olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

La Mort de Marat - 1793

"Quinhentas ou seiscentas cabeças cortadas teriam assegurado o seu descanso, liberdade e felicidade. Uma falsa humanidade segurou seus braços e suspendeu seus golpes, por isso, milhões de seus irmãos irão perder as suas vidas." Jean-Paul Marat, 1790.


No dia 13 de Julho de 1793, Jean-Paul Marat foi morto em sua casa. Ainda hoje paira dúvidas quanto à forma em que este homem morreu. Apesar de várias interpretações, Jacques-Louis David pinta seguindo a interpretação mais famosa: Marat foi esfaqueado enquanto tomava banho.

marat.jpg Jacques-Louis David: La Mort de Marat, 1793. Óleo sobre tela, 162 x 128 cm - Royal Museum of Fines Arts of Belguim.

Seguindo, então, este ponto de vista – Charlotte Corday, uma mulher de 25 anos, veio de Caen – região na Normandia - com a intenção de matar Marat. Em seus olhos, Marat era culpado por perseguir os Girondinos (grupo político, representado pela alta burguesia, oriunda do interior Francês [Gironde]), a facção política que ela simpatizava. O assassinato fez parte de um cenário de disputas entre as correntes políticas da Convenção Nacional (a assembleia, eleita em Setembro de 1792, que proclamou a República e destronou o rei Louis XVI). Foi antes da Convenção que Louis XVI foi condenado à morte, por ter traído os ideais da época.

Marat atuou um importante papel sobre o que se trata de Louis XVI, e foi ele quem impulsionou uma campanha contra os Girondinos. Após a morte de Marat, homens como Robespierre, Danton e Saint-Just continuaram no mesmo caminho de Louis, tornando-se mais radicais e concentrando poder em suas próprias mãos. Algumas visões sobre o posicionamento desta afirmação podem ser feitas de diferentes maneiras, condenando ou simpatizando com estes personagens.

maratmao.jpg Jacques-Louis David: La Mort de Marat, 1793. Óleo sobre tela, 162 x 128 cm - Royal Museum of Fines Arts of Belguim.

Vemos na mão de Marat, pintado por Jacques-Louis David, a carta que Charlotte Corday enviou a ele, prometendo expor o enredo. David não transcreveu o texto exato, mas sim um resumo da suposta carta, que foi enviada a Marat: “Só que eu sou muito infeliz para ter direito a sua bondade” [Il suffit que je sois bien malheureuse pour avoir droit a votre bienveillance], escreve Corday. O pedaço de papel é manchado de sangue. Na outra carta, deixada sobre a caixa de madeira, o tribuno expressa seus desejos de dar uma forma de papel-moeda, ou assignat, para uma mãe de cinco: Marat é representado, portanto, como um homem generoso e altruísta.

Notamos neste momento que David posiciona-se politicamente. Para quem não percebeu, mesmo com as frases colocadas pelo pintor na tela, David era Jacobino, alinhado aos pensamentos de Marat e Robespierre. O personagem Marat nesta pintura foi, portanto, idealizado por David. Marat sofria de problemas de pele, com várias manchas pelo corpo. Entretanto, aqui nesta pintura, Marat não apresenta nenhum tipo de manchas.

David_Self_Portrait.jpg Jacques-Louis David: Autoportrait, 1794 - Musée du Louvre.

David admirava o trabalho de Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, nota-se uma semelhança corporal entre a escultura “Pietá” e a forma do corpo de Marat nesta pintura de David. Assim como Michelangelo, Caravaggio era uma inspiração mais forte. Na tela “Enterro de Cristo” notamos claramente os tons de luz e sombra – típicos deste pintor – e a forma em que Cristo é carregado. Uma comparação entre as pinturas pode ser feita. Vemos então, que Marat foi idealizado como um mártir, assim como Cristo era nas pinturas da Igreja Católica.

Caravaggio_-_La_Deposizione_di_Cristo.jpg Michelangelo Merisi da Caravaggio: Deposizioni, 1602-1603. Óleo sobre tela, 300 x 203 cm - Pinacoteca Vaticana, Vaticano.

A caneta de pena que Marat ainda segura em sua mão, a sua Arma: ele sempre foi muito conhecido como um jornalista polêmico, Marat denuncia a corrupção e hesitações de inúmeros revolucionários indiferentes nas colunas de seu jornal, L’Ami du peule, fundado em 1790.

maratpena.jpg Jacques-Louis David: La Mort de Marat, 1793. Óleo sobre tela, 162 x 128 cm - Royal Museum of Fines Arts of Belguim.

maratcaixa.jpg Jacques-Louis David: La Mort de Marat, 1793. Óleo sobre tela, 162 x 128 cm - Royal Museum of Fines Arts of Belguim.

Charlotte_Corday_02-762248.jpg Charlotte Corday e o Assassinato de Jean-Paul Marat (Charlotte Corday: L'assassinat de Marat, França, 2008)


Caio Proença

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