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Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.

Marcelo Vieira

"Pode ser artista apenas aquele que tem uma religião
própria, ou seja, uma intuição do infinito". (Friedrich Schlegel)

O Ser e o Nada de Glória Langeweile - capítulo I "A anunciação - (L'annunciazione)"

Notas de uma existência; de um outono; do abismo que nos seduz, abismo que somos Nós; notas sobre ser a Angústia; Eu sou a Angústia.


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Glória pensava em seu necrológio todas as manhãs com certa infantilidade de menina travessa a mostrar a língua em desafio para quem lhe sorria, ela escrevia e o reescrevia mentalmente. “Glória Langeweile, Morreu como nasceu, imersa no caos fluvial” ou “Glória Langeweile, Existente e não-existente com ternura”. Estranhamente isso lhe acalmava. “A vida não é um mistério, o meu medo é essa esperança torpe da caixa de Pandora fosca e terrível, que me foi dada sem meu consentimento”. “Esse viés de dias melhores me faz nadar gulosamente na placenta de Gaya ferida e quase morta por seus filhos, já me acostumei com minha caverna de punhais”. Caverna de punhais, ela sempre repetia essa frase com docilidade helênica. Em seu pequeno caderno de pensamentos obscuros (assim que ela o denominava), estava escrito uma trecho do poema Quando o afago vira cuspe de enxofre!, que lhe agradava, por causa de seu conteúdo fatalista e onírico: “Libertei-me de MAYA, mas a alma adoece soterrada/ na gruta dos punhais/ e ali a dor é como Hidra de lerna”.

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Havia três dias ela estava decidida “hoje vai haver confusão”. Essa frase não queria dizer nada além disso, confusão, pois a harmonia lhe tinha sido imposta, e ela queria algo somente seu. "Hoje eu sou confusão!" Não queria repensar, ela sempre fora uma mulher calma e decente, como diziam as velhas carolas fuxiqueiras da vizinhança. Mas, sua decisão nada tinha a ver com moral, alias Glória sempre fora às avessas a conceitos ditos dicotomicamente civilizatórios. Quando tinha onze anos de idade, Glória estava em seu quintal a brincar distraidamente com bonecas e quitutes, estava por assim dizer, a descer à toca do coelho branco. E seu transe foi quebrado por um gralhar angustiado de um não-sei-que-de-fome animal.

Lirio Leonardo da Vinci.jpg

Olhou para copa de uma tília a qual ela chamava de “senhora envergada”, e avistou um ninho ou um emaranhado de folhas secas e galhos. Tudo e nada, quando se é criança não há nomes, somente existência. No orgulho de seu ventre recheado de pão e framboesa, Glória começou a escalar a árvore para libertar o pássaro da tirania do acaso Comer-Não-Comer e lhe conferir sua bondade encantatória com bolo de laranja que sua mãe confeccionara de manhã. Subiu sem maiores dificuldades, viu com pouca surpresa, já que não era de sua natureza demonstrar sentimentos nem mesmo aos animais, ela achava isso, nos seus onze anos de idade algo vulgar e adulto demais. Observou que não era um, mas quatro miúdos rosados que piavam de fome, na árvore. “Não vou salvar todos, pro diabo sua fome” pensou com certo orgulho de si. Olhou sem amor por alguns instantes aquela massa amarelada e rosa de que eram feitos os pequenos pássaros. Pegou o menor, lhe fez festa no bico, por pouco quase sorriu. Colocou-o no bolso da camisa, pois estava com a camisa de flanela de seu pai; adorava quando as visitas lhe dirigiam palavras de comparação: ”Está cada vez mais parecida com seu pai”, “É a cara do pai”, odiava que fizessem referência à mãe, não detestava a mãe, só que o mundo das mulheres é belo demais, até em sua tristeza o belo existe. O que queria era a dureza, a dureza de ferro de seu pai e suas mentiras de homem comum, sua tez de bronze e seu respirar silencioso. Desceu da árvore sem o menor empecilho com vagar, ao tocar o pé no chão sentiu algo morno em seu peito que escorria até seu ventre. A existência é grotesca! Deslizou a mão até o bolso e o que existia não era mais uma criatura, um ser-em-si, mas uma gosma repulsiva de vísceras e sangue gorduroso. Glória apenas olhou aquilo que não existia mais e atirando-o no chão o reduziu a uma mancha no chão pedregoso, lhe conferindo varias pisadas. Sem cólera, com tédio. “Não existe mais!” “Não existe”. “Que hei de fazer, o não existir é lodo”.

Glória sentou perto de suas bonecas e afundou uma vez mais na toca do coelho entre os dentes cariados de alegria de Alice e o espelho antropofágico de sonhos. "Hoje vai haver confusão", fora anunciado 24 anos antes dela própria tomar consciência dessa decisão. A gênese da Anunciação era ela mesma.


Marcelo Vieira

"Pode ser artista apenas aquele que tem uma religião própria, ou seja, uma intuição do infinito". (Friedrich Schlegel).
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