Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias.

A última vila medieval da Bósnia

O cenário é idílico. O povo é dócil. A cultura é praticamente intocada pela modernidade. E, justo por isso, este paraíso está prestes a ser abandonado para sempre.


FumanteEmLukomir.jpg

No começo da Guerra da Bósnia, todas as cidades e aldeias do leste do país estavam nas mãos do exército sérvio. À guisa de impedir a independência da recém proclamada Bósnia e Herzegovina, e de promover a unidade de uma grande república sérvia, as forças de Slobodan Milošević executaram uma das limpezas étnicas mais repugnantes do nosso passado recente.

Residências de bósnios muçulmanos eram saqueadas e queimadas, civis eram capturados e torturados, mulheres eram violadas e assassinadas. O massacre de Srebrenica foi o emblema maior desse genocídio: em menos de um mês, mais de oito mil bósnios foram mortos em uma área protegida pela ONU e declarada segura, dois anos antes. No auge da guerra, o domínio sérvio se alastrou pelo país, e as forças militares dizimaram todas as comunidades bósnias às quais tiveram acesso.

Se a vila de Lukomir ainda existe, é porque o isolamento a salvou do extermínio.

Lukomir Panorama.jpg

Ainda no século quatorze, semi-nômades começaram a se assentar no topo dos mil e quinhentos metros da montanha Bjelašnica. A escassez de água nas regiões mais baixas da Bósnia central, durante o verão, era fatal para seus rebanhos de ovelhas. A abundância de rios e cachoeiras os levou a criarem o assentamento de Lukomir, que viria a se tornar não só a mais antiga, como também a mais alta comunidade de todo o país.

A estrada que leva à vila é recente. Serpenteando por uma cadeia de montanhas, o caminho de terra é - apesar de providencial - precário e intransponível para a maioria dos automóveis. Ônibus, nem pensar. Só se chega de jipe ou a pé. Antes disso, a única ligação entre Lukomir e o resto da Bósnia era uma trilha de duas horas, que descia um cânion de 800 metros, atravessava um rio e subia uma montanha para emergir na comunidade “vizinha”.

- Até pouco tempo atrás, a gente nem sabia o que era receber um visitante. – recorda Ismet, o senhor de setenta anos e sobrancelhas hirsutas que me recebeu. – Foi só depois dessa estrada que as pessoas descobriram que uma vila tinha conseguido se manter intacta mesmo durante a guerra.

A estrada não só trouxe visitantes, como também um tímido influxo de modernidade. No final de 2012, a maioria das poucas dezenas de casas já possuía energia elétrica. E a arquitetura tradicional, notada nas paredes montadas com grandes blocos de pedra que se prolongam em telhados pontiagudos, começava a ser modificada pela adição de telhas de alumínio, importantes aliadas no combate ao frio.

Lukomir.jpg

- Você não tem ideia de como esse lugar fica gelado no final do ano. – Ismet disse.

Mas alguma ideia eu tinha. Em pleno outono, ele vestia um gorro felpudo e algumas camadas de jaquetas sobrepostas. Sua mulher, espreitando-nos pela janela de casa, tinha a cabeça enrolada por um turbante cor-de-vinho, o pescoço envolto por um cachecol rubro, e as mãos costurando um par de meias de lã característico do artesanato local.

- De dezembro a abril, fica impossível entrar ou sair de Lukomir. – Ismet continuou. – A neve bloqueia a estrada e as trilhas. É complicado cuidar dos rebanhos. Por isso que, já faz um tempo, alguns habitantes descem para a casa dos seus filhos, em Sarajevo, fugindo do inverno. E só voltam na primavera seguinte.

Acontece que, a cada ano, mais habitantes abandonam a vila com a chegada do inverno. E, a cada ano, menos retornam na primavera. Em Lukomir, talvez a modernidade tenha chegado tarde demais.

- A primeira nevasca do ano já caiu. – Ismet apontou para algumas montanhas com os picos brancos, ao longo do cânion sobre o qual a vila parecia se debruçar. – Em duas semanas, mais ou menos, quem quiser deixar Lukomir já deve ter ido embora.

Lukomir Casal

Ele mesmo se enquadrava entre os que estavam de partida. A única coisa que o prendia ao local era a vaca que ainda tinha em seu nome.

- Vendi ela na semana passada. – contou, aliviado. – Agora posso ir.

- E ovelhas, tu não tem? – eu perguntei.

- Algumas. Mas vão junto. Botar uma vaca na traseira de um jipe é que é mais complicado.

Nariz protuberante, pele esculpida pelas rugas, e o capuz quase pulando pra fora da cabeça, Ismet não somente se parecia com um personagem de filme. Em 2010, um grupo de holandeses filmou um documentário que acompanha o cotidiano da vila durante o curso de todo um inverno, e Ismet é um dos habitantes locais que tem a rotina capturada pelas câmeras.

O filme é um registro importante, já que imortaliza uma realidade prestes a se extinguir. Quando visitei a vila, conversei com todos os quinze senhores e senhoras que lá estavam. E nenhum deles tinha planos de regressar ao fim do inverno seguinte. Pela primeira vez, existia a possibilidade real de que Lukomir fosse completamente abandonada.

O isolamento já salvou Lukomir da ação devastadora do homem. Mas hoje é o que torna a vila tão suscetível a ação do tempo. É difícil prever até quando o local se manterá de pé. Só se pode garantir que o brio de todos os que lá habitaram permanecerá vivo, pra sempre, ao menos nas páginas da história.


Felipe Gaúcho

acha que o lar do passarinho é o ar, em vez do ninho; sente-se nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo; e não vê problema em emprestar citações alheias..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Felipe Gaúcho