Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

O Mais Maldito dos Poetas da MPB

O ano de 2014 marca 25 anos da morte de Raul Seixas e 16 desde que Tim Maia nos deixou. Mas, pelas palavras de Lenine, ainda resta o “mais marginalizado dos malditos” sobre o qual paira um eloquente silêncio. Seu falecimento completou 20 anos em maio deste ano, mas à exceção de uma tentativa de ressurreição feita por Zeca Baleiro, pouco se fala sobre Sérgio Sampaio.


Os 25 anos sem Raul Seixas e 16 na ausência de Tim Maia, dois dos chamados malditos da MPB, renderam homenagens: um Box de seis CDs e um DVD intitulado “25 Anos Sem o Maluco Beleza”, além de um longa-metragem que traz o nome do nosso Síndico. "O triste em tudo isso é isso tudo" (ouça aqui), pois o nome de Sérgio Sampaio ainda amarga o silêncio "e a sordidez do conteúdo desses dias maquinais".

Confesso, o conheci há pouco – infelizmente. Mas também confesso que cada um de seus versos, de uma forma ou de outra, falou comigo como se estivesse em uma roda de violão, onde cada um canta suas tripas em forma de canções emocionadas, onde as críticas gritam versos afiados, onde a piada evoca o palhaço em cada um e onde amores rimam com flores e com o raio que quiserem rimar, pois são lindos, plenos e inesgotáveis – mesmo quando se acabaram.

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Sérgio Sampaio, conhecido por seu sucesso pontual na década de 70 com “Eu quero é botar meu bloco na rua” – canção que lhe rendeu o Troféu Imprensa de 1972 -, jamais se limitou ao falso tropicalismo travestido de “caetanices” que lhe renderam meios para se manter boêmio no Rio de Janeiro da ditadura militar. Sua arte ia além da censura, apesar de calada por ela. Em suas composições há um requinte de insatisfação e a certeza de ser descabido:

Um aeroplano pousou em Marte

Mas eu só queria é ficar à parte

Sorrindo, distante, de fora, no escuro

Minha lucidez nem me trouxe o futuro

Queria estar perto do que não devo

E ver meu retrato em alto relevo

Exposto, sem rosto, em grandes galerias

Cortado em pedaços, servido em fatias”

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Havia ali um homem querendo ser ouvido, com algo entalado na garganta ansiosa por gritar. Tal como todos nós acreditamos ser, mas vivemos um tanto calados... Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, cidade natal de Roberto Carlos, a quem admirava e invejava o sucesso, compôs um compacto reverenciando e criticando o astro em que dizia em tom de blues:

Mesmo que as mesmas portas

Estejam fechadas

Eu pretendo entrar

Mesmo que minha mulher

Depois de me escutar

Ainda insista

Que você não vai gostar

Mesmo que o gerente

O assistente ou o inteligente

Anda não me queira acreditar

Vou fingir que tudo isso não é nada”

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Sérgio-Sampaio.jpg

Os paralelos não se esgotam. Sérgio Sampaio era um homem comum. Como muitos de nós, anônimo, inquieto, irritado, iludido, sonhador. Sabia que não podia cantar como Lennon por não ter nascido em Londres, mas desejava ser igualmente lembrado:

Hoje eu queria

(...)

Dizer do espanto e do espasmo

De alguém como eu, quando ouve música

Principalmente quando insiste nessas coisas

Que você faz muito bem em não compreender

Quem vai lembrar você?

Quem lembrará de mim?

O que será de nós?”

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A impermanência de suas conquistas, apesar de todos os esforços – e muito prejudicada pelo estilo de vida desregrado – fez do gênio algo decadente. Seus últimos anos foram marcados pelo ostracismo de uma aparente derrota.

Tudo o que se ganha nessa vida

É pra perder

Tem que acontecer, tem que ser assim

Nada permanece inalterado até o fim

Se ninguém tem culpa

Não se tem condenação

Se o que ficou do grande amor

É solidão

Se um vai perder

Outro vai ganhar”

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Sua morte tem a ironia da iminência da fama. Pouco antes de concluir o projeto de gravação de seu último disco, em 1994, os excessos cobraram seu preço e uma pancreatite levou Sérgio Sampaio para onde quer que sejam levados os malditos gênios da MPB.

O que resta é descobrir este poeta do comum como descobrimos a amizade com pessoas que acreditamos conhecer de alguma outra vida. E assim como ele mesmo disse, “um livro de poesia na gaveta não adianta nada, lugar de poesia é na calçada” (ouça aqui), eu digo que o lugar de Sérgio Sampaio é em nossos ouvidos.

[Nota do Autor: Os trechos das composições são ilustrativos e não necessariamente possuem função biográfica, de maneira que não respeitam sua cronologia]


Luiz O. Esteves

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