o som do silêncio

recanto de reflexões

Leonardo Onofre

Todo começo tem um fim.
Todo fim é um começo.

Eu tenho medo do cidadão de bem

Ele sempre sabe o que é melhor para a sociedade, ele propõe punição aos que não se enquadram a sua ideologia, ele é o representante da família tradicional. Tradicional para quem?


11.png Tirinnha publicada na página Armandinho

Sem dúvida nenhuma quando Hitler publicou seu best seller Mein Kampf, baseado na sua ideologia e também na de muitos habitantes da Europa, foi considerado um legítimo cidadão de bem em busca do resgate da família tradicional. E assim se fez, sua obra era leitura obrigatória a todos os seus seguidores, natos ou forçados, desta forma garantia-se que os valores defendidos por Hitler alcançassem o maior número de pessoas.

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Cidadão de bem também nos remete a uma famosa organização fundada logo após o fim da guerra civil norte americana, mais especificamente em 1865. Mundialmente conhecida como KKK ou Ku Klux Klam, defendiam seus “valores”, dos quais o mais famoso é o impedimento da integração social da população branca com os negros recém-libertados.

O surgimento de ideais que pretendem ser estendidos a todo população não é um fenômeno recente. Desde os primórdios da fundação da sociedade estereótipos foram traçados com o intuito que todos seguissem regras e valores pré-determinados. O diferente é o maior inimigo do cidadão de bem. A família tradicional se sente ameaçada com a ideia de um mundo livre, onde os cidadãos sigam seus desejos independentemente do que os outros pensam como deveria ser.

Recentemente um caso gerou muita polêmica no Brasil. A exibição de um longo e apaixonado beijo entre duas senhoras no horário nobre da Rede Globo revoltou os representantes da família tradicional. Chegando ao ponto do deputado João Campos – PSDB, emitir uma nota de repúdio em nome da “Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional” na qual ele diz que a novela “tem a clara intenção de afrontar os cristãos em suas convicções e princípios, querendo trazer, de forma impositiva, para quase toda a sociedade brasileira, o modismo denominado por eles de ‘outra forma de amar’, contrariando nossos costumes, usos e tradições".

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Foi este mesmo deputado o autor do projeto de decreto legislativo (PDC 234/11) que ficou conhecido como a “cura gay”. O projeto propunha sustar a aplicação do parágrafo único do Art. 3º e o Art. 4º, da Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 1/99 de 23 de Março de 1999, que estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da orientação sexual. Os artigos dizem o seguinte:

Art. 3° - os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados. Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.

Art. 4º - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica.”

Ou seja, o deputado João Campos defende a atuação de psicólogos de forma a influenciar os pacientes que sejam “diagnosticados” homossexuais e quem sabe reverter tal “patologia”. Deixando de lado a questão que o Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário) deveria ser laico, a intromissão de um deputado nos direitos dos cidadãos de forma a atender interesses pessoais é revoltante.

O cidadão de bem está sempre alerta. Está sempre querendo reparar problemas na sociedade. Ele está disposto a usar força necessária para tal. Ele bate em panela e em professor com a mesma intensidade. Ele enxerga na força policial a salvação da família tradicional. E no deputado/pastor a sustentação de seus interesses. E os políticos/pastores já ocupam alguns cargos no executivo também, quem sabe um dia chegam a presidência. O cidadão de bem bate palma pra terceirização. E para o confisco da previdência.

E para você que não se preocupou com os negros, porque não era negro; com os homossexuais, porque não era homossexual; com os terceirizados, porque não era terceirizado; uma adaptação do poema Intertexto de Bertold Brecht explica bem como pode ser o seu futuro:

Primeiro levaram os negros. Mas não me importei com isso. Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários. Mas não me importei com isso. Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis. Mas não me importei com isso. Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados. Mas como tenho meu emprego. Também não me importei.

Agora estão me levando. Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém. Ninguém se importa comigo.

*Este artigo foi inspirado na tirinha da página do Armandinho , ao qual estimo meus mais sinceros votos de respeito e admiração.


Leonardo Onofre

Todo começo tem um fim. Todo fim é um começo..
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