o Último cliente...

Todo pensamento deveria lembrar a ruína de um sorriso.

Marcelo Vieira

"Pode ser artista apenas aquele que tem uma religião
própria, ou seja, uma intuição do infinito". (Friedrich Schlegel)

Um sorriso mais bonito que o meu...

__ Ísis era o nome dela... o que houve Cássio?

__ Ela encontrou alguém com o sorriso mais bonito que o meu.


Tanto na melancolia como no amor as cores mais sublimes do mundo se condensam em desespero. Não falo aqui de modo nenhum em sentido figurado, como se costuma dizer. Aquelas cores que nos perpassam de maneira despercebida quando estamos ante o mundo, indiferentes, alegres, calmos, etc., ganham uma terrível configuração que nos sufoca até o limiar de nossas forças e sucumbimos a uma exasperação mortificante implorando aos céus nossa aniquilação imediata; e isto na melancolia... no amor...

frase.artistas.jpg

Nada é mais terrível do que o amarelo e o vermelho que circunscrevem na memória uma roda-gigante ao cair da noite, perdida no tempo, onde o amor ganhou, perdeu e viveu algo que não é mais. Agora é só memória! No livro Palmeiras Selvagens, Faulkner nas últimas linhas põe na boca e no sangue de sua personagem a seguinte reflexão: “Entre a dor e o nada, escolho a dor”. Para quem leu este romance, sabe que a dor aqui referida nesta frase é a memória, ela (a personagem) prefere manter aquilo que foi... perde-lo para a morte (o nada), é também uma escolha. Se não fossem as cores tudo seria perdoado!

c2.artistas.jpg

Cássio no filme Ganho (2016) de César Malnova, nos mostra as dimensões nada inocentes das cores que se fazem memória (no seu caso de seu irmão Carlos), elas podem ser asfixiantes ou ternas, possuir tudo ou transformarem tudo.

c.artistas.jpg

As dimensões estéticas do curta-metragem se sintetizam na palavra-título Ganho, que podemos desdobra-la em duas outras palavras: melancolia e amor. Música apocalíptica que anuncia as primeiras imagens por si só desvela o mundo, belo e fugaz em suas cores verde e azul, opressor e maquiavélico nos cinza e marfim. Onde Cássio se encontra? No mundo? Na sua mente? Em lembranças límpidas ou destorcidas? Em todos esses lugares e sobretudo no desejo da psicóloga Coraline. Desejo que não se traduz em palavras, e que só alcança vislumbre no martírio, que de tão puro apaga tudo!

co.artistas.jpg

Personagem chave, que conduz as nossas cores para as suas palavras, palavras de Cássio sobre si, por conseguinte sobre a imagem de seu irmão, pois esta lhe pertence por direito como todo o filme nos pertence quando o assistimos e ali criamos outra cor: memória! Se esta descrição soa repetitiva, pense caro leitor, o que somos além de nossas memórias? Projetamo-nos no mundo para logo em seguida sermos mais uma parte-memória de nossa história, esta que é constituída de todos que encontramos, mas principalmente melancolia e amor; as alegrias não são cores, esquecemos tão rapidamente de momentos alegres, mas das cores da melancolia e do amor, estas nos fazem respirar com dificuldade. E não seria isso um Ganho? Coraline mais do que Cássio e Carlos mais do que este, acreditam que sim.

co2.artistas.jpg

A profusão de cores acentuadas na fotografia suscita o desejo lancinante de Cássio para tornar o múltiplo em uno... as cores... ah! as cores!

De que cor é o sol? Por vezes ele invade o primeiro plano, mas não sentimos calor. Coraline insiste em desviar o olhar que deseja pousar em Cássio, empreitada estéril, pois nada há além dele e suas cores; seria Cássio o sol? Parafraseando Mersault: “matei por causa do sol”...

Esta frase de O estrangeiro é a minha chave para o filme! Ou melhor, é a cor ofuscante do Ganho de Coraline.

co4.artistas.jpg


Marcelo Vieira

"Pode ser artista apenas aquele que tem uma religião própria, ou seja, uma intuição do infinito". (Friedrich Schlegel).
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Marcelo Vieira