obversatório

Para versar sobre o que se vê

Rodrigo Sánchez

Ex-voador, hoje estudante de Letras e freela da redação

O Sol é para todos, de Harper Lee

Breves comentários sobre uma obra que segue entre as mais importantes da literatura norte-americana


harper-lee-1.jpg Harper Lee posa com a atriz que interpretou Scout na adaptação cinematográfica de O Sol é para todos, em 1962. Foto: REX/Shutterstock.

Alabama, sul dos Estados Unidos, década de 1930. É nesse cenário de forte segregação racial e grave recessão econômica que a trama de To Kill a Mockingbird, de Harper Lee, ganha vida. Publicada em 1960 e batizada no Brasil de O Sol é para todos, a obra, que recentemente ganhou nova tradução de Beatriz Horta pela editora José Olympio, gira em torno das experiências de infância e do amadurecimento da pequena Jean Louise Finch, ou simplesmente Scout, narradora da história.

Criada pelo pai, o advogado Atticus Finch, Scout é uma menina forte, idealista, cheia de opinião e com um enorme senso de justiça. É a partir do ponto de vista dela que conhecemos a fictícia Maycomb, cidadezinha pacata e decadente que serve de pano de fundo para as aventuras tipicamente infantis de Jean Louise e de dois dos seus companheiros mais próximos, quase inseparáveis: Jem, seu irmão, e Dill, amigo que costuma passar os verões na casa da tia Rachel, vizinha da família Finch.

Basicamente, O Sol é para todos é uma história sobre a capacidade de se colocar no lugar do outro e descobrir, assim, o que há de humano em cada um. Para isso, Harper Lee reproduziu em seu livro uma série de situações que de alguma maneira alimentaram o debate sobre questões importantes para a sociedade norte-americana daquela época, especialmente – mas não só – a questão racial. Em suas aventuras, Scout, Jem e Dill acabam por questionar, ainda que sob a ótica da infância, as hipocrisias de uma sociedade excessivamente moralista, injusta e preconceituosa que em muitos casos é incapaz de perceber a humanidade do outro.

Boo Radley, o vizinho “fantasma” tido como louco, a senhora Dubose, uma idosa rabugenta e reclamona, e Tom Robinson, o homem negro silenciado e invisibilizado sob a falsa acusação de ter estuprado uma jovem branca, são os personagens mais emblemáticos desse processo de amadurecimento das três crianças. De alguma forma, todos guardam um ensinamento sobre a gravidade de se levar adiante preconceitos e estigmas que, apesar naturalizados, devem ser questionados.

O caso Tom Robinson e a questão racial

A abordagem de Harper Lee sobre a questão racial divide opiniões. Na história, Atticus, pai de Scout, é o advogado de defesa de Tom Robinson, acusado de estupro. O que choca a cidadezinha de Maycomb mais que a suposta violação da jovem Mayella Ewell, porém, é o envolvimento de Atticus, homem branco, inteligente e de conduta irretocável, na defesa de Tom, homem negro, pobre e estigmatizado que é automaticamente condenado por aquela sociedade.

O uso de termos pejorativos como nigger (traduzido para o português como “preto”) e a representação nada tímida da crueldade com que os moradores de Maycomb condenam o suposto estuprador apenas por ser negro, além do fato de a autora ser uma mulher branca que de certa forma condiciona a autonomia de Tom Robinson à “boa ação” de Atticus, são questões que até hoje inflamam o debate sobre se O Sol é para todos deve ou não ser lido nas escolas norte-americanas.

A discussão é importante, mas não pode desconsiderar o exercício que o leitor deve fazer com relação ao contexto da história e da publicação da obra, projetando o que foi o impacto dela quase seis décadas atrás. Harper Lee foi corajosa.

Um desfecho que deixa uma dúvida ética

É através da rejeição da sociedade à conduta de Atticus que Scout, Jem e Dill percebem as injustiças da segregação racial e, a partir daí, ligam os pontos que levam à conclusão de como a educação e os bons costumes daquela gente branca extremamente religiosa não são garantia de bom caráter. Ao mesmo tempo, é curioso e reconfortante perceber como as crianças vão descobrindo, pouco a pouco, que por trás de determinados personagens há uma história que, talvez adormecida pela dureza de um cotidiano difícil, retoma o que há de humano em cada um.

O desfecho da história tem duas reviravoltas importantes. A primeira, triste, convida a refletir sobre a necessidade do debate sobre a questão racial. A segunda, desta vez feliz, deixa uma interpretação dúbia: a justiça parece ter sido feita, mas há uma questão ética que envolve a confirmação de Boo Radley, o vizinho “fantasma”, como um homem de bom coração. Em suma – e sem spoilers –, há quem acredite que a justiça em O sol é para todos tenha sido feita só pela metade.

Comentários sobre a tradução de Beatriz Horta

Toda tradução é uma recriação. Se por um lado é preciso compreender que não existe tradução absolutamente literal e que esse é um processo que envolve perdas, por outro é necessário reconhecer, sempre que possível, os ganhos que o bom trabalho de um tradutor traz. Em O Sol é para todos, Beatriz Horta parece manter com competência a fluidez e a leveza que Harper Lee deu a To Kill a Mockingbird.

Comparado à tradução anterior, de 1981, o texto de Beatriz é mais próximo da realidade atual da língua portuguesa, tornando a leitura mais convidativa e agradável. Também é possível notar que ela praticamente desfaz as marcas que no original caracterizam a variação linguística dos personagens mais humildes (como Calpúrnia e Tom Robinson), talvez por ter a sensibilidade de que essa transposição para o português, além de questionável, reforçaria estereótipos desnecessários.

É, enfim, um trabalho de tradução que faz jus à excelente criação de Harper Lee, até hoje importante e necessária. Vale, e muito, a leitura.


Rodrigo Sánchez

Ex-voador, hoje estudante de Letras e freela da redação.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// //Rodrigo Sánchez