olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

Infinito

O olhar sociocultural vai muito além de representações artísticas, políticas, econômicas ou qualquer outra área humana e exata que desenvolvemos tanto hoje nas Universidades e nas ruas. Para início de um raciocínio cultural e social, devemos praticar uma elasticidade mental. Imaginar o Infinito pode ser um meio precioso para analisar a origem do ponto de vista, para assim entender quais as origens da cultura social. Afinal, o que é Infinito? Ele realmente existe? Na Arte ou na Fotografia, quais são seus conceitos? Saboreie e pratique um pouco a sua paciência e imaginação acompanhando um pequeno raciocínio deste autor.


Utilizando o sentido figurado, o Infinito pode significar Deus, o Absoluto ou o Eterno. Para um fotógrafo o Infinito começa à 10m da lente; para um físico e um filósofo, o Infinito é algo relativo. Tomás de Aquino recusou a existência do Infinito como algo real, assim como Aristóteles. Nas artes visuais, a perspectiva ou ponto de fuga é uma ferramenta que ajuda a retratar a "realidade" a partir do Infinito. Para você, seus sonhos ou sua capacidade de Imaginar conseguem conceituar um Infinito?

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Ao olhar uma cena qualquer, ao focar e clicar uma fotografia, pegamos um pedaço de tempo e colocamos ele à mercê da memória. A sua memória de tal evento, a fotografia de tal momento, ficará algumas vezes marcada durante toda a sua vida. O tempo em que você ainda lembrará disto é enorme, o tamanho nos espanta. Afinal, um dos maiores mistérios que ainda é presente em nossa civilização não é a vida, o olhar, ou até mesmo a morte. Mas sim, o tamanho.

Tentando acompanhar um raciocínio sobre o tamanho, logo pensamos no seu máximo: o Infinito. Qual sua definição e um ponto de vista sobre ele? A criança, que em geral está familiarizada com o espanto, diria:

- Papai, o que existe em cima do céu?

- A escuridão do espaço…

- E o que existe – diz a criança – depois do espaço, papai?

- A galáxia.

- Depois da galáxia?

- Outra galáxia – diz o pai.

- E depois das outras galáxias, papai?

- Ninguém sabe.

Entende? O tamanho nos derrota. Para o peixe, o lago onde ele vive é o universo. O que pensa o peixe quando é puxado pela boca por um gancho prateado, nos limites da existência, e penetra num novo universo onde o ar afoga e a luminosidade é uma loucura azulada? Onde enorme bípedes sem guelras o amontoam para morrer numa caixa sufocante, forrada de vegetação úmida?

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Quando ouvimos uma pessoa comentando que "a experiência de vida é a Faculdade mais importante" não significa que as Universidades do mundo estão ensinando erroneamente, mas sim que ao passar dos anos, o ponto de vista perante alguns assuntos mudam. A sua reflexão perante algumas situações muda, de acordo com sua capacidade elástica de imaginação.

Imagina a ponta de um lápis ampliada. Vamos chegar a um ponto onde uma atordoante compreensão cai sobre nós: a ponta do lápis não é sólida; é composta de átomos que giram e rodopiam como um trilhão de diabólicos planetas. O que nos parece sólido é apenas uma rede de coisas soltas, mantidas juntas pela gravidade. Vistas na sua real dimensão, as distâncias entre esses átomos podem se tornar quilômetros, abismos, eternidades. Os próprios átomos são compostos de núcleos com prótons e elétrons girando em torno deles. Podemos descer ainda mais até as partículas subatômicas. E depois para o quê? Para os táquions? Para nada? Claro que não. Todo o universo rejeita o nada; sugerir um término é o único absurdo que existe.

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Se você recuasse para o limite do universo, será que encontraria uma cerca de madeira e tabuletas dizendo SEM SAÍDA? Não.

Talvez você encontrasse algo duro e arredondado, como o pintinho deve ver o ovo do seu interior. E se você atravessasse a casca beliscando, não poderia jorrar, nesses confins do espaço, uma incrível luz torrencial através da abertura? Você não poderia olhar por ali e descobrir o que todo o nosso universo é apenas parte de um átomo numa camada de relva? Não poderia ser levado a pensar que, ao queimar um papel, você está incinerando uma eternidade de eternidades? Que a existência não avança para um infinito, mas para uma infinidade deles?

Talvez você tenha visto o lugar que nosso universo ocupa no esquema das coisas – não mais que um átomo numa camada de grama. Será possível que tudo que percebemos, do vírus microscópico à distante nebulosa Cabeça de Cavalo, esteja contido numa camada de grama que pode ter existido por uma única estação num outro fluxo de tempo? E se a camada fosse cortada por uma foice? Quando ela começasse a morrer, a podridão não escorreria para nosso próprio universo e nossas próprias vidas, deixando tudo amarelado, escuro e ressecado? Talvez isso já tenha começado a acontecer.

Imagine a areia do deserto do Saara, e imagine um trilhão de universos – não mundos, mas universos – encerrados em cada grão daquele deserto; e dentro de cada universo uma infinidade de outros. Nós nos elevamos sobre esses universos de uma suposta posição privilegiada na grama; com um movimento de sua bota, você pode chutar um bilhão de mundos, fazê-los voar para a escuridão, numa reação em cadeia que jamais terá fim.

Pense em como essa idéia das coisas nos torna pequenos! (Palavras de Stephen King: A Torre Negra Vol.1)

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Vemos, então, a complexidade que envolve a mente humana. Todo este exercício resume-se em compreender qual ponto de vista possuímos? A sua capacidade crítica vindo desta elasticidade mental, que foi lida, pode muito bem ser aplicada quanto à sociedade atual. Quais são seus atos? Quais são seus líderes, e quais são os pontos de vista deles?

A sua cultura provê uma parte destas respostas e faz com que o seu ponto de vista seja diferente de seu vizinho. Assim como a realidade de Infinito do Filósofo é completamente diferente da do Teólogo. As fotografias tiradas por um fotógrafo da década de 1920 é diferente de uma foto atual, mas ambas compartilham semelhanças. Seus pontos de vistas são diferentes, mas uma realidade ainda sim foi exposta por motivos talvez semelhantes aos de hoje. Qual é a espécie de licor tomado por estas pessoas para receber tal ponto de vista? Qual sociedade transmite esta cultura e este ponto de vista?

"Mais do que cogitar que espécie de licor ele tomou, talvez devêssemos nos perguntar se estamos de fato dispostos a aceitar o copo que ele nos oferece." Nicolau Sevcenko.


Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro....
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