olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

Oftalmomancia


Conto 'temporal' com autoria de Filipi Pompeu. Sinta-se à vontade!

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Lembrava-se de como começara a ver o futuro; as pessoas mais velhas. Se houvesse um médico para isso que não fosse charlatão ou ocultista, iniciaria: “havia algo no ar, na vista, que incomodava, mas me não era necessariamente estranho. Era algo que eu já conhecia, aliás, era algo bem comum. Há dias parecia acordar dormindo.” Tocava as coisas e ao contrário da realidade, elas não lhe pareciam tocar-lhe de volta; como se seu impulso se perdesse nas águas densas que estão dentro das linhas que delimitam os objetos. Quebrou algumas xícaras, tocando-as forte demais para além da estante. Não via as xícaras como cacos; seu fim inevitável: estaria sã, afinal? As frases que escrevia nas paredes de casa ganharam contornos rígidos e grossos. Empunhava com força os materiais contra o gesso da parede, buscando torná-los reais. Por que não podia ver objetos envelhecerem, sua pintura descascar, suas bordas enferrujarem, suas letras sumirem? Por que as pessoas? Desejava, às vezes, poder desligar a matriz que permitia ver o futuro das pessoas em suas faces. Aquilo a amedrontava de tal forma que evitava se observar no espelho. Não queria saber quanto tempo ainda tinha. Mas a angústia persuasiva continuava lá dentro, jogando sujo, torcendo, apertando e moendo as batidas de seu coração quando isso lhe vinha à mente. Como se tivesse sido ressuscitada depois de se afogar num sono pegajoso, sempre sobravam restos de sonho que colavam as silhuetas, as formas das coisas. Não conseguia ver direito. Não se lembrava com clareza do que havia feito dois minutos atrás. E o pior: não se lembrava como e quando começou.

- E se eu faltar no trabalho? – falou alto – Se eu estiver num sonho, não vai aparecer o desconto no fim do mês. Acho que ninguém vai ligar perguntando de mim, também.

Rotular panfletos não era o tipo de emprego que entusiasmava as multidões na época. Rendeu-se às cobertas. Ligaram. As eleições estavam próximas; o desconto seria poupado se ela se aprontasse rapidamente. Todos estavam encarregados com horas extras, o perdão vinha fácil em tempos difíceis. Pra variar, ela se esqueceu da urgência que a época do ano tinha, suspirando ao desligar. Escolheu o velho jogo de tecidos leves e escuros; vestiu-se e saiu apressada para a parada de ônibus. O café com leite esfriou-se, solitário, enquanto a luz das nove entrava pela janela.

“...e os outros dias? Será que estava dormindo neles e só acordei agora?”. As respostas são o adubo das questões e ela pensava mais. Era um dia cinzento que combinava com o vestido cinza estampado de florzinhas coloridas. O vento animava as cores secas da roupa que servia de escudo contra conversas em potencial. O vestido era ridiculamente feio, mas fazia parte da sua tática de isolamento. Um armário inteiro fora pensado assim e construído com esforço, garimpando brechós por meses. Ela calçava sapatilhas envernizadas pretas que refletiam as poças de água da calçada. Amava aquele par. Era “perfeito e fundamental”, segundo estava no diário. Tinha bolhas frequentes, não apenas pelo calçado, mas também por grossas meias coloridas, cheias de bolinhas da máquina de lavar. O guarda chuva pendurado no braço tinha um pomo talhado em madeira; terminava numa maçã. As folhas de tinta vermelha descascavam lentamente com o uso. “Quando ela estiver nua, vou talhar-lhe uma dentada com uma faca”. Óculos pesados com lentes arranhadas filtravam o mundo, três graus abaixo da sua atual miopia. Envolviam as olheiras, o olhar, as janelas de sua alma; que guardava como um cristal de gelo frágil. O relógio que ganhou da avó no ano novo estava preso por uma correntinha a um outro que esgotara a bateria às oito e quinze da manhã de algum dia de Outubro, anos atrás. Ela tirara a presilha de couro e os guardava no vão do forro da bolsa azul escura. Dentro da bolsa, nulidades: joaninhas, clipes, cartões telefônicos diversos, moedas, um saleiro, os relógios, lápis, apontador e um livro pequeno onde guardava flores e folhas secas e que também servia pra anotações ligeiras. Achava maquiagens desnecessárias. Ela se sabia mulher, “não preciso manchar minha cara pra saber disso”.

Habitualmente ignorava as pessoas na rua. A experiência provara que as matérias de cada uma eram especialmente diferentes entre si, e entre eles e ela, principalmente. Não que a interdição que resultara fosse ruim, pelo contrário. O fato de não mais se questionar a respeito dos outros a tornara o foco principal. Sempre parecia estar presenciando uma fase importante de sua vida na qual era a única testemunha. A desistência da perseguição da carreira e das interações sociais a transformara numa planta. Uma planta que pega ônibus, ouve Cranberries e compra livros que não vai ler. “Sou um desafio aos botânicos” escrevera com carvão no azulejo do banheiro, perto da orquídea amarela. A orquídea não reclamou quando da pichação; “irmãs mais velhas são assim mesmo”. Lembrava-se disso com algum gosto ao chutar as poças e ver as gotinhas acumularem no verniz do sapato.

Desde pequena fazia isso e isso a ajudava a se distrair quando cercada de pessoas. A nova visão borrada pelo mistério que tentava decifrar ajudava. Ela desabrochava com força para dentro, tentando captar uma resposta. “Não pode ser tão difícil, já tenho tantas respostas!”. Começou a recordar a primeira vez que testemunhou o envelhecimento das pessoas. Recordava o sol refletindo no telhado de fibra de vidro amarela da parada. As pessoas enfileiradas esperavam a porta abrir, enquanto ficavam consigo mesmas. Ouviu o soprar da porta se dobrando e liberando a passagem e continuou caminhando e olhando para baixo, esperando sua vez de passar a roleta. Até que ao encarar o cobrador enquanto este calculava moedas, surpreendeu-se, como se tivesse visto o sol pela primeira vez. O cobrador era um rapaz jovem entrado nos vinte. Não podia ver seus olhos, pois ele contava as moedas de cabeça baixa, mas a curva das narinas, que podia ser vista com privilégio foi a semente do que veio a seguir. Ela viu uma linha descer preguiçosamente do alto de cada narina, uma raiz, respeitando os cantos da boca, através da bochecha. A barba rala esbranquiçou-se junto com os cabelos. Os cabelos secos cobriam as rugas que brotavam na testa como num tronco velho. Quando ele levantou o rosto, cansado, para entregar o troco, ela contemplou a paisagem. Olhos amarelados e bulbosos descansavam sobre dobras de pele. Pareciam que iam escorrer pela olheira escura que surgira súbita, lembrando marrom terra virgem revirada.

- Vamo aê guria! – o homem atrás dela disse.

Atordoada pela mágica, ela parara observando o cobrador. Ele ficou visivelmente embaraçado e se pôs a contar outras moedas quaisqueres. Ela então se deu conta e se apressou com o pensamento novo para o fundo do ônibus. Sentou-se na janela e ficou observando para a rua, estática. A fila de pessoas que embarcavam também tinha envelhecido. Eram todas de idades distintas e era possível ver essas idades juntamente com a sua velhice. Observava-as subindo o ônibus, cada uma com velhices diferentes. Quando o coletivo se pôs em movimento, usou da tática dos reflexos para parecer que olhava a rua, quando, na verdade, estarrecia com a descoberta. Podia ver as pessoas velhas! Observou que em algumas, isso não acontecia. Com o passar da viagem até o trabalho, percebeu que os “velhos” eram minoria. Nos outros não havia mudanças consideráveis ou mesmo alguma mudança. Envelheciam, mas não chegavam naquela idade venerável na qual nos comparamos com os carvalhos.

Desde então sua rotina se inverteu. Começou a sair com mais frequência, para a praça cujas plantas perdiam as folhas paulatinamente. Ali observava as pessoas e rabiscava num caderno antigo do colégio de capa loura. Associou a névoa dos sonhos que permeava sua vista com o acontecido. Era evidente que estavam interligadas. Conforme desenvolvia o hábito de respirar em lugares abertos novamente, notava as características do dom adquirido. As perguntas não eram mais sobre o que era sonho ou não. Algumas pessoas “velhas” eram, na verdade, crianças. O verniz do sono não fazia efeito em crianças muito pequenas, mas muitas crianças envelheciam sob ele. “Em algumas pessoas”, anotava, “é curioso que não atinjam a idade senil. Alguns só chegam até os trintas ou quarentas.” “Por quê?”, indagava-se para as árvores do parque.

Descobriu de um jeito mórbido. Ao pegar o ônibus numa manhã enevoadamente triste observou uma moça que não envelhecia descer na esquina de duas avenidas movimentadas de um famoso bairro arborizado. A moça usava roupas justas, adequadas para a executiva que almejava ser. Fazia frio e a primeira coisa que se noticiava era o cachecol chique que sustentava o rosto esguio e cuidadosamente tratado com cosméticos. O salto alto não combinava com o ônibus, mas combinava com a saia, com a camisa social, o colete, o gloss, a sombra, o celular no ouvido e com as pretensões. Ela saiu apressada no ritmo das pessoas permanentemente atrasadas. Depois, continuou fazendo anotações, até que ouviu um som agudo; pneus contra o asfalto. A moça que descera fora atropelada e projetada até abaixo da sua janela. Enquanto os ocupantes se acotovelavam do lado esquerdo do ônibus para ver o incidente, seus olhares se cruzaram. Viu o rosto da moça agonizante encanecer rapidamente enquanto ela se debatia em movimentos cada vez mais lentos sob o abraço seco dos galhos baixos das árvores plantadas na calçada.

Quando chegou em casa, abriu a vodca e escreveu na última página: “Os jovens não envelhecem. Os jovens morrem”. Ao terminar o terceiro copo sem gelo, correu para o banheiro, ver-se no espelho. No canto esmaltado do espelho a luz de fora era um poente adoentado, baio, irmão da manhã. O café com leite fazia aniversário de uma semana sobre a mesa.

Filipi Pompeu.


Caio Proença

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