Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

O paradoxo da ingenuidade

Em quanto são puras nossas relações com os outros? As teorias psicanalíticas muito tem a dizer sobre isso que você acha que é amor...


“Não existe um só apaixonamento que não reproduza protótipos infantis.” (Freud)

Desde o momento do nascimento, o ser humano tem traços de sexualidade. Aqueles que já tiveram algum contato com psicologia podem afirmar: logo nos primeiros momentos de nossa vida, nos apaixonamos pelo seio materno. Onde está a candura desse ato? Freud, em seu ensaio “Metamorfose da Puberdade” trata o fato de a satisfação sexual estar vinculada à nutrição na primeira infância e que o conhecimento da representação global da mãe e a ciência de que aquele objeto que trazia satisfação sexual (nutrição) pertence a esse todo, causa a sensação de perda, que desencadeia o auto-erotismo.

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“Há bons motivos para que o fato de uma criança sugar o seio da mãe se torne paradigmático para toda relação de amor. O encontro do objeto é propriamente um reencontro.” (Freud)

Ora essa, se nosso erotismo é inato, a ingenuidade não existe! Tanto meninos, que vivem o Complexo de Édipo, quanto meninas, com seu Complexo de Castração, encontram a solução não incestuosa que é dirigir essa pulsão a outros indivíduos que não são seus pais. Talvez, então, essa ilusão de ingenuidade se dê por conta do choque que representa o reencontro com o objeto do primeiro desejo?

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Esse assunto tange o surgimento dos valores morais de pudor, a primeira criatura que fugiu do controle dos detentores do direito de pensar. Mas independente disso, não podemos discordar do fato: se nossa busca pelo objeto de desejo só pode ser cumprida se tivermos o objeto real (mãe/pai), e essa realização sendo proibida pelos valores morais, então todo e qualquer relacionamento de nossas vidas não é e nem será “completo”.

Assim, paradoxalmente a ingenuidade existe, pois o “objeto do reencontro” não é e nunca será o “objeto do desejo”. É um objeto novo e dele nada sabemos!

“Eu fiz o papel de um garotinho

quando arranja a primeira namorada

A ingenuidade acredita em tudo

porque do amor não entende nada

Eu que tantas vezes machuquei meu coração

e levei tantos anos pra curar

fui tornar a molhar meus olhos

coisa que eu luto há tanto tempo pra enxugar”

(Caetano Veloso)


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
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