
Olivia voltou do leste europeu mais alva do que nunca. Desceu do avião com botas de couro – salto alto, registrando sua indubitável realeza – e um chapéu que representava a breve índole de Virginia Woolf que corria em suas veias de sangue opaco.
Beijou o marido e meneou com a cabeça quando ele disse sentir saudade. Ela mentia como nunca.
Encostava o rosto oleoso na janela do carro, esfregando o nariz, abrindo a boca, enchendo a boca de ar, enchendo de puerilidade o ambiente, transbordando o suor das palmas de Aberto, enlouquecendo o falo, mentindo novamente, mentindo.
Em casa, como quem entra num hotel, jogou a bagagem pela sala e pôs-se a meditar no vaso.
“Você sabe que é uma praga de mulher. Um diabo.”
Ajeitou-se. Mijou denso. “Merda! Acabou o papel!”
Balançou o corpo. Chacoalhou a buceta. Subiu a calcinha mesmo sabendo que ainda haviam gotas pelo meio dos pelos que ela se recusava a aparar há algum tempo.
“Você é um diabo mesmo... uma puta sem vergonha!”
Ouvia, mas dava de ombros enquanto escutava tudo o que poderia escutar numa noite onde o ódio de Alberto pairava pelo ar como a fumaça de seus charutos fedorentos. Ficava ali, com as pernas cruzadas, observando o movimento automático de seus pés ansiosos por saírem correndo daquela sala. Nada poderia ser concluído após aquela conversa, a não ser a certeza de que mesmo sendo corno de fato, ele ainda a amava e a perdoaria mil vezes de fosse preciso.
“Você se arrependeu de chupar o pau dele?”
Ela levantou os olhos, mas não a cabeça:
“Como você sabe que eu chupei o pau dele?”
“É tudo que posso esperar de uma filha da puta malandra feito você, Olivia. Se arrependeu ou não? Porra!”
Ela levantou os olhos, mas não a cabeça. Olhando por cima dos óculos de armação vermelha, respondeu vagarosamente:
“Não.”
Ele sabia a resposta e se sentiu mais otário após perguntar. Parecia masoquismo da parte dele, querer esclarecer os motivos que levaram Olivia a trepar três vezes com um escritor gaucho e careca numa cidade minúscula e quase feudal da Bulgária – Zlatograd. Pensava que maldita foi a hora em que sua esposa fora chamada parar participar daquele recital onde os autores aclamados pela critica e detestados pelo publico se encontraram no mesmo lugar para vomitar todo o lixo supostamente intelectual que guardam dentro de si. Não quis acompanhá-la e, não por isso, ela foi coberta pelo corpo de uma bicha gaucha e careca.
Qual era o problema de Olivia? De onde era proveniente aquele caráter solúvel e duvidoso? Ele não acreditava que tantos anos eram resultado de falácias incessantes. Ou pelo menos não queria acreditar naquele momento. Nada seria capaz de fazê-lo esquecer. Nem um teco, nem três garrafas de uísque, nem todos os calmantes do mundo.
(...)
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