ode de sede - por ora, a escrita.

"poeta é quem vê o que não é de dizer e ainda assim, diz."

Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável.

Dos olhos de Florbela, a poetisa eleita

dizeres insuficientes sobre uma mulher indescritível.


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Desvendar Florbela Espanca: atitude impossível e impensável. Divagar sobre a vida da mais intensa poeta portuguesa de todos os tempos – ouso nomea-la como a mais intensa sem nenhum receio – não é algo que seja fácil de ser expresso. Florbela foi uma figura que soube retratar sua existência através de fortes marcas encontradas na sua escrita. Escreveu em prosa, mas foram seus sonetos que fizeram dela o grande nome que é hoje. Marcas tão delineadas que remetem o leitor a sentir o desamparo de uma grandiosa mulher na própria epiderme.

Falou do amor e das aparentes escaras deixadas por ele com uma lucidez quase paradoxal ao seu estilo sofredor de ser. Obteve a arte da lucidez agregada ao sofrimento, mostrando o quão reluzente foi a sua passagem pelo hall dos grandes poetas mundiais. Reconhecida? Sim, mas somente após sua morte (que ainda é um mistério tanto para os biógrafos da escritora quanto para os admiradores de sua obra). Alcançou postumamente a gloria e o reconhecimento de sua inegável genialidade, deixando clara a idéia de que Florbela foi, antes de tudo, uma sofredora. Sofrimento visível em seus auto-retratos que emanam basicamente um olhar pesado, olhar que busca algo quase impossível de ser encontrado.

Não quis aparentar ser uma pessoa forte, só desejou mostrar, despida e desprotegida, as dores que sentia e o que observava (com olhos de lince) ao seu redor – dos hábitos da sociedade portuguesa da época, até a atmosfera vivida embaixo de seu próprio telhado. Estudou em colégio masculino e conviveu com os impropérios do “sexo forte” de uma forma muito próxima, moldando com sabedoria suas opiniões. Viveu para mostrar aos leitores o peso que a vida pode acarretar as costas de uma mulher que dispôs de uma fé majestosa e homens que moldassem seu pensamento de uma forma praticamente proposital e esculpida.

Vaidade, um dos poemas mais famosos da escritora:

Sonho que sou a Poetisa eleita, Aquela que diz tudo e tudo sabe, Que tem a inspiração pura e perfeita, Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade Para encher todo o mundo! E que deleita Mesmo aqueles que morrem de saudade! Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo... Aquela de saber vasto e profundo, Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando, E quando mais no alto ando voando, Acordo do meu sonho...

E não sou nada! *

Florbela como amante constante: Os teus olhos

O Céu azul, não era Dessa cor, antigamente; Era branco como um lírio, Ou como estrela cadente.

Um dia, fez Deus uns olhos Tão azuis como esses teus, Que olharam admirados A taça branca dos céus.

Quando sentiu esse olhar: “Que doçura, que primor!” Disse o céu, e ciumento, Tornou-se da mesma cor!


Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável. .
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