Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

A cidadezinha eslovaca das mil e uma formas

As casas de Cicmany são iguais na arquitetura. É na pintura das paredes escuras que cada uma revela sua identidade: pássaros emergem de ornamentos botânicos, e dividem o espaço com padrões geométricos e formas abstratas. A aparente normalidade do lugar é escanteada pela curiosidade. Quando um lugar é simples demais... deve haver algum mistério escondido nele.


Casas Cicmany.jpg A arquitetura peculiar de Cicmany.

Enrole o seu recém nascido em um manto de lã e ele terá cabelos encaracolados. Meninos nascidos na presença de martelos serão fortes, e meninas, ao lado de agulhas, boas costureiras. A presença de um livro e um lápis, durante a gestação da mãe, fornecerá fácil aprendizagem à criança. Simples assim.

É curta a distância entre causa e efeito na mitologia da cidade eslovaca de Cicmany. Assim como é curta a distância entre o início e o fim do município. Uma única rua abriga a prefeitura, o bar e o mercadinho. É por ela que passa, dezenas de vezes ao dia, o mesmo grupo de crianças, separando-se em um ponto para depois reunir-se em outro, como que na missão nada impossível de brincar um pouco na frente de cada casa da vila antes que a noite apareça.

Os costumes da população que desde o século XIII vive lá são expostos no pequeno museu instalado em uma casa de dois andares bem no meio da cidade. Não é raro, porém, deparar-se com os hábitos que o museu faz questão de preservar sendo praticados na ruas ao redor dele.

À sombra de uma macieira, uma senhora estende no seu varal roupas iguais às que o museu expõe como sendo uma raridade: ela mesma, inclusive, veste-as. Arregaça as mangas, uma por vez, modelando em volta do braço o que parece um origami de pano tamanha é a delicadeza que dedica a cada dobra. Pega, pelo decote em forma de V, a bata branca que parece ser de sua filha, e a faz repousar sobre a fina corda à sua frente, com um cuidado que faz jus aos intrincados padrões geométricos nela costurados. Os prendedores, inexistentes, são mesmo desnecessários: assim como a modernidade, o vento ainda não encontrou o caminho para chegar até Cicmany.

Cicmany Dia.jpg A rua principal da cidade.

No terreno vizinho, a família toda está no quintal. Sentados na grama, dois adultos e uma criança observam a jovem que, equilibrando-se em um banquinho de madeira, reforça com um pincel grosso as linhas brancas que recobrem as tábuas de madeira negra da parede de sua casa. Com o olhar compenetrado, a jovem joga bruscamente a cabeça para o lado, afastando a franja loira a cada vez que ela teima em se intrometer na sua frente. O traço firme do pincel recém mergulhando na tinta branqueia ainda mais os ângulos retos, as linhas cruzadas e as curvas espiraladas que se repetem e enfeitam o exterior de seu lar. Sempre que a menina recua pra enxergar o trabalho que vem fazendo, os seus pais acenam a cabeça em sinal de aprovação. Em Cicmany, as novas gerações não passam por cima dos hábitos das antigas: reforçam-nos.

A tinta branca que a menina usa é na verdade uma mistura a base de calcário, que servia originalmente para preservar a madeira diante do frio severo do inverno e do sol forte do verão. Conforme a população foi encontrando outros meios de deixar a madeira mais resistente, as paredes totalmente brancas tornaram-se supérfluas. A quantidade de calcário usado diminuiu até que restassem somente as formas que se mantém até hoje: sobrevivem como um lembrete de que a beleza surge justamente da harmonia entre homem e natureza.

Além das formas geométricas, há pássaros, corações e desenhos florais, todos inspirados nos bordados que sempre foram feitos nas vestimentas e tapeçarias dos habitantes da cidade. Não servem para espantar maus espíritos, trazer boa sorte ou evocar qualquer tipo de superstição. É curta a distância entre causa e efeito em Cicmany.

- Foram os húngaros que trouxeram esses temas para cá, quando se assentaram na região. – explica-me a guia do museu. Simples assim.

O museu chega a perder um pouco da sua importância como instrumento de resgate da cultura local frente ao inquestionável: em Cicmany, a tradição não vive confinada ao passado. Em Cicmany, a história ainda está sendo escrita. Com um dicionário em mãos, e um arsenal infinito de gestos a complementar as palavras, meio em eslovaco e meio em inglês, a guia continua contando, orgulhosa:

- No natal, o costume mandava que oito meninas de 9 anos entrassem na sala da casa, vestidas todas de branco, e dançassem em silêncio.

- E por quê? – pergunto eu.

- Para que pudessem ser recompensadas com maçãs e nozes, ao final da dança. – responde ela, séria, numa espécie de represália por eu não ter adivinhado o óbvio. Simples assim.

A guia percebe o retorcer das minhas sobrancelhas, e deduz meu incômodo com as suas explicações. Meu silêncio clama - com o perdão da redundância - justamente por detalhes mais... explicativos. É aí que ela arqueja um sorriso confiante, e me garante, certa de que sabe aquilo em que estou pensando:

- A beleza da história desse lugar não está no detalhe, menino. A beleza está no todo.

Cicmany Noite.jpg As formas pintadas em branco se destacam quando a madeira negra é engolida pela escuridão da noite.

É mais tarde, quando o céu já começa a emprestar um pouco da negritude da madeira das casas da vila, que eu, passando ao lado de uma janela envolta por linhas espiraladas e pequenos círculos, sinto-me compelido a parar. Inclino-me em direção aos desenhos ao redor da janela e considero-os, pela primeira vez, exageradamente simples: meros punhados de traços ordenados mecanicamente. Riscos pueris, ângulos convencionais, nada demais. Aos poucos, porém, enxergo as formas entrando em sintonia, mesmo que elas não estejam se movendo de verdade: fui eu quem recuei alguns passos.

O simples e o complexo se justapõem, dependendo da distância com que se olha. Cicmany é um lugar que redefine a cada instante as fronteiras entre esses dois conceitos. Enquanto um pequeno grupo de turistas faz malabarismos com o corpo frente a uma porta pintada, de modo a conseguir o enquadramento perfeito para suas fotos de recordação, uma senhora com mais anos que todos eles juntos pedala despretensiosamente, sem destino algum. Engenhosamente ou simplesmente, levam a vida, cada qual à sua maneira. E, diante daquela sinfonia de linhas e curvas, imóvel mas dançante, o branco sobre o preto, a voz assertiva da guia do museu ecoa na minha cabeça: “A beleza está no todo”. Finalmente, acho que começo a apreender o segredo desse lugar.


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
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