Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento...

As cidades mortas

Distorcemos o conceito de "natural" para atender às mordomias que a sedentarização promoveu. Mas será que é esse o caminho certo a seguir?


A vida não está aqui nas cidades. Pavimentando todo o solo e exterminando todas as formas de vida selvagem que nos rodeava, o homem extinguiu junto com a construção das cidades o ciclo natural da vida. Nos tornamos vírus a multiplicar indefinidamente nossa genética sob os códigos de conduta moral que nos colocam acima de outros animais.

Aqui, quando um rato, uma pomba ou um inseto morrem, eles servirão de alimento para animais maiores, marginalizados de seu habitat natural. Esses animais maiores – cães, gatos, ou até mesmo os desgraçadamente invisíveis moradores de rua – depois que morrerem não servirão de alimento para animais maiores ainda. No máximo e com sorte, serão enterrados em lugares onde nada surgirá para além de seus sarcófagos de madeira estéril.

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Nessa trajetória ignorante e absurda que surgiu junto com a primeira muralha, o ser humano se isolou das invasões inimigas, mas também se alienou da vida. Ela está por todos os lados além dos muros, mas não existe mais ali dentro. E, dentro das cidades, surgiram os questionamentos filosóficos – sempre buscando a resposta para “qual o sentido da vida?”. Ora essa… O sentido da vida está lá fora! Ele consiste em viver o máximo possível, para ter tempo de se reproduzir e não deixar de existir – exatamente como todos os outros animais.

O ser humano deixou de ser um animal para se tornar um “ser”. Um “ser” que não entende como é possível "ser", sem deixar de ser aquilo que é esperado dele! Realmente, a vida não fará sentido enquanto vivermos dentro das nossas jaulinhas de pedra, com vértices e arestas quase que perfeitamente retas. Não é à toa que animais em cativeiro tendem a esmorecer lentamente até a morte… Eles entendem que a vida não faz sentido estando preso, a vida não faz sentido com limites morais preestabelecidos que os livrem de competir livremente e em equilíbrio com o todo.

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Outrora eu diria estar enlouquecendo, mas basta perceber que os animais vivem seus dias um a um; basta que por um instante reflitamos se é de uma prateleira de supermercado que deve vir nosso alimento; basta perceber o quanto tornamos invisível o que não nos agrada, que a falta de coerência nos desagrada.

Vivemos num mundo em que é normal dedetizar a casa e comprar animais fatiados em bandejas de isopor, enquanto destruimos tudo ao redor. É hora de mudar nosso rumo e a vida está lá fora… Mas não basta trilhar apenas os caminhos que ela oferece. Temos que oferecer a ela os caminhos que apenas nós sabemos trilhar!


Luiz O. Esteves

A pluralidade é singular, assim como ter certeza é duvidar. Constantemente insatisfeito, para dar movimento....
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