Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés

Lolita: uma história proibida

Toda a ousadia, intolerância, censura e proibição por trás do romance mais escandaloso do século XX.


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A peça chama-se “Lolita”, um monólogo teatral adaptado do romance homônimo lançado em 1955. Em cena, o personagem Humbert Humbert leria sua dramática história para a plateia. Mas todas as exibições foram adiadas por três meses. O ator principal, Leonid Mozgovoy, 71 anos, recebeu cartas anônimas ameaçadoras. Logo depois, foi a vez do diretor da montagem ser alvo de hostilidades. A situação se complicou de verdade quando o produtor da peça, Anton Suslov, 24 anos, foi atacado na rua por três homens. Acordou de uma concussão cerebral, olhos inchados, para descobrir que um vídeo das agressões fora postado na internet. As imagens de celular são muito borradas para identificar os agressores, mas o áudio é limpo: “Pedófilo”, gritam eles. Ninguém foi preso.

Pedófilo. A palavra foi pichada nas paredes do Vladimir Nabokov House Museum, museu dedicado ao escritor russo em São Petersburgo. A cidade é a quarta maior metrópole da Europa, segunda maior da Rússia, a mesma onde a peça “Lolita” era encenada. O prédio também teve o vidro de uma das janelas estilhaçado por uma garrafa arremessada da rua. No seu interior, um bilhete alertava sobre a “ira de Deus” contra a imoralidade promovida no museu. Dezenas de cartas intimidadoras, cheias de ameaças e erros ortográficos grosseiros chegam à instituição, mês após mês, conta a diretora Tatiana Ponomaryova.

Estes eventos aconteceram no início de 2013 e amontoam-se à polêmica, intolerância, incompreensão e indignação que cerca a obra literária de Nabokov quase 60 anos após sua publicação. O romance é um dos mais escandalosos do século XX. Conta a história de um professor de meia-idade obsessivamente apaixonado por sua enteada, uma menina de 12 anos, e mostra os desdobramentos trágicos desta história proibida num relato autobiográfico ao mesmo tempo sensível e visceral.

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Desde o seu lançamento, ou ainda desde as suas primeiras linhas, “Lolita” causou uma forte impressão. Não só pela liberdade plena do autor em transgredir, através da literatura, a moral de sua época (e de épocas além, como confirmou o porvir), mas também pela perícia com que o faz. Passado o choque inicial causado pelo enredo, o que se vê é um profundo domínio da língua e da expressão, metáforas e jogos de palavras únicos, “acrobacias linguísticas” definiria o escritor Mário Vargas Llosa anos depois. Foi a tensão entre a liberdade ética e a primazia estética de Nabokov que fez do livro o que ele é. Não fosse o seu talento, “Lolita” poderia se tornar um romanceco pornográfico e fetichista, ou pior, acabar como um decadente elogio à pedofilia. H.H. é o único narrador da história. Ler seu relato é enxergar com seus olhos, compartilhar suas dores e, quem sabe, sua paixão ou sua loucura.

Inicialmente, o autor tentou publicar sob o pseudônimo anagramático e suspeito de “Vivian Darkbloom”, mas uma pequena multidão de editores recusou o manuscrito sob as mais diferentes razões. Quando Maurice Girodias da editora francesa Olympia Press aceitou Lolita, é possível que Nabokov soubesse, empolgado, que a editora já publicara James Joyce e Henry Miller, porém ignorasse que seus últimos títulos não passassem de romancecos pornográficos e fetichistas...

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O livro saiu com o nome real do autor numa tiragem de cinco mil cópias, que venderam tão rápido quanto se espalharam pela Europa. Ao cruzar o Canal da Mancha, o escritor inglês Graham Greene classificou o livro como um dos três melhores do ano, mas sua opinião não impediu a proibição do livro no país. O jornalista John Gordon escreveu no londrino Sunday Express que o livro era “o mais pervertido que já lera”, e sua voz encontrou eco nas ruas. Quando descobriu-se que o político e editor inglês Nigel Nicolson planejava publicar o livro, sua candidatura ao parlamento e carreira de homem público foram enterradas para sempre. Um ano após acolher a ninfeta, também a França bania Lolita por dois anos.

Mas a polêmica já tinha ocupado muitas colunas nos tabloides e despertara o interesse público. Assim, quando a G.P. Putnam’s Sons publicou o livro nos Estados Unidos em 18 de agosto de 1958 as vendas foram enormes. Foi o primeiro livro, depois de “E o vento levou” a vender 100 mil cópias cópias nas primeiras três semanas. Poucos dias após seu lançamento, já se encontrava na 3ª edição. E apesar do livro ocupar o centro de espinhosos debates literários, psicológicos e morais no país, o livro nunca foi proibido nos E.U.A.

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Lolita ganhou o mundo. Só em português existem três traduções, a primeira, de Brenno Silveira, é de 1959. Neste mesmo ano, os hermanos argentinos traduziram para o espanhol. Como Franco controlava o país e a língua na Europa, a primeira tradução espanhola só seria publicada após a morte do autor. Dinamarca e Suécia se anteciparam com as primeiras traduções oficiais ainda em 1957. Dentre as mais atrasadas, a China só libertou Lolita de qualquer censura prévia ou expurgo em 2006, com o trabalho de Zhu Wan na Casa de Publicação de Tradições em Xangai.

O livro também ganhou duas adaptações cinematográficas que conversaram longamente com a censura. A primeira delas, Stanley Kubrick em 1962, foi a mais prejudicada (How did they ever make a movie of Lolita?, dizia o pôster de divulgação). A montagem do filme foi muito alterada pelas pressões morais, mas apesar de não ocupar um lugar de destaque na filmografia de Kubrick, é considerada um ousado clássico. A versão de 1997, de Adrian Lyne, foi muito mais livre e deu um fôlego extra à ninfeta 20 anos após a morte de Nabokov.

“Lolita” é a primeira e a última palavra do relato de H.H. É tudo sobre Lolita. A triste e obsessiva paixão de um homem tardio e uma garota precoce que a revista Vanity Fair declarou ser “a única história de amor convincente do nosso século”. Seu nome se enraizou na cultura POP como um sex symbol juvenil, que caminha de pés descalços na tênue fronteira entre a inocência e a malícia.

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A ninfeta permitiu que Nabokov vivesse de literatura. O que exigiu em troca foi ofuscar toda a sua obra restante. O escritor parecia ciente de sua sina em entrevista à Paris Review em 1967. “Se tivesse que escolher um único livro pelo qual seria lembrado que livro escolheria? ‘O que eu estou escrevendo, ou melhor, pensando em escrever. Na realidade serei lembrado por Lolita e por minha tradução de Púchkin, Eugene Onegin’”. Mais a frente completa, “Lolita tem fama, eu não. Eu sou um romancista obscuro, duplamente obscuro, com um nome impronunciável.”

Muitos biógrafos tentaram levar mais luz ao obscurantismo de Nabokov. Decifrar, em que momento da história o escritor encontrou uma possível Lolita, que paixão o teria inspirado. Nabokov foi casado com uma única mulher por toda a vida. Para desgosto dos conservadores de São Petersburgo, jamais foi acusado de pedofilia. Apesar de H.H. compartilhar algumas semelhanças com o seu criador (ambos eram professores, escritores, expatriados, jogavam tênis), reduzir Nabokov à Humbert é diminuir sua vida e seu gênio. Lolita é repleto de verdade e vida humana, mas não necessariamente a verdade e a vida de Nabokov.


Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés.
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