Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés

Graffiti no museu

Afinal, é possível fazer street art dentro de galerias? Conheça 2 filmes que mostram a relação de flerte e desprezo que existe entre o circuito de arte em galerias e museus e o mundo do Graffiti.


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Revi recentemente, dois documentários que retratam, cada um a sua maneira, a relação de flerte e desprezo que existe entre o graffiti e o circuito formal de exposições de arte em galerias e museus. A raiz deste conflito está na origem destas manifestações artísticas? Afinal, é possível fazer street art dentro de galerias?

Graffiti Wars (Jane Preston, 2011), retrata a rixa entre um dos maiores grafiteiros da Inglaterra, o pioneiro King Robbo, e um dos maiores expoentes da arte de rua contemporânea, Banksy, que possui obras expostas nas mais conceituadas galerias do mundo. Diferenças pessoais e estilísticas entre os dois renderam não apenas uma memorável disputa artística, que teve como palco os muros de Londres, mas também elevaram uma importante discussão a respeito das tensões entre arte e vandalismo no graffiti, dos limites legais da atividade, suas políticas públicas de repressão e, principalmente, a dificuldade do gênero em inserir-se nos circuitos formais de arte sem perder sua legitimidade.

Já o filme Exit through the gift shop (Banksy, 2010) mostra a história supostamente real de Thierry Guetta e sua progressiva e insólita transformação no artista Mr. Brainwash. O filme é produzido e co-dirigido por Banksy, e conta através da privilegiada posição de Thierry, o crescimento e consolidação da arte de rua no mundo e sua progressiva incorporação pelas galerias. Apesar das dúvidas a respeito da veracidade da história e dos fatos relatados no filme, os questionamentos acerca dos valores estéticos e da lógica de mercado que regem a arte (pós?) moderna são muito pertinentes.

Pouco importa se a história de Thierry é real ou não, a mera possibilidade de que seja verdadeira já mostra o tamanho da crise. Não podemos dizer com certeza se Mr. Brainwash está para Banksy assim como o urinol está para Duchamp, ou se Brainwash é urinol e Duchamp fundidos num só. Esta é a graça do filme.

Em Graffiti Wars, vemos que a rixa Banksy X Robbo é cercada de mistérios, mas o estopim acontece quando Banksy aplica um de seus stencils sobre a última obra remanescente de Robbo: um painel que perdurou 25 anos no centro de Londres (período que, devido à instantaneidade no mundo do graffiti, pode ser comparado a uma pintura da idade média, uma verdadeira instituição). A atitude teria irritado a comunidade de grafiteiros e o próprio Robbo que abandonaria um longo período de inatividade para protagonizar uma disputa de talento, irreverência e criatividade.

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Do lado de Robbo, um verdadeiro time de grafiteiros que acusam seu rival de ser um “vendido” “pouco original”. Do lado de Banksy, uma legião de fãs, mais ou menos leigos, e o apoio institucional das artes e da polícia. A divertida e confusa explanação do responsável pela remoção de graffitis das ruas sobre a razão de sua equipe não apagar as obras de Banksy é impagável.

Se por um lado Banksy não gozava de muita popularidade entre os grafiteiros apesar do sucesso nas galerias, Robbo foi coroado por seus pares, mas não conseguia estender sua influência para além do mundo do graffiti. Ao longo do filme acompanhamos o interesse (e posterior sucesso) de Robbo em levar o seu trabalho para o interior das galerias, mas o infortúnio de seu coma nos impede de avaliar a reação do público. Seria ele também acusado de vender-se no futuro?

Outro ponto interessante é a discussão sobre até que ponto a apropriação da obra de Blek le Rat por Banksy pode ser considerada influência. O Team Robbo frequentemente acusa Banksy de cópia e plágio em suas representações de soldados, madonnas e ratos – marcas registradas do trabalho de Blek. A expressão silenciosa e hesitante do artista francês quando perguntado se ficava ressentido com o trabalho de Banksy é um dos pontos altos do filme.

Exit through the gift shop também trata da legitimidade do artista de galeria. Ou melhor, do artista de rua na galeria. “É como ouro… você faz assim e bang! Dezoito mil dólares.” diz Mr. Brainwash depois de colocar um tapa-olho na Monalisa. O primeiro objetivo na realização do filme era refutar a ideia de que os artistas fazem o que fazem pelo dinheiro. Ironicamente, acaba por criar no processo um Frankenstein das artes visuais, formado por muitas partes diferentes sem jamais formar um todo coeso, além de profundamente ligado ao valor financeiro das obras. O filme é cheio de verdades inconvenientes sobre o mundo da arte, seus mercados e atores, e aborda a legitimidade não apenas do graffiti, mas de toda a arte moderna, sua estética e consumo.


Marco Antonio Cruz

Marco Antonio Cruz não tem acento no nome. Não acredita em elogios e não lida bem com críticas. Tem a natureza trôpega, e quem atira pedras em seu caminho acaba consertando seus pés.
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