ode de sede - por ora, a escrita.

"poeta é quem vê o que não é de dizer e ainda assim, diz."

Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável.

NÁUSEA

Quando a dor é carnal, algo precisa ser transformado.


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Me causaste tanta dor que a náusea foi irremediável. A dor, anteriormente metafísica, era agora sentida na superfície da minha carne, na região abdominal, no tórax e no rosto, pois apesar de todo o brutal esforço, não consegui derramar sequer uma lagrima. Incrivelmente, eu não consegui derramar as malditas lágrimas. Mas o esgotamento que você fez ocorrer me deixou por alguns segundos com a garganta fechada, fria e quente ao mesmo tempo. Ficou dolorida, como se as palavras que eu havia de dizer fossem espinhos a sair da minha boca para profanar tua existência.

Todo esse enjôo, esse mal estar funesto e esse drama sem vertente, me fizeram constatar que você tem um caráter solúvel. Nunca me permiti estar em nenhum tipo de relacionamento com indivíduos de caráter solúvel. Minhas amigas do colégio, por mais putanas que fossem, ainda assim tinham algum tipo de principio oculto no âmago de suas vaginas. Mas, você demonstrou que só tem resíduos de humanidade correndo no sangue.

Resíduos: não mais que isso.

Quando me deitei na cama e acendi o abajour, senti que era capaz de golfar no seu rosto. Senti que se a sua figura aparecesse repentinamente frente a mim, eu seria capaz de sujar tua roupa com o meu asco perante as suas atitudes. Senti minha pele mergulhar no esgoto conforme eu remoia aquelas cenas, aqueles gestos e aquelas vulneráveis palavras – provenientes do seu vulnerável vocabulário que sempre se encabula diante de mim. Meus olhos estavam estaticamente estalados enquanto eu olhava para o teto vazio. Com as mãos cruzadas sobre a pança, em posição de defunta, eu esperava as indagações passarem uma a uma rapidamente pelo meu cérebro que escorria pelos ouvidos.

Por mais que eu me sentasse aos pés do meu leito e rogasse aos céus que o choro viesse, eu não consegui molhar o rosto. Nenhuma vez, de nenhuma maneira. A minha podridão ainda não foi expelida e continua a rondar minhas vísceras. Você transformou uma dor transcendente numa dor carnal. Egoísta que foi, me roubou o direito de soluçar.


Andreza Spinelli Ballan

Aspirante a jornalista. Amante de cinema, artes plasticas, literatura e música intensa. Constantemente submersa em algo não nominável. .
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