ode de sede - por ora, a escrita.

"poeta é quem vê o que não é de dizer e ainda assim, diz."

Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável.

Cadeiras azuis, estranhamento e desordem

A noite em que uma estudante de jornalismo se deparou com a impactante realidade dos hospitais públicos brasileiros.


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“Mude seus pensamentos e você mudará seu mundo”

Foi a frase que encontrei ao entrar naquele lugar quente, que era adornado apenas com tal pensamento e um ventilador branco quebrado.

Observei tudo a minha volta e com os cotovelos sobre um balcão de cor negra, disse ao rapaz estrábico que recepcionava as pessoas daquele lugar a minha intenção: apenas sentar e olhar o movimento. Nada que fosse invasivo ou desconfortável para os indivíduos que ali estavam, pois tudo não passava de um simples e desnudo trabalho da faculdade. Ele me olhava, mas não me via. O rapaz não me via e seus olhos cambaleavam como num movimento de ondas livres, me deixando um pouco desconfortável. Pediu, tímido e atencioso que eu me dirigisse a secretária ao lado e explicasse a minha situação. Logo achei estranho e desnecessário, mas sem meias indagações, acatei a educada solicitação.

A secretária de cabelos loiros, curtos e visivelmente tingidos me olhou com simpatia. Hipnotizada por seus brincos grandes e coloridos, eu repetia a mesma sentença que havia dito minutos antes ao rapaz de olhar torto, mas agora, com o olhar fascinado e estagnado em suas orelhas: “Eu gostaria de passar a noite aqui hoje. Sou estudante de jornalismo e pretendo apenas observar como é um plantão de pronto socorro publico” e ela, atenciosamente, pediu que eu aguardasse mais alguns instantes para que ela fizesse contato com algum superior afim de verificar se era legitimo o meu pedido. Confessa amante de qualquer tipo de objeto que pudesse me fazer repousar, sentei-me sem demora.

As cadeiras eram azuis e desordenadas. Todas posicionadas estranhamente na sala de espera que era quente, úmida e fétida. Cruzei as pernas e ao lançar o olhar para meu lado direito, notei um lençol com manchas de sangue no chão (juntamente com alguns algodões, também ensangüentados). Aquela visão de nada me agradou, porém, era algo tão surreal que me peguei com as vistas pregadas naquela imundice. Logo me desliguei daquele fascínio escatológico e lembrei que não gosto de sangue - hospitais são um ambiente muito temido por mim. Após isso, foi impossível levar o olhar ao lado novamente. Prostrada, eu não conseguia pensar em nada além do que poderia estar acontecendo por traz daqueles dois balcões. Imaginava mil cenas e supunha mil causos. Mas por enquanto, eu estava fitando os movimentos exaustivos das pessoas que, ansiosas e visivelmente precisadas, aguardavam o atendimento.

Demorou um pouco e no momento em que um senhor careca e sorridente sentou-se ao meu lado, a enfermeira chefe do lugar me chamou para dizer que não seria possível a minha “permanência no hospital.” Repliquei educada, dizendo que era apenas um trabalho para a PUC e que nada ali seria tratado como noticia a fim de expor as pessoas ali presentes. Ela logo me confundiu com a famigerada imprensa, dizendo que “a imprensa não pode ficar aqui, é proibido.” Expliquei pacientemente pela segunda vez: “não faço parte da imprensa, sou só uma estudante.” Porém, a mulher não se comoveu e pediu friamente que eu me retirasse. Concordei, mesmo achando estranha a atitude daquela superior, afinal, o hospital Padre Albino é um espaço público. Saí e na calçada me pus a observar atentamente os movimentos de quem entrava e saia dali.

Um homem negro, magro e com olhos enormes estava sentado ao lado do bebedouro no corredor dos sanitários, vestido com extrema humildade: chinelos brancos e uma bermuda suja. Ouvi-o reclamar de uma intensa dor na região da barriga, mas seu chamado parecia não emitir sequer um ruído. Não demorou para que um outro paciente, sentado nas desconfortáveis cadeiras azuis, se levantasse e estendesse a mão aquele pobre. Ele, pequenino, levantou-se e recostou-se em um dos assentos embebendo um copo de água que fora levado pelo mesmo homem que anteriormente lhe oferecera ajuda. Eu estava embasbacada com a falta de humanidade daqueles enfermeiros e apreciava o olhar de afago que o cidadão comum emitia aquele doente.

Concomitantemente com aquela belíssima cena de altruísmo, ouvi alguns gritos que vinham de uma viatura parada na esquina do hospital. Por pura curiosidade, me dirigi para perto do local, onde uma senhora aparentemente embriagada argumentava com policias mal educados e dispostos a explicitar a todos os presentes seu suposto status de autoridade.

A senhora de vestido cor de laranja e cabelos castanhos emitiu alguns berros [agudos] e dirigiu-se para dentro da sala de espera do pronto socorro. Falou baixo com a secretaria e passou a esperar com as outras pessoas. Os policiais instantaneamente saíram de lá e pelo resto do tempo em que permaneci naquela rua não me dei conta da presença deles.

Uma garota grávida, que vestia-se corajosamente com um short jeans e uma blusa curta verde, saíra do atendimento. Junto com um garoto e uma moça, acendeu um cigarro ao meu lado e telefonou para que uma moto-taxi a apanhasse. Eu não podia imaginar o frio que aquela menina-mulher sentia. Por mais infernal que a temperatura da sala de espera parecesse, a rua ainda representava uma falta de acolhimento típico do mês de agosto. Nada extraordinário, mas eu e as demais pessoas dispúnhamos de casacos para a nossa própria proteção. Observei os gestos daquele grupo e notei uma aparente falta de preocupação daquela mãe com a vida que agora se escondia em seu ventre. As mãos do rapaz emitiam certa segurança a ela enquanto circulavam por aquela enorme barriga emitindo carinho e conforto. Deduzi que ele era o pai.

Andando em passos lentos, não me demorei a ouvir novos gritos de desespero misturados com fúria e revolta: era a mesma senhora de vestido alaranjado. Ela falava com uma rapidez estranha e eu não consegui ser capaz de entender sequer uma palavra. Mas o desespero era visível e claro, sendo algo capaz de me tocar. Suas mãos eram geograficamente ornamentadas com rugas aparentes e anéis baratos. Unhas grandes, vermelhas de sangue e sofrimento. Nada parecia normal ali. A vida era apenas uma razão entre espaço e tempo.

A loucura explicita daquela pessoa não era algo tão diferente assim...

Por um momento observei o martírio daquele velho corpo, mas o peso de enxergar a desgraça alheia e não ter armas para combatê-la me deixou significativamente frustrada. Atravessei a rua para que pudesse ter uma visão mais ampla do estabelecimento e das vidas que ali habitavam naquela noite. Um médico saiu de lá, e, todo vestido de paz, atravessou a rua e acendendo um cigarro de filtro vermelho olhava para baixo. Não pude conter a minha indignação e da maneira mais sutil possível, perguntei “Ninguém vai fazer nada para ajudar aquela mulher?” e ele sem olhar para o lado, como se o meu corpo fosse apenas uma voz, que, subitamente, aparecera do além, respondeu “Não... Essa velha é louca, aparece aqui sempre...” Não dispus de animo para rebatê-lo ou sequer argumentar. Abaixei a cabeça e retirei da bolsa meu bloco de anotações, onde exprimi com alguns versos o meu espanto em forma de poema.

Compreendi a falta de sensibilidade daquele “doutor” quando uma Land Rover preta parou na nossa frente e ele seguiu com ela. Ele lidava com muitas vidas diariamente e aquilo tudo deveria ser a situação muito freqüente presenciada por ele. Afinal, ele era um médico num merecido carro importado e as pessoas que precisavam do seu serviço eram simplesmente um numero. Apenas mais alguns brasileiros vivendo no maravilhoso país da Copa de 2014.

Ambulâncias chegavam e pacientes saiam – o caos parecia ser parte integrante do pronto socorro. O barulho era intenso e confundia-se com algum filme comercial exibido pela rede globo na madrugada de sábado. Eu estava afoita e extremamente disposta a ficar naquela sala de espera. Infelizmente isso não foi possível: no momento exato em que entrei, o rapaz de olhos bisonhos pediu com um cordial sorriso que eu me retirasse. Me encheu de desculpas, me fazendo perceber que ele não desejava nem por um segundo ser descortês com a minha pessoa. Sem exercer nenhuma forma de pressão, saí de lá novamente. Um pouco triste, um pouco nervosa e um pouco lamentosa. Mas fui, levando os olhos incessantemente naquela figura de ambulância que agora parava na frente do estabelecimento.

Saia de lá um homem com bigodes grandes e cascudos, com uma menina pequena no colo. Não sei ao certo, mas imaginei que ela pudesse ter entre quatro e cinco anos de idade. A criança parecia realmente doente, ao passo que no instante que entraram no hospital, os dois foram brevemente encaminhados para dentro das salas que exerciam o atendimento.

Eu gostaria muito de saber o que trazia aquela menina aquele lugar num corriqueiro sábado de madrugada. Mas a minha hora estava chegando e o cansaço batia forte. Juntei minha bolsa, e caminhando na direção de casa, ajeitei os fones de ouvido ao som de “A Cidade”, de Chico Science e Nação Zumbi. Tive a certeza de que, como cantou aquele brilhante pernambucano: “A cidade não pára, a cidade só cresce. O de cima sobe e o debaixo desce.”


Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável. .
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