olhar sociocultural

Cultura Social na Arte, Fotografia e História

Caio Proença

Historiador, Fotógrafo, Mochileiro...

Dogville

Em Dogville, Lars Von Trier apresenta uma percepção pessimista da humanidade, onde impera o cinismo, a hipocrisia, a chantagem, a vingança, a mentira, e uma visão dogmática que, além de rejeitar qualquer alternativa, simplifica e naturaliza a maldade.


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De uma trilogia chamada "USA – Land of Opportunities", contendo Dogville (2003), Manderley (2005) e Washington (em produção). Dogville mostra que a inteligência é simplesmente uma faculdade, uma ferramenta – ela pode ser vista ou cegada, construída ou desconstruída; assim é em uma cidade dos anos 1930 nos Estados Unidos que Lars Von Trier cria. Podendo ser interpretado como uma alegoria ou uma sátira.

Dogville, um filme extenso e denso, integralmente feito dentro de um estúdio e utilizando técnicas de representação e composição de cenários minimalistas, pautadas pelo uso de artifícios dramáticos poucos usuais no cinema.

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Contada em tom de fábula, a cidade é descrita. Cada personagem já desenha uma simbologia, representando um microcosmo da sociedade (a igreja, a família, os intelectuais, os políticos, etc). Com o desenrolar da história, essas figuras ganham vida. Personagens como Grace, uma mulher que foge desesperada, até encontrar uma vila, é vista como um símbolo de solidariedade ou ingenuidade durante grande parte do longa. Tom, um rapaz introspectivo, acaba encontrando esta mulher, e convence a população da vila – que está bem apreensiva quando à chegada de um membro estranho neste universo – que acolha Grace com as seguintes condições: Grace deve ajudar X horas todas as famílias (bem poucas) da vila durante o dia, recebendo em troca abrigo e comida. Até que todos se familiarizem com a presença dela.

Tom apresenta as pessoas da vila com sendo pessoas boas, honestas, que são solidários entre si, para ajudarem Grace, e que o problema que ela enfrenta (sem teto e comida) é uma oportunidade para que a vila mostre sua moral. Ele quer usar Grace como uma ilustração, uma proposta perigosa, argumentada e arrogante – usar a vida de um ser humano como um experimento para provar seus argumentos iniciais: que as pessoas daquela vila são honestas, boas, etc.

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Eu sei algumas coisas sobre a vida em uma cidade pequena, tendo vivido em uma por alguns anos – eu sei quão lento o tempo passa lá, assim como para todos os habitantes daquela região, como o tempo é gasto com trivialidades e não com questões mais profundas, como os argumentos podem crescer sobre coisas pequenas e não sobre questões importantes e mais sérias. Os pensamentos raramente movem-se a fim de receber opiniões e sugestões, as vidas e os olhares dos seus habitantes são voltados não para si, mas para a vida das outras pessoas. Mas, mesmo julgando e criando fofocas sobre a vida das pessoas, estes habitantes também possuem uma privacidade. Talvez uma privacidade tão grande que os outros habitantes dificilmente conhecem a sua real personalidade.

Enquanto Grace ajuda os habitantes da cidade, podemos perceber os papéis que estes sujeitos atuam naquele microcosmo. Em uma casa, os comerciantes da cidade são expostos em sua ganância. Em outra casa, com mãe, pai e sete filhos, representa a família, a educação, o adultério. A Igreja, por sua vez, possui um sino que conta o ritmo da cidade, mas não tem um padre.

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A família, a igreja, a justiça, o estado, os bandidos, tudo é alvo da crítica e da criatividade do cineasta. A maior das metáforas é a própria cidade, que escancara a sociedade. Com um cenário típico, onde não há presença de paredes, podemos perceber em segundo plano as ações das outras famílias. Enquanto a cena principal roda, vemos algumas vezes personalidades aflorando, e situações únicas ocorrendo em segundo plano.

Algumas atividades corriqueiras dos Estados Unidos no período da Grande Depressão, que é o contexto deste filme, são mostradas brevemente pelo cineasta. O hábito de discutir as questões da comunidade em assembleias paroquiais – uma atividade coletiva – é representada no longa como uma máscara que esconde um individualismo conservador e possessivo, além do ódio ao forasteiro; quando Grace ensina o estoicismo aos filhos de Vera (Patricia Clarkson) lhes mostrando como suportar a pobreza e as frustrações sem revoltas, por exemplo.

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Estas assembleias são organizadas por Thomas. Ele engenhou uma série de reuniões sobre rearmamento moral, assim, este se sentia necessário ao beneficiar o vilarejo. Uma vez que, se percebeu que ele não tinha um status de tanta credibilidade dentre os moradores, pois, não fazia “nada em especial” e, sabendo que o cargo ou salário também determina o status do indivíduo num grupo deste contexto, vemos que, inicialmente, o rapaz só conseguia se auto-afirmar quando vencia de seu amigo no jogo de damas.

Tudo muda quando duas ações são feitas. A primeira, não muito importante, mas que desencadeará a segunda. Um policial chega na cidade e coloca um pôster com aviso de que Grace está desaparecida, concedendo assim a oportunidade de quem a ver avisar a polícia.

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Após algumas preocupações iniciais, um segundo policial chega à cidade. Este coloca um pôster de recompensa, para quem encontrar Grace avisar imediatamente a polícia, pois ela está envolvida em um assalto bancário.

A presença de Grace torna-se, então, mais custosa, e os habitantes da vila querem a sua recompensa. Com Tom aceitando, eles decidem que Grace deve trabalhar mais horas por dia por menos pagamento. Aqui o é o momento chave da peça. Algumas análises de cunho econômico diriam que, a partir do momento em que Grace não era uma perseguida pela polícia, a sua situação como empregado era estável. Já que tudo mudou, e uma recompensa pelo seu paradeiro está em aberto, os seus “chefes” cobrarão mais pelo seu trabalho. Como um grupo de imigrantes hoje, que pede empréstimo sem ter dinheiro para pagar se quer a primeira parcela do emprestado, Grace vira uma escrava da sociedade. Ela acaba sendo estuprada diversas vezes, com o argumento de que dinheiro algum pagaria sua estadia, somente os desejos de seus “donos”. Ela aceita, percebendo de uma forma bastante complexa de se entender, que o sexo está servindo de pagamento assim como servira seus trabalhos voluntários anteriormente.

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O fim do filme eu não contarei, mas deixo aqui a minha reflexão sobre o papel que o pai de Grace representa, no fim da trama: Ele, sendo um gangster, é representado como um Deus severo e vingativo assim como no Antigo Testamento. Ele chega, analisa, e julga. Assim como Grace, que recebe uma carga de sentimentos que serão refletidos no próximo filme da trilogia – Manderlay. O filme é uma crítica ao papel dos intelectuais como operadores sociais, que reforça a opinião do diretor: a humanidade não tem salvação.

Ouvi comentários que na cena final deste filme houve salvas de palmas nas salas de cinema onde o longa rodou.

Os letreiros finais deste filme, onde a música "Young Americans" de David Bowie aparece (que contém a linha "Você se lembra das contas você tem que pagar ou até mesmo ontem?"). Um final fantástico, uma lembrança de fatos controversos que muitos americanos não querem ver como representatividade de quem eles são, fatos tantas vezes ignorados podem ser esquecidos. Alguns críticos fizeram objeções ao rolo de crédito como anti-americano. Outros pensaram que o rolo de crédito brilhante. A exploração alegórica e satírica de personagens inventados Dogville, e as suas virtudes e vícios, são mais do que uma experiência em arte.

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Algumas contextualidades sobre a imigração holandesa nos Estados Unidos podem ser observadas, já que o diretor é holandês. Quando muitos imigrantes começaram a ir para América, buscando uma vida melhor, alguns não foram oficialmente (com a documentação adequada), tornando-se mão de obra explorada. Muito trabalho por pouco pagamento. A propaganda “This land is your land, this land is my land, from California, to the New York Island, from the Redwood Forest, to the Gulf Stream waters, this land was made for you and me” mostra muito do que Dogville tenta passar ao observador. A vida na América para algumas pessoas já foi pior do que a contada nos letreiros finais do filme. Coube de argumento, em discussões sobre este filme, a necessidade de demonstrar, também, que a maioria da população desconhece a história atrás de nomes como Cherokee, Kiowa, Mohawk, Narragansett, Ogala, Pequot, Sauk, Seminole, Shawnee e Sioux. Os nativos americanos, que tanto contribuíram para a cultura, comida, ideias de governo, espiritualidade.

Com caráter ficcional e a ironia bem explícita, faz com que tudo seja vivenciável como um jogo, sem a necessidade de prestar contas ao senso de realidade, e então toda a narrativa constitui, mesmo em sua escassez radical de elementos cenográficos, um prato cheio para o envolvimento emocional ad libitum. Como nada em Dogville é literal, sua pornografia também não, e na verdade seu suporte é precisamente a dissimulação irônica e teatral sofrida pelo desejo feminino de Grace.

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Mais que uma revolução pessoal e um marco entre os filmes de ficção recentes, “Dogville” é uma metáfora da sociedade contemporânea, de suas instituições e de sua hipocrisia.

Pretendo discutir o filme Manderlay em um artigo futuro.

DOGVILLE - trailer from Maria Luiza Souza on Vimeo.

Young Americans http://youtu.be/MHqerPJG-dI

Ideias e palavras foram organizadas a fim de completar uma ideia geral da análise de Dogville a partir dos seguintes papers, consulte para mais informações:

This Land is Your Land: Dogville Reason and Redemption, Rage and Retribution - Daniel Garret. Dogville Analysis - Skemster

CASTILHO, Áurea. Dinâmica do trabalho de grupo. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2002.

MINICUCCI, Agostinho. Relações humanas: Psicologia das Relações Interpessoais. 6 ed. São Paulo: Atlas, 2001.

Análise do filme Dogville - Luize Ricci (FADEP)

Cinema e Violência - Laranja Mecânica, Dogville e Cidade de Deus - Verlaine

Dogville or An Illustration of Some Properties of General Equilibrium - Heike Harmgart

O dogmatismo de Dogville - Alexandre Busko Valim

Pequena análise sociológica sobre Dogville - Suee (Blogger)

Análise filosófica Dogville - Autor Desconhecido

Political Analysis of Dogville - Skemster (Blogger)


Caio Proença

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