Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés

Aliens, androides e a condição humana em Ridley Scott

A ficção científica nos transporta para outra realidade, mas o preço da viagem é a reflexão do nosso próprio mundo. É assim que Ridley Scott e seus filmes cheios de alienígenas e androides discutem com profundidade os dilemas da condição humana.


rachel-smoking-1024x639.jpg

É admirável como a ficção é capaz de construir narrativas com personagens e lugares extraordinários, e que ainda assim guardam profundas semelhanças com os personagens e lugares da nossa experiência mais imediata e ordinária, o dito mundo real.

A ficção científica de Ridley Scott é povoada por criaturas alienígenas fantásticas, e/ou androides indistinguíveis de humanos. Viagens espaciais intergalácticas são rotineiras e a colonização do espaço parece uma consequência óbvia. Pessoas transitam indiferentes por cidades com arranha-céus obscenamente altos, e dirigem veículos voadores em velocidade bem acima das nuvens.

Esses elementos são um elegante adereço narrativo do gênero, e se os filmes constroem esses cenários fantásticos é para depois mergulhar no verdadeiro absurdo que é o mundo real. Quem ignora este “choque de anti-realidade”, seduzido pela poética arrebatadora da ficção, pode pensar que o gênero se afasta demais dos problemas cotidianos, se desconecta das questões importantes do mundo real, desvia as atenções do espectador.

blade-runner-flyby-1024x576.jpg

Não se pode estar mais enganado. Grandes ficcionistas como Jules Verne, Orwell e Huxley, a despeito do caráter fantástico de sua ficção, mantiveram suas obras em profundo contato com a realidade e não são poucas as vezes em que suas histórias se alinharam com a História (com H maiúsculo, a história humana), seja na sua compilação ou ainda na sua antecipação. Nas palavras do escritor Joseph Conrad: “A ficção é história, história humana, ou não é nada. Mas também é mais que isso: ela se apóia em chão mais firme, baseando-se na realidade das formas e na observação dos fenômenos sociais, enquanto a história é baseada em documentos e na leitura de impressos e de manuscritos – em conhecimento de segunda mão. Assim, a ficção está mais próxima da verdade. Mas deixemos isso de lado. Um historiador também pode ser um artista, e um novelista é um historiador, o preservador, o detentor, o expositor, da experiência humana.”

E acima de todas as coisas, é sobre a experiência humana de que se trata Blade Runner, Alien, e Prometheus. Cada um a seu modo, os filmes tangenciam questões como a valorização da vida e do seu sentido, o medo da morte, a relevância de nossas memórias e das memórias que farão de nós, o que nos move, o que nos torna humanos.

blade_runner-voight-kampff1-e1351739895191.jpg

Um dos recursos mais interessantes utilizados na exposição deste drama humano é o ponto de vista dos androides. Inicialmente distantes e indiferentes, tornam-se inevitavelmente próximos de uma humanidade quando pensamos sua condição sob o prisma da criação X criador. O sentido de sua existência também está fora dos limites de sua compreensão, porém para eles a interpelação do seu criador é muito mais acessível e natural.

Talvez por isso seja tão fácil se identificar com os androides da ficção de Scott, até mais do que com os personagens humanos. Eles fazem todas as perguntas que um homem razoável faria em face do seu criador, e a estreiteza ríspida das respostas que recebem combinam, e muito, com o silêncio eloquente que ouvimos ao fazer as mesmas perguntas. A insatisfação dos androides com sua condição de robô é um eco da própria inquietação humana diante da vida. Ash, o robô androide de “Alien”, traz nos olhos certo desapreço pelos humanos. Secretamente, ele despreza as emoções que dirigem a espécie que o criou. O espécime alienígena que sua curiosidade científica e desobediência Asimoviana fez entrar na nave Nostromo, este sim tinha sua admiração.

“I admire its purity. A survivor… unclouded by conscience, remorse, or delusions of morality.” (“Eu admiro sua pureza. Um sobrevivente… sem ilusões de consciência, remorso ou moralidade” numa tradução livre e meio porca). Em sua visão de “homem” das ciências, estas emoções humanas seriam despropósitos, uma fuga ao sentido primário da vida que é sobreviver. Porém, sobreviver não é viver. Nossas ambições, para além do ciclo “Nascer-Procriar-Morrer”, nos afastaram da condição animal e nos colocaram numa outra esfera.

A formação de uma cultura, da consciência, de uma moralidade são exatamente os pilares onde costumamos sustentar a nossa ideia de humanidade, de vida humana. A vida admirável para a racionalidade robótica de Ash significa a vida em estrita evolução darwiniana. É por isso que o alien, prodígio de adaptação, reacende sua curiosidade pelo sentido da existência, e os humanos são tão decepcionantes. Ele resolve proteger a “forma de vida superior”, a tripulação humana se torna descartável. Quando seu plano e sua condição de androide são descobertos, os sobreviventes o deixam semi-destruído. Próximo da morte ele faz cálculos sobre as chances dos humanos contra o alien, e os ironiza uma última vez dizendo que eles têm sua “compaixão”.

cyborg-ash-alien2.jpg

Em Prometheus, o robô androide David, tripulante da nave que viaja em busca do sentido da vida humana, também não tem os humanos em alta conta. Porém há um avanço na complexidade de sua visão da vida. David é um personagem mais esférico que Ash, os minutos iniciais do filme acompanham a sua rotina na viagem enquanto os outros hibernam. Ele adquiriu gosto pela cultura e pela erudição, e desempenha um papel importante na missão, de natureza intelectual. De certa forma ele admira e cultua este seu aspecto, mas a falta de reconhecimento dos humanos, mesmo dos que ele considera menos inteligentes e mais incapazes, lhe impõe sempre um lugar rebaixado. O fato de todos saberem que ele é um robô, apesar de sua aparência muito humana, também contribui para acentuar um tom cada vez mais cínico de sua personalidade.

Para os humanos (incluindo seu próprio “pai”) David é uma máquina sem alma, mas ele desenvolveu suas próprias ambições e sentimentos, ainda que primários. Sua decepção em face do seu criador é como uma antecipação ao fim inócuo da expedição – o contato brusco e vazio de significado entre humanos e engenheiros é bastante similar ao tratamento ríspido e seco que David recebe durante todo o filme, o que reafirma o paralelo entre androides e humanos. Suas aspirações na expedição são tão particulares quanto insondáveis. Talvez ele busque seu próprio propósito na viagem, ou espere que uma luz sobre a origem da vida humana lhe traga também algumas respostas.

A postura de David diante da vida representa um progresso comparada à de Ash, pois ele consegue ampliar seu campo de visão e aproximá-lo mais do que nós entendemos por viver. Gostar de um filme ou livro, aprender coisas novas, nos transformar com as experiências. David deu um passo adiante na experiência humana e trilhou caminhos que Ash se recusou. Como os homens, ele incorpora a cultura como parte da vida. Não me surpreende que Michael Fassbender, ator que interpretou David, para construir o personagem tenha se inspirado não no androide do primeiro filme da série Alien, mas nos androides de outro filme de Scott – Blade Runner.

prometheus-michael-fassbender1-1024x672.jpg

Em Blade Runner, os androides não são robôs mas prodígios da engenharia genética, replicantes (Se você colocar “replicante” na busca de imagens do Google a replicante “Pris“, personagem secundário do filme, aparece primeiro que o filme do van Damme). São de carne e osso, mais fortes e rápidos que humanos, e “tão inteligentes quanto os engenheiros genéticos que os criaram”. Exatamente como homens exceto pelo tempo de vida pré-determinado, 4 anos. A dificuldade de identificação é tão grande que o uso de replicantes foi proibido na Terra. Eles são usados em trabalhos perigosos e degradantes no espaço, e a única maneira segura de saber se são humanos ou não é o estiloso teste de empatia Voight Kampff que analisa respostas a estímulos emocionais típicos da mente humana.

O grande diferencial dos androides em Blade Runner é que eles são muito mais humanos. Não apenas biologicamente, mas são dotados de uma personalidade completa, de gostos, talentos, memórias, consciência e também de toda a inquietação humana. “Eu penso, logo existo!” afirma Pris num esforço de convencimento, talvez a si mesma. É claro que o fato de Pris pensar não lhe assegurou o direito da condição humana. A citação cartesiana da androide é na verdade uma crítica ao pensamento racionalista. Há algo para além do pensar que nos dá humanidade? Pris é um “modelo” básico de prazer, feita para serviços sexuais e se veste como uma boneca. A sensação de vê-la vestida dessa forma é de estranheza absoluta e funciona como um cartão de visita onde se lê em letras enormes “eu não sou uma boneca”. A miséria de sua condição é que o verso deste cartão diz “Tampouco sou humana” e lhe põe numa crise terrível.

blade-runner-pris-1024x576.jpg

Rachel, outra androide de destaque, foi projetada “à imagem e semelhança” de uma falecida sobrinha de Tyrell, o grande tubarão da corporação que produz os androides e engenheiro genético responsável pelo cérebro dos androides. As memórias da sobrinha de Tyrell implantadas nela, a tornaram emocionalmente mais estável do que a maioria dos seus semelhantes. O teste Voight-Kampff exige muito mais tempo com ela, porém acaba detectando sua artificialidade, que nem mesmo ela conhecia. A crise de identidade sofrida por Rachel após essa descoberta não é menos humana do que qualquer outra já filmada no cinema. Ela tenta todos os clichês, de mudar os cabelos a viver um amor, de beber a fugir da cidade.

Roy Batty, o androide líder do grupo que volta a terra em busca de respostas , é o mais complexo e mais interessante personagem do filme. O seu objetivo é encontrar Tyrell, seu criador, e pedir mais tempo de vida, fazer-lhe os questionamentos e exigências que nós sempre quisemos fazer aos deuses. Sua Odisseia para encontrar o criador é repleta de belezas sutis, transborda sensibilidade e o odisseu androide tem a simpatia do espectador mesmo nos momentos mais sombrios do filme.

Roy e Pris, que formam algo muito parecido com um casal, acabam conseguindo a solidariedade do engenheiro genético Sebastian que forma algo muito parecido com uma amizade com Tyrell. Sebastian tem uma doença peculiar, decrepitude acelerada (Síndrome de Matusalém) que faz seu corpo envelhecer aceleradamente. A doença lhe põe numa situação bastante parecida com a dos androides e ele (mesmo que sem muita escolha) se solidariza à sua causa. Roy chega a Tyrell por um movimento intelectual, pelo brilho da mente projetada por seu criador. Um movimento de Xadrez, um lance decisivo num jogo que Tyrel vinha travando com Sebastian serve de passagem para o encontro dos dois. Ele ascende aos aposentos do seu criador que ironicamente está na altura das nuvens, num edifício altíssimo.

bladerunner-roy-chess1.jpg

Roy quer respostas, Roy quer mais tempo de vida. Seu criador não lhe dá nada, não pode lhe dar nada e Roy entende, enfim, o drama humano. Todos nós temos de nos satisfazer com o tempo que nos é dado, com as respostas e propósitos que nós mesmos produzimos, esta é a tragédia humana. E Roy, que nem mesmo é humano (ou seria?), é o único personagem dos 3 filmes que alcança e suporta essa verdade. Roy abraça seu criador e esmaga-lhe o crânio, esmaga sua intelectualidade, seu potencial de criação. Mata com as próprias mãos as mãos que o criaram. Quem nunca teve vontade de subir aos céus e partir pra cima de deus jamais entenderá o ato. Próximo da sua morte, ele resgata Deckard (androide ou humano?), seu perseguidor, da morte certa num ato que pode ser interpretado de duas formas. Uma é que um sentimento muito humano tomou conta dele, a compaixão. Verdadeira compaixão (não aquela simulada por Ash) com a dura experiência humana que agora, não era só do seu algoz mas também sua. Talvez a sua experiência seja ainda mais branda, pois ele ao menos teve a chance de esmagar a cabeça do seu criador, prazer inalcançável aos homens. A outra interpretação possível é que ele deixou Deckard vivo para que ele próprio não morresse no esquecimento. No seu monólogo final, Roy enumera os fantásticos acontecimentos de sua vida e conclui tristemente “todos estes momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de Morrer.”

Em seus momentos finais, como qualquer homem, tudo com que ele se preocupou foi com o que restaria de sua memória. Se isto não foi um sinal claro de que “o pinocchio virou um menino de verdade”, certamente, a pomba branca que sobe aos céus na cena seguinte é. A pomba é símbolo da alma liberta de Roy, a alma que David queria para si, a alma que Ash ignorava. A alma que os homens tentam entender a todo custo. Esta (des)construção do conceito de humanidade, que nos leva ao limite da experiência humana para repensá-la é o grande êxito dos filmes. A ficção de Scott, repleta de alienígenas e androides, por fim, conta excelentes histórias sobre homens, suas vidas e suas mortes.

blade-runner-deckard-e-roy-rain-1024x676.jpg


Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Marco Antonio Cruz