eu me desligo do mundo e me ligo a mim mesma plenamente. Quando estou fotografando, ou criando, eu me liberto dos rótulos que eu ou que outras pessoas criam para mim e consigo me ver. Vejo minhas vontades, meus desejos... Acho que consigo ser mais plenamente eu mesma, seja lá quem eu seja".

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A inocência em suas imagens não é proposital. Como toda arte pura, o impulso existe e podemos senti-lo nas composições de cores que cintilam ao perceber o todo de cada fotografia. A racionalidade passa longe e não dá o ar de sua graça nas interpretações que ela faz da realidade que nos cerca. O imediatismo que salta aos olhos não é de identidade. Pelo contrário, cada imagem é um momento de redenção, uma confissão, um coração que sangra seus últimos instantes, implorando para que percebamos a quantidade de beleza que nos foge à percepção. Sobre o amadurecimento da arte, ela relata: "É como se eu quisesse fazer outras pessoas sentirem o que eu senti ao observar e fruir aquele momento. Eu tento compor as minhas fotografias de uma maneira muito ligada ao mundo lúdico do cinema, que é como eu vejo a realidade. Não canso de me imaginar dentro de tramas infindáveis e inimagináveis. Houve um tempo em que pensei que isso era coisa da fase infantil, mas as tramas não sumiram e estão cada vez mais bem elaboradas!"

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Tudo ali é nu, como deve ser. Ao despir a realidade da dinâmica social que nos rouba tempo de senti-la, é como se suas imagens nos fizessem encarar a nós mesmos. Em um instante onde tudo é cor, nada é som, o todo deixa de ser apenas totalidade concreta e torna disperso, etéreo, transcendente. Nu, como viemos à matéria e como partiremos dela. A simples e sincera crueza de permanecer estático em um momento que, de outra maneira, passaria líquido por nós.

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Larissa Bezerra faz lembrar que tudo passa... Às vezes passa o trem, às vezes a estação. Nós passamos. E o que vamos levar na mochila é tão somente o que traduzimos desse mundo. Fazer arte é tornar-se eterno e a vida é uma tela em branco. Qual será a sua contribuição?

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Para conhecer mais do trabalho dela, clique aqui!


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
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