olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

Detenção: Totalitarismo no cinema

“Totalitarismo: Sistema político no qual o Estado, normalmente sob controle de uma única pessoa, político, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada, sempre que o possível.” Eric Hobsbawm.


Um thriller centrado em um grupo de homens, civis, que, em busca de dinheiro fácil, se oferecem como voluntários em uma experiência científica. Confinados em uma prisão, sozinhos, eles são divididos em dois grupos: os prisioneiros e os guardas. O objetivo da pesquisa é analisar como o ser humano lida com as regras, o poder e o controle sobre o próximo.

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Seguindo o experimento, o grupo de homens designados a interpretar os guardas recebem algumas ordens, que os prisioneiros devem seguir (mesmo quando estes não sabem que estas regras existam):

1) Falar apenas quando interpelado; 2) Comer toda a comida do prato; 3) Não tocar, sob nenhuma circunstância, nenhum dos guardas; 4) Cumprir diariamente 30 min de recreação; 5) Ser punido de maneira equivalente à regra que deixasse de cumprir.

O prêmio em dinheiro seria dado aos participantes somente se não houvesse violência, e após 12 dias permanecendo dentro da prisão. Caso contrário, o experimento estaria acabado, e todos teriam que ir embora sem nenhum tostão.

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Alguns líderes políticos já possuíram poder o suficiente para controlar uma população, utilizando o modo totalitário, onde não há regras, a não ser as ditadas pelo totalitarista. Robespierre, no período chamado de “O Terror” durante a Revolução Francesa, utilizou-se de um poder ilimitado para controlar e fazer com que suas ideologias fossem postas em prática - Guilhotina. Adolf Hitler, votado pela grande maioria da população alemã, visualiza a oportunidade e o grande poder em suas mãos para realizar a sua Guerra – Câmara de Gás, e a Guerra, propriamente dita. Mussolini segue seu exemplo.

Condenar ou julgar tais atos pode ser bastante arriscado. Temos em vista que, diferentes momentos históricos estavam ocorrendo nestes exemplos, e a sociedade da sua época tinha justificativas muito sustentáveis e que só hoje são colocadas em xeque.

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Assim como nestes períodos, que servem de exemplo de um governo Totalitário, em 2010 o filme “Detenção” foi gravado e lançado, demonstrando alguns aspectos bastante interessantes sobre este assunto. De forma simples e direta, o diretor Paul Scheuring levanta questões sociais, éticas, evolucionistas, psicológicas e históricas no decorrer de sua obra, de forma indireta. Apontarei aqui alguns pontos de vista sobre a obra, não contemplando todos os aspectos – procuro, de forma despretensiosa, mostrar alguns aspectos breves sobre interpretações que podem ser feitas sobre o filme.

Alguns pontos interessantes podem ser levantados quanto ao uso de símbolos no longa. As câmeras de vigilância (colocadas na prisão, a fim de vigiar os homens) e a sirene vermelha, que pode ser acionada pelos “observadores” do experimento caso houvesse algum tipo de violência ou regra desrespeitada, são objetos presentes durante todo o filme. De forma inconveniente e com um sentimento de pressão psicológica, o grupo de prisioneiros demonstra constantemente o sentimento de vigilância, quando olham para estes objetos. Já o grupo de guardas, que durante o filme acabam recebendo uma certa autoridade por via da Dominação pelo uso da Força Física e Psicológica, olham estes objetos como representantes que lhes apoiam, em cada atitude Autoritária e Totalitária realizada para com os prisioneiros.

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Assim como um Rei absolutista tinha a religião Católica como forma de confirmar o seu poder ilimitado dado pelos Deuses, um poder Absoluto e Divino, o futuro líder do grupo de guardas - interpretado pelo ator Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) - observa atentamente a sirene vermelha, que é vista como um objeto que lhe assegura e afirma seus atos. Ela não toca após várias sessões de violência gratuita. Este objeto “sirene” torna-se, portanto, uma forma de “divindade”. Enquanto ‘Deus’ não castigava e trazia secas para o povo de um Faraó Egípcio; enquanto Deus não fazia com que as guerras e sucessos expansionistas de um Rei Absolutista fossem um fracasso – estes homens, com um poder sobre-humano continuavam pensando que: “Estou fazendo do jeito certo, a minha Divindade não me castigou pelos meus atos”. Da mesma forma o guarda pensaria, quando suas torturas psicológicas e físicas eram realizadas e a sirene não tocava, os cientistas (relacionando nos exemplos com a Divindade de outros povos) estavam demonstrando que os atos de repressão não foram violentos e “errados”. Já viram a série LOST? Pois é, o cronômetro de 108 minutos, dentro do abrigo, serve de exemplo mais claro sobre isso. Acaba virando uma “Divindade”e que merece total atenção dos personagens da série.

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Diversas análises psicológicas (análises, não julgamentos e condenações) poderiam ser feitas quanto à cada membro participante do experimento. Não cabe a eu realizar isto, quem sabe alguém que tenha o domínio pode arriscar-se e comentar sobre isto, contribuindo para o artigo.

Assemelha-se, quanto à carga de sentimentos e reações que o filme nos manda, ao filme Die Welle (A Onda), onde um professor de História de um colégio público na Alemanha pós Segunda Guerra demonstra, na prática, que o Totalitarismo poderia retornar à uma sociedade dita Moderna. Segue abaixo o trailer do filme comentado brevemente neste post, e do filme citado acima.

Um filme bastante envolvente, com cenas séries e diretas. Apresenta um elenco muito bom, e serve de exemplo para quem gosta de discutir filmes polêmicos, ou situações polêmicas que acontecem até hoje. Para quem gosta de estudar a Ditadura Civil Militar nas Américas, este filme pode servir de representação breve.

Trailer "The Experiment" (Detenção), 2010.

Trailer "Die Welle" (A Onda), 2008.

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Caio Proença

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