Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés

O coração das trevas e dos homens

Um escritor marinheiro desafia o rei que tinha um país africano no seu quintal. Conheça a história por trás do controverso romance que há 100 anos pôs a civilização em cheque.


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Em 1884 a corrida imperialista seguia veloz, mas novembro avançava sem pressa. Os líderes das principais potências europeias reuniram-se em Berlim em busca de soluções diplomáticas para seus conflitos comerciais. Sob alguns termos, repartiram entre si o continente africano, o domínio de seus territórios. Nenhuma nação africana esteve representada, e suas configurações sociais e políticas solenemente ignoradas. Desta conferência, o mapa da África herdou suas fronteiras em linha reta, ridiculamente arbitrárias, e seus conflitos internos, ridiculamente brutais.

A disputa diplomática pela África inflou nacionalismos e rivalidades das quais o rei belga, Leopoldo II, soube tirar proveito. Manipulando interesses numa manobra política ardilosa, ao fim da conferência ele tinha domínio pessoal sobre a vida de 30 milhões de pessoas e uma faixa de terra 70 vezes maior que a Bélgica. A inexplorada região central do Congo transformou-se na primeira e única colônia do mundo que era também uma propriedade privada. Uma espécie de colônia particular de Leopoldo.

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Palco de notórios desmandos e horrores sem par, o ironicamente denominado “Estado Livre do Congo” foi imortalizado pelo romance de Joseph Conrad, Coração das trevas, onde o escritor descreve o caos, corrupção, brutalidade e exploração em busca das riquezas (primeiro o marfim, depois a borracha) que se escondiam na segunda maior floresta tropical do mundo. A obra teve grande importância política, pois ajudou a desmascarar a ideologia civilizatória e progressista que justificava a ocupação europeia.

Era o tempo da máquina a vapor e da teoria de Darwin, à época, a opinião na Europa era de que a colonização era uma obrigação moral das nações civilizadas, uma boa ação de levar o progresso e a cristandade aos povos selvagens. A ficção conradiana chegou antes dos relatórios e denúncias de crueldade que escandalizaram os tribunais da Europa nos anos seguintes, e já demonstrava a farsa e os interesses comerciais por trás do discurso nobre. Mas como o escritor pôde relatar com tamanha precisão a realidade nefasta da colônia?

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Entre 1890 e 1891, Conrad, que também era marinheiro, capitaneou um pequeno barco pelos rios caudalosos do Congo. Em sua carga, levava os trilhos da primeira estrada de ferro construída no país. Lá se deparou com milhares de homens e mulheres em regime de trabalho forçado, tendo a fome, a doença e as correntes como única perspectiva. A experiência do que viu e viveu o transformou completamente, e levou sua prosa ao cânone moderno. “Eu era um animal antes de ir ao Congo” escreveria mais tarde.

Embora não mencione nunca o Congo, a Bélgica, tampouco Leopoldo II, o autor deixa pistas sugestivas na geografia do cenário e nas cuidadosas, porém sutis, descrições que faz no livro. Com uma linguagem surpreendentemente envolvente e fluida para uma obra escrita há mais de um século, seu livro se revela atual não apenas pelo tom, mas por sua temática.

Coração das trevas não é uma simples crítica política ao modelo imperialista. A obra é, antes, uma narrativa reflexiva sobre a moral, o contato com o outro, e o que ele diz sobre nós mesmos. Neste sentido, é um texto paradoxal. Quando se refere à calma e o silêncio do rio, o que Conrad pontua é a ausência de paz interior. Quando fala de certa humanidade nos selvagens, é para ilustrar certa selvageria do homem branco colonizador, e se vai aos confins da floresta é para avaliar sua própria civilização.

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A novela ilustra a escuridão no coração humano, que se manifesta ao rompermos os laços sociais, seja pelo afastamento físico ou sentimental. Esta escuridão, a que alguns chamariam maldade, acompanha até mesmo aqueles mais educados e doutos, cheios de nobreza em sua vontade, dos quais o personagem Kurtz é talvez o exemplo mais claro.

Homem das letras e da ciência, dotado de uma personalidade magnética e sedutora, culto e bem intencionado, Kurtz é o ideal de cidadão europeu. Nada disto impede que o homem perca sua moral e sanidade na selva, tornando-se um líder tribal perverso e megalomaníaco. A corrupção moral de Kurtz pode parecer simplória ao leitor contemporâneo, mas além de antecipar em décadas os trabalhos de Freud sobre a pulsão de destruição e o mal-estar na civilização, vem de uma época em que se acreditava que o caminho natural da humanidade era evoluir em civilidade e progresso.

O tema é ao mesmo tempo histórico e atemporal. É possível observar a escuridão de Conrad em diferentes lugares e momentos históricos. Seja na expansão romana (à qual faz referência no livro), no extermínio dos ameríndios, ou no imperialismo europeu. Talvez por isso, em 1979, o cineasta Francis Ford Coppola obteve tanto êxito transportando as questões do livro para a tela no filme Apocalypse Now! No lugar do Congo, o cenário é o Vietnam em guerra. A floresta, o rio, Kurtz e a escuridão continuam presentes, levemente adaptados.

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Coppola teve a presença de espírito de, numa cena, mostrar Kurtz recitando o poema de T.S. Eliot, The Hollow Men, cuja epígrafe é o emblemático excerto de Coração das trevas: “Mistah Kurtz – he dead” (sinhô Kurtz – ele morto). Do poema interpretamos que nada morre de verdade, e ouvi-lo da boca de Kurtz, um personagem revivido na tela, só aumenta a sensação de que ele nunca morrerá.

Mas ele morre, e em seu suspiro final Kurtz lança um dos maiores enigmas da literatura: “O horror! O horror!”. Que visão inspirou suas palavras, se significaram redenção, arrependimento ou insanidade jamais saberemos. O que sabemos é que o horror e a escuridão saíram da floresta e visitaram a Europa poucos anos após o vislumbre de Conrad.

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O massacre de 5 milhões de congoleses parece até pequeno diante das quase 20 milhões de vidas ceifadas pela primeira guerra mundial. A Europa viu a selvageria em seu território, e a civilização em colapso. A segunda grande guerra que se seguiu, e os genocídios que marcaram o novo século na África (inclusive no processo de independência do Congo, que só aconteceu em 1960) mostram que o coração das trevas e dos homens, volta e meia, batem no mesmo compasso.


Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés.
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