o som do silêncio

recanto de reflexões

Leonardo Onofre

Todo começo tem um fim.
Todo fim é um começo.

A ilha somos nós

Em um desses dias frios de outono me peguei novamente assistindo o filme A Ilha (The island). E tamanha foi a minha surpresa quando me deparo com temas e conceitos tão inerentes em nossa sociedade. Apesar do filme ter um viés genético esta análise tem como base a questão social.


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Para adentrar no âmbito social passemos pelo lado genético exposto no filme. Em um futuro distante (ou talvez não tão distante) as pessoas pagariam por uma apólice de seguro que prolongaria suas vidas em caso de doenças. Por exemplo, se o rim parasse de funcionar a pessoa teria outro rim compatível a sua espera, e com os avanços tecnológicos as cirurgias teriam riscos mínimos. E seria assim com todos os órgãos vitais. É claro que, esta apólice não estaria ao alcance de todos, os valores cobrados seriam altíssimos e somente as pessoas que pudessem e quisessem pagar a possuiriam.

Os proprietários das apólices nem ao menos questionam a origem destes órgãos e a sua única preocupação é com o prolongamento de suas vidas. E a forma que essas apólices são conservadas é aterrorizante. O proprietário fornece material genético e então um clone idêntico é cultivado em cativeiro. São pessoas como seus donos. Relacionam-se com os outros clones, trabalham, fazem atividade física, mas são mantidas enclausuradas.

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Mas é claro que como seres humanos eles desenvolvem características humanas, dentre elas a curiosidade. Os clones, ou agnatos como são chamados no filme, estabelecem relações entre si e com as pessoas que as controlam. Essa relação é baseada em controle e manipulação. Os agnatos são levados a crer que fora da cúpula onde vivem existe uma infecção que não permite a sobrevivência de qualquer tipo de vida. Existiria somente uma ilha imune a esta infecção onde todos vivem livres e felizes. Alguns poucos são contemplados com um passe para esta ilha, mediante a uma espécie de loteria eles são sorteados para ir viver no lugar de seus sonhos. Na verdade as suas esperanças não eram mais do que a necessidade dos seus proprietários em algum dos seus órgãos.

Temos então dois valores a serem analisados: das pessoas que utilizam o poder e o dinheiro para prolongar a vida e dos clones que são manipulados.

Em nossa sociedade temos diversos exemplos de como as pessoas nascem, crescem e morrem em função do dinheiro. Enquanto as pessoas acreditarem que as suas compras e aquisições são seus objetivos de vida, fica difícil estabelecer relações com a realidade. Nua e crua. Onde um sistema, o capitalismo, faz com que uma pessoa não sinta culpa ao possuir e usufruir muito mais do que precisa, enquanto outros morrem de fome todo dia. E qual a justificativa? Toda pessoa tem o que a força de seu trabalho pode proporcionar. Ora. Mas que merda é essa? É essa merda que engolimos todos os dias. Quer dizer que um fazendeiro que fez sua riqueza baseada no trabalho escravo no século XIX e posteriormente, quando do fim da abolição, caridosamente começou a contratar mão de obra a um salário “justo” fez por merecer. Esta foi a sua força de trabalho aplicada? É isso que esperam que pensemos. Toda essa riqueza acumulada vai sendo transferida de geração em geração, e com o poder do capital na mão, mais pessoas são exploradas. Para quem tem o poder, não há motivo algum para questionar se é justo ou não. E a lei está a favor do direito de propriedade.

E do outro lado da moeda temos os que são manipulados. Os clones. Somos nós, a maioria da população. Sim, analogicamente nos encontramos vivendo em uma sociedade como os clones do filme. Trabalhando e sonhando com uma vida tranquila e sossegada. Somos manipulados. Levados a crer que após uma vida longa e dura de trabalho estaria a nossa espera o paraíso, nossa ilha, de calmaria, abundância de alimentos, de felicidade e pessoas de bem. E assim vivemos sem questionar o sistema imposto. E tal sistema não é baseado em uma ou duas pessoas, existe sim um exército pronto a defender com unhas e dentes (armas e força bruta) o sistema. A liberdade é ilusória. Somos livres para obedecer e defender o sistema. Quem se desvia dessas obrigações é taxado de marginal. Marginalizado a beira dos homens de bens. Ora. Sinto-me bem em estar marginalizado a esta sociedade, visto que ser marginalizado significa estar separado do restante, ocupando as beiras ou as margens sem estar no centro das coisas.

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Para não me alongar excessivamente, fico aqui com a frase reflexiva da personagem Jordan: “A ilha somos nós”. Dita ao seu parceiro de fuga Lincoln quando se viram longe das correntes que os aprisionavam.

Trailer do filme


Leonardo Onofre

Todo começo tem um fim. Todo fim é um começo..
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