olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

Shylock: contextualidade e interpretações

Um dos personagens mais importantes da literatura Inglesa. Shylock representa um contexto religioso, político, jurídico e cultural para a sociedade atual e passada. Interpretações e observações sobre este personagem de William Shakespeare, que já esteve presente em palcos durante a revolução de Oliver Cromwell e na Guerra de Adolf Hitler.


the-merchant-of-venice-1-1024.jpg Al Pacino, "Merchant of Venice Film"

"O Mercador de Veneza", escrita por WIlliam Shakespeare se passa na Veneza do século XVI. O jovem nobre Bassanio pediu dinheiro emprestado ao amigo Antonio. O objetivo de Bassanio é viajar a Belmont e pedir a mão de Portia. No entanto, Antonio não pode emprestar o dinheiro e só resta ao jovem procurar o agiota Shylock. O amigo pede dinheiro ao negociador pessoalmente, prometendo-lhe um naco de sua própria carne caso não haja pagamento. Essa negociação acaba mudando a vida de todos em volta de Bassanio.

No final da Idade Média, com o aumento das atividades econômicas, dos ofícios, do lucro e da tentativa de autonomia dos comerciantes, desenvolve-se a imagem do usurário na sociedade e no âmbito cultural. A nobreza apoiada pelo clero sente-se abalada estruturalmente, pois tem seus interesses ameaçados por esta nova classe que surge. No tempo de Francisco de Assis e da senhora Pobreza, a verdade é que os pobres eram desprezados e a usura visto nos comerciantes, que tornavam-se agiotas, podia ser um meio de ascensão social freado apenas pelo espantalho do inferno.

A prática do ócio era um pecado para a época. Visto que o clero e a nobreza, do século XIII ao XVI sente-se ameaçado por um grupo que está cada dia ganhando mais poder econômico, e por consequência, poder político na Europa. Este grupo é classificado como burguesia, os comerciantes locais. Eles, muitas vezes, utilizavam-se do privilégio de ter dinheiro de sobra, virando agiotas. Este ato foi condenado pela Igreja e pela Nobreza Medieval. Ora, pois, você é um comerciante que não faz um trabalho físico que irá provar sua dedicação para com Deus. Você simplesmente senta em sua cadeira, espera seus clientes virem e pedir seu dinheiro emprestado, para assim você vender "Tempo" à este cliente.

Enquanto o cliente demoraria 10 anos para construir sua casa, ele agora poderia fazer a mesma casa em poucos meses, mas demoraria, talvez, a sua vida inteira pagando o comerciante que lhe emprestou o dinheiro, já contando com o acúmulo de juros.

robert dorfman.jpg Robert Dorfman

"O Tempo não pode ser controlado pelo homem, somente por Deus". Esta é a máxima da Igreja Católica durante a Idade Média para condenar os "vendedores de tempo", ou os Agiotas. E foi brilhantemente demonstrado na obra de William Shakespeare "O Mercador de Veneza". Vemos que, a partir do momento em que você torna-se um agiota, o pecado de Avareza lhe é concebido, por praticar atos que não compartilham a bondade e a solidariedade para com o povo. A imagem do usurário é sinalizadora deste quadro da mentalidade coletiva, expresso nas produções culturais do pecado.

Shylock, na obra de Shakespeare, é a personificação do grupo condenado pela Igreja Católica no século XVI. Com a imagem da avareza nas suas falas durante a obra teatral, Shylock recebe uma carga específica de rancor.

george coulouris.JPG George Coulouris

A questão sobre as religiões na obra é muito presente. Enquanto uma grande concentração de católicos condenam o uso da usura, por motivos políticos e teológicos, os Judeus recebem a imagem de pecadores e avarentos, na obra de Shakespeare. Realmente, durante o século XVI, Veneza era o maior e mais importante centro econômico na Europa. As transações entre o Oriente e o Ocidente eram feitas por Gênova e Veneza, e o grupo de comerciantes Judeus era muito atuante no comércio da cidade. Possuindo bairros específicos de moradia, excluídos dos outros bairros da cidade (onde moravam os católicos), os Judeus por pura falta de opção economizavam ao máximo suas despesas, algumas vezes uniam-se, para poder emprestar dinheiro à outros. Como única forma de sustento, vivam às custas dos juros recebidos pelos seus clientes.

Há, aqui, um momento de reflexão: muitos autores hoje condenam este tipo de argumento, que caracteriza os judeus como um grupo excluído e que sempre necessitou do uso dos meios ilícitos e condenáveis pela Igreja Católica. Deve-se obter um ponto de vista quando a obra é lida ou assistida no teatro. Vemos com bastante cautela que Shakespeare adota ações que realmente deixam espaços para condenação ou defesa de Shylock pelos seus atos, como no Ato III Cena I, onde tais palavras são colocadas na boca de Shylock pelo autor:

"Para isca de peixe. Se não servir para alimentar coisa alguma, servirá para alimentar minha vingança. Ele me humilhou, impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros, escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda."

shylock.jpg Al Pacino & Jeremy Irons

Leituras com um olhar de simpatia com Shylock podem ser feitas, assim como uma leitura com altas influências antissemita também! Durante a segunda guerra mundial o personagem Shylock foi utilizado como propaganda Nazista, denegrindo a imagem religiosa, obviamente. Mas, em 1920 por exemplo, visões de que Shylock era nada mais do que um ser humano, feito de carne e osso, utiliza-se de grande força humana e de uma geniosa força para conseguir justiça igualitária na situação da obra de Shakespeare. Mostrando a figura de Antonio e de seu amigo como ambos festeiros baratos, praticantes de pecados como gula e a luxúria, quando apreciam bordéis e apostas.

Uma visão do escritor Shneider, em seu livro “Shylock, the Roman: Unmasking Shakespeare's the Merchant of Venice” faz é alterar o ponto de vista, olhar para o jogo de um ângulo totalmente diferente. Ele rejeita a dicotomia judaica / cristã, a idéia de que o jogo lida com o conflito entre o perdão cristão e o uso estrito das leis para o judeu, entre o Novo e o Antigo Testamento, e substitui uma interpretação clássica romana. . . . Não só ele refere-se à outras peças de Shakespeare em apoio de sua tese, mas ele também olha para a educação que o povo da época elizabetana recebeu, com sua base firmemente nos clássicos, e mostra que o ideal romano de comportamento é aquele que contemporâneos de Shakespeare compartilhavam.

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Curiosamente, com toda a probabilidade William Shakespeare realmente não conheceu nenhum judeu em toda a sua vida, pelo menos não um judeu que admitiu seu próprio judaísmo. Os judeus da Inglaterra foram expulsos em 18 de julho de 1290, por um decreto de Eduardo I da Inglaterra e só foram oficialmente readmitidos por Oliver Cromwell, em 1656, quarenta anos depois da morte de Shakespeare. Embora que um pequeno número de judeus tenha permanecido e foram forçados a manter em segredo seu judaísmo. No entanto, os anéis mencionados no livro são freqüentemente citados pelos estudiosos como uma referência para os eventos atuais relacionados com a rainha e seu médico Rodrigo Lopez, um judeu suspeito que fora executado por traição.

Shylock é um personagem tão atual, somente falta observações e um olhar mais cristalino sobre suas ações e falas criadas por seu autor. Nunca um personagem do século XVI foi tão presente nos conflitos internacionais.

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Caio Proença

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