oços de borboleta

Música e outras inânias

Lucas Filipe

Estudante de música e compositor.

Notas sobre Rogério Skylab

Algumas palavras sobre esse interessante compositor, que esconde, na aparente simplicidade de suas canções, uma interessante visão sobre o mundo.

I

Jorge Mautner afirma que para se entender a sua obra é preciso conhecê-la integralmente. Eu diria o mesmo sobre Rogério Skylab. Não é nada fácil entender uma obra tão extensa apenas através de uma única canção ou um único disco e tampouco será fácil abarcar toda essa obra num pequeno texto.

A primeira vez que ouvi um disco de Rogério Skylab, o Skylab I, eu detestei. Era uma mistura excessivamente artificial de temas sombrios — assassinato, urubu, cemitério, vampiro — guitarras típicas de heavy metal, um piano sentimental, toques de samba, alguns sons orquestrais que mais pareciam MIDI. E um clima de terror canastrão — moto-serra, carne humana, no cemitério. A mistura do sentimentalismo e exagero impresso pelo produtor do disco com o inusitado das letras e a maneira afetada de cantar culmina inevitavelmente no humor, por mais que Skylab rejeite esse rótulo — e com razão, nos discos posteriores se verá que não há nada de humor em seu trabalho. Mas já nesse disco algumas músicas me chamaram a atenção pelas letras, apesar do baixo nível do arranjo, por exemplo: Derrame e Naquela noite. A primeira é absolutamente inspirada no corriqueiro, não tem nada da atmosfera sombria predominante no disco. A segunda tem uma característica presente com recorrência nas obras posteriores e na própria série dos Skylabs como um todo: a repetição, a lista, a enumeração. O personagem, ao longo da canção, enumera as coisas que vê enquanto bate na mulher e é pela lista que vemos seu estado de espírito, que, assim como a melodia, é calmo. A beleza que há nessa canção está na representação da subjetividade do personagem ao invés da representação do fato em si. E há a conhecida Matador de passarinho, também uma lista.

II

Não é à toa que no Skylab II — ao vivo e musicalmente bem melhor que o primeiro — Naquela noite é seguida por Convento das carmelitas. Nesta, a ideia de repetição e lista é a mais radical possível: como nas músicas infantis que ensinam a contar, ela consiste numa frase repetida em que, a cada repetição, se substitui apenas o número: primeira, segunda, terceira, quarta, quinta, sexta. Como os dias, repetitivos e monótonos. O serial killer em sua repetição constate e obsessiva é exatamente igual ao trabalhador comum que repete infinitamente um cotidiano. Na música Mêtro há a enumeração das estações. No Skylab IV as listas aparecem em Eu quero saber quem matou, Lava as mãos, no Skylab VI em Hino Nacional do Skylab e em diversas outras canções, isso para ficar apenas nas listas mais estritas, por que em várias aparece a ideia de lista de forma menos direta.

Enfim, a ideia de repetição e lista está presente não só na estrutura das canções, mas na própria obra de Rogério Skylab como um todo: do Skylab I ao X, há temas, palavras e procedimentos que se repetem a cada disco. Essa repetição é absolutamente consciente e proposital, o próprio Rogério dirá num texto e citará João Gilberto como a referência de quem, sempre se repetindo, nunca deixa de ser original: “Não tem mistério: é a fidelidade à sua forma, a seu tempo.” Mas em Skylab essa repetição parece significar a própria maneira encontrada para representar o mundo.

III

O Skylab III é o verdadeiro ponto de partida da série. Nele, abandonado por completo o clima de terror do primeiro disco, aparece em seu lugar a experimentação cuidadosa, a colagem, as citações — Stockhausen, Artaud, Damião Experiença, Arrigo Barnabé. Porém, um elemento do terror permanece: a morte e, mais especificamente, a figura do cadáver, que aparece em Inferno e é o próprio Rogério Skylab, numa das estrofes que melhor definem sua obra: “Voltei, não como Hamlet, clamando por justiça/ Não como campanha publicitária/ Voltei como imagem, simulacro/ Não tenho sangue nem osso/ Disfarço no meio de tanta gente/ Falsifiquei a identidade, entrei num banco, virei cantor/ Me chamo Rogério Skylab/ É tudo falso, é tudo falso/ Vocês nem desconfiam:/ Eu sou um cadáver, eu sou um cadáver, eu sou um cadáver!”. O cadáver é o ser mais contemporâneo possível. É o máximo da alienação — mais do que o corpo e o pensamento, é também o sentimento alienado. É, enfim, o processo de reificação que atinge seu limite, o ser humano totalmente transformado em coisa. Dez anos depois do lançamento do disco, essa ideia apenas se tornou mais atual: a sensibilidade desenvolvida pelo contato com a internet é exatamente a do cadáver de Skylab, a do simulacro, do ser artificial. E essa ideia vem se desenvolvendo em sua obra através da reflexão sobre o travesti. O cadáver e o travesti compartilham o mesmo fundamento: o de ser algo que não se é, de existirem apenas como imagem. E a obra de Rogério tende a legitimar essa existência de simulacro como plenamente genuína.

IV

Com isso, voltemos às listas: se o “eu” é um simulacro, sua maneira de interpretar o mundo não será outra senão repeti-lo, refleti-lo como um espelho. O inferno então é uma lista do que não tem; o pior lugar é aquele em que não existe nada que possa ser refletido. Dessa maneira, podemos inferir que as listas são uma expressão da consciência de que é tudo simulacro, de que é mais interessante apenas elencar os elementos de certa categoria do que tentar interpretá-los.

Como nada é unívoco em Rogério Tolomei, no Skylab IV a música paradigmática é Puta, na qual a falsidade das coisas aparece na figura da puta que está em toda a sociedade: na vendedora, na própria cidade, na psicanalista — a puta é aquela que cobra um preço para representar o papel da amante, para oferecer uma fantasia que toma o lugar da realidade, um prazer artificial, enfim, um simulacro.

V

Este texto deixou em branco grande parte da discografia de Rogério Skylab e mesmo na parte tratada não foi capaz de abarcar os vários aspectos de sua música. Para finalizá-lo resta mencionar sua obra não musical: além de compositor, Skylab tem um livro de poesia publicado e algumas dezenas de ensaios, artigos e contos em seu blog, além do programa de entrevistas Matador de Passarinho. O aspecto em comum que noto em todas essas áreas de atuação é ainda uma reflexão (que vem se revelando cada vez mais, por exemplo, com o surgimento de Rogéria Skylab) sobre o simulacro. O melhor exemplo para essa visão está num conto postado recentemente no blog (godardcity.blogspot.com) intitulado O Espelho. Nele é contada de forma aparentemente autobiográfica a passagem de vários inquilinos pelo apartamento que a mãe do personagem alugava e no qual ambos moravam. Ao final do conto ele fala sobre uma moradora que era travesti: quando percebeu se deu conta disso tudo pareceu falso, mas a conclusão final é a de que esse travesti é absolutamente genuíno. É a própria legitimação do simulacro.


Lucas Filipe

Estudante de música e compositor..
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