oços de borboleta

Música e outras inânias

Lucas Filipe

Estudante de música e compositor.

Dos cinco sentidos na arte

Na tradição ocidental, artes como a música, a pintura e a literatura se desenvolveram mais do que outras como a gastronomia e a perfumaria. Eis uma hipótese sobre o motivo para tal.


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"Todo o material da arte repousa sobre uma abstração: a escultura, p.ex., desdenha o movimento e a cor; a pintura desdenha a terceira dimensão e o movimento portanto; a música desdenha tudo quanto não seja o som; a poesia baseia-se na palavra, que é a abstração suprema, e por essência, porque não conserva nada do mundo exterior, porque o som — acessório da palavra — tem valor senão associado — por impercebida que seja a associação.

A arte, portanto, tendo sempre por base uma abstração da realidade, tenta reaver a realidade idealizando. Na proporção da abstração do seu material está a proporção em que é preciso idealizar. E a arte em que mais é preciso idealizar é a maior das artes." (Fernando Pessoa. Páginas de estética e de teoria e crítica literárias)

Coisa inegável é que a arte está relacionada aos sentidos, de maneira direta, fazendo uso deles, ou indireta, fazendo referência a eles. É curioso, portanto, que as artes que mais tenham se desenvolvido como linguagem sejam aquelas que usam a visão ou a audição, enquanto aquelas do tato, paladar e olfato não tenham alcançado o mesmo desenvolvimento. Um dos motivos para isso talvez seja o fato de a visão ser o sentido mais imediato para o ser humano. Mas isso não explicaria a audição, que na hierarquia dos sentidos é o terceiro.

O paladar e o olfato são sentidos nos quais predomina a noção de agradável/desagradável — independente de julgamentos morais ou estéticos, nós logo sentimos que um sabor ou um cheiro é agradável ou não. O tato é mais complexo, mas é possível dizer que ele é intrinsecamente sensível à dor e ao prazer e a várias outras sensações (como cócegas). Já à visão não há nada que seja agradável à priori, sem a necessidade de interpretação, não existe uma visão que traga um prazer semelhante ao de um sabor, os prazeres causados pela visão precisam necessariamente passar pela interpretação, pelo julgamento. Tampouco a audição — não existe um som que acaricie o ouvido como um cheiro agrada ao nariz, o som é agradável apenas à medida em que é reconhecido e apresenta um significado (que pode ser sua própria estrutura, como na música).

É então que recorro à citação de Pessoa: não terão essas artes do ouvido e da visão se desenvolvido como linguagem mais do que as do tato, olfato e paladar, pelo fato de usarem sentidos que tem menos valor por si só, isto é, que precisam passar pelo intelecto?

A gastronomia, por exemplo, não teria se desenvolvido muito mais se ao invés de sentirmos prazer pelo gosto da comida, sentíssemos por perceber o que o cozinheiro quis dizer através dela? A arte dos perfumes não teria uma linguagem mais vasta se os cheiros ruins fossem considerados como tal apenas de maneira moral ao invés da maneira fisiológica como os percebemos? É verdade que essas duas artes guardam sim algo de linguagem, mas é de forma muito pouco desenvolvida em comparação à pintura, escultura, literatura, cinema, música e outras artes.

O poeta Glauco Mattoso, no entanto, me desmente:

Soneto dos eflúvios

De todos os sentidos, é o olfato

sutil por excelência: de mistura

estão vários odores, e a figura

do cheiro bom ou mau é caso abstrato.

Perfume ou fedentina? Desempato

apenas pelo senso, que perdura,

do nojo sugerido, o qual censura

um hálito, a carniça, o lixo, o flato.

Quem disse que uma flor exala o aroma

mais "doce" ou que uma fruta a "azul" recende?

Por que o chulé "tresanda" quando assoma?

Tão só de opinião tudo depende:

se fungo não é coisa que se coma,

como é que há quem meu queijo recomende?


Lucas Filipe

Estudante de música e compositor..
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