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Poetry slam e "OCD", de Neil Hilborn

Sobre competições poéticas e um artista com TOC.

Poetry slam

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A ideia é simples: em uma open slam, qualquer pessoa pode subir ao pouco e declamar seu poema; em uma invitational slam, só declama quem foi convidado. Espera-se originalidade, ritmo, intensidade e improvisação. Nada de leitura, de preferência. Tudo dito da forma mais sincera e imprevisível possível. 

No final de todas as apresentações, vota-se nas melhores. Em alguns casos, há competições regionais que qualificam para competições nacionais; em outros, um grupo de escritores, estudantes ou seres aleatórios competem com outro grupo por certo prêmio. E assim, até hoje, as poetry slams se mantêm vivas.

O caráter imprevisível de uma poetry slam - declama quem quer, escuta quem quer - faz com que essas competições sejam marcadas por uma variedade nem sempre bem-vinda. Aspectos extremamente diversos de culturas muito distintas se encontram nessas competições, que parecem verdadeiros shows poéticos. Tudo começou em 1984 em Chicago, quando o poeta Marc Smith, ou Slam Papi, propôs que poetas "encenassem" seus poemas em vez de apenas fazerem uma leitura. Para Smith, a palavra "poesia" repelia as pessoas por culpa das escolas; a slam "devolve a poesia ao povo. Precisamos que as pessoas encarnem seus poemas. É assim que comunicamos nossos valores, nossos corações, as coisas que aprendemos e as que nos fazem ser quem somos".

Depois do ponta pé inicial, a poetry slam se propagou por diversos países. Hoje, um dos maiores eventos dessa forma de competição é o National Poetry Slam (NPS), que acontece desde 1990 e envolve principalmente Estados Unidos e Canadá em um grande encontro de diversos grupos de poetas.

Neil Hilborn

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Um dos fenômenos desvendados ao grande público em outra competição, a Rustbelt Regional Poetry Slam (que aconteceu em Madison, EUA, no meio de junho de 2013), foi o poeta Neil Hilborn. E não apenas porque declamou versos belos ou bem-escritos, mas porque o poema apresentado se baseia no fato de o artista ter transtorno obsessivo compulsivo (o famigerado TOC). Seu poema de amor comove e chama a atenção porque aborda o TOC enquanto tema, mas também porque representa o transtorno enquanto forma: ao falar sobre uma relação marcada pela doença, e sobre o fim dessa relação e a esperança de retomá-la, Hilborn se deixa levar pelas repetições que tanto caracterizam o portador de TOC, moldando, dessa forma, os versos, o ritmo e a recepção do poema. 

"OCD" foi veiculado no site Upworthy um pouco depois de ser gravado. No dia 13 de agosto, Hilborn criou um perfil no Facebook e, neste momento, tem quase 50 mil curtidas e mais de 4 milhões de visualizações no You Tube. O próprio poeta declarou seu espanto diante da receptividade do público. De fato, é interessante - e, a meu ver, positivo - que esse formato de poesia - tão simples, porém visceral e performático -  tenha agradado a um público extenso em tão pouco tempo. A junção da poesia, forma literária antiquíssima, com meios contemporâneos de veiculação deu muito certo para Hilborn.

Abaixo, a apresentação de Hilborn e uma tradução do poema recitado. (Uma tradução despretenciosa, sem o objetivo de ser absolutamente impecável - apenas um exercício poético, uma brincadeira com palavras e uma gentileza com o leitor).

Quando a vi pela primeira vez…

Tudo ficou em silêncio na minha mente.

Todos os tiques, todas as imagens que se renovam o tempo todo simplesmente desapareceram.

Quando você tem transtorno obsessivo compulsivo, você não tem momentos de silêncio.

Até mesmo na cama, penso:

Tranquei as portas? Sim.

Lavei as mãos? Sim.

Tranquei as portas? Sim.

Lavei as mãos? Sim.

Mas quando a vi, só consegui pensar na curva de seus lábios,

Ou no cílio em sua bochecha,

no cílio em sua bochecha,

no cílio em sua bochecha.

Tive certeza que tinha de falar com ela.

Pedi que saísse comigo seis vezes em trinta segundos.

Ela disse que sim depois da terceira, mas não achei que me saí bem em nenhuma das vezes, então tive de continuar.

No nosso primeiro encontro, passei mais tempo organizando a minha comida de acordo com as cores do que comendo, ou conversado com ela, porra…

Mas ela amou.

Amou porque eu tinha de beijá-la 16 vezes quando me despedia, ou 24 vezes, se fosse quarta-feira.

Amou porque eu demorava anos pra ir pra casa porque havia muitas rachaduras na calçada.

Quando fomos morar juntos, ela disse que se sentia segura porque ninguém jamais roubaria a nossa casa, eu definitivamente tinha trancado a porta 18 vezes.

Eu sempre ficava observando sua boca enquanto ela falava,

enquanto ela falava,

enquanto ela falava,

enquanto ela falava,

enquanto ela falava.

Quando dizia que me amava, sua boca tencionava nos cantos.

À noite, ela ficava na cama e me via apagar todas as luzes, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar, e acender, e apagar.

Ela fechava os olhos e imaginava que os dias e as noites estavam passando na frente dela.

Em algumas manhãs, eu começava a me despedir com beijos, mas ela simplesmente ia embora porque eu a atrasava pro trabalho.

Quando eu parava na frente de uma rachadura na calçada, ela continuava andando…

Quando dizia que me amava, sua boca ficava em uma linha reta.

Disse que eu estava lhe tomando muito tempo.

Na semana passada, começou a dormir na casa da mãe.

Disse que não devia ter me deixado ficar tão próximo dela, que a coisa toda foi um erro, mas…

Como pode ser um erro se não preciso lavar as mãos depois de tocá-la?

O amor não é um erro, e estou morrendo porque ela consegue fugir disso, e eu simplesmente não consigo.

Não consigo… não consigo sair e encontrar outra pessoa porque sempre penso nela.

Geralmente, quando fico obcecado pelas coisas, vejo germes penetrando na minha pele.

Eu me vejo esmigalhado por uma sucessão infinita de carros…

E ela foi a primeira coisa bonita na qual me travei.

Quero acordar todas as manhãs pensando na forma como ela segura o volante,

Como abre o chuveiro como se fosse um cofre.

Como apaga velas,

apaga velas,

apaga velas,

apaga velas,

apaga velas,

apaga…

Agora, só consigo pensar em quem mais a está beijando.

Não consigo respirar, porque ele só a beija uma vez – ele não se importa se é perfeito!

Quero tanto tê-la de volta…

Que deixo a porta destrancada.

Deixo as luzes acesas.

 

 

Gostou de saber que poesia ainda faz barulho? Na página de Hilborn há vários outros vídeos excelentes de diversos slam poets.


camila mello

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